Universidade Sénior de Tramagal cresce e desafia idosos a “largar o sofá”. Foto: mediotejo.net

“Quem entra permanece e participa. O mais difícil é trazer novas pessoas”, afirmou ao mediotejo.net Alexandrina Venâncio, coordenadora da Universidade da Terceira Idade de Tramagal (UTIT), defendendo que o projeto ajuda a manter uma vida mais ativa depois da reforma.

A responsável, que assumiu a coordenação recentemente, resumiu de forma direta um dos principais obstáculos à adesão: “O sofá é o nosso inimigo número um”.

Segundo Alexandrina Venâncio, há pessoas que se acomodam à permanência em casa e que, quanto mais tempo ficam em situação de isolamento, maior dificuldade sentem depois em voltar a sair e a participar em atividades.

Universidade Sénior de Tramagal cresce e desafia idosos a “largar o sofá”. Foto: mediotejo.net

“Quando vêm pela primeira vez, depois dizem: ‘Porque é que eu não vim logo há mais tempo?’”, contou, deixando um apelo especial aos homens, que continuam em clara minoria entre os alunos da universidade sénior.

“Larguem o sofá e venham envelhecer saudavelmente e ativamente”, desafiou.

A UTIT inicia o ano com 49 alunos inscritos, mantendo abertas as inscrições, e conta com 13 professores voluntários. A oferta formativa inclui áreas como português, inglês, geografia, história e cultura geral, educação física, noções básicas de direito, pintura, arte das agulhas, saúde, informática, cantares, cavaquinhos e academia da mente.

Uma das novidades deste ano será o reforço da informática, através de uma sala própria que está a ser equipada.

“Se não conseguirmos ter o mínimo de bases, ficamos para trás”, alertou Alexandrina Venâncio, considerando a literacia digital cada vez mais necessária para a população sénior.

A coordenação está ainda a estudar a possibilidade de acrescentar matemática à oferta, admitindo incorporar outras sugestões apresentadas pelos próprios alunos.

Para Alexandrina Venâncio, a universidade funciona como uma verdadeira “escola de vida”, baseada na aprendizagem, na partilha e no voluntariado.

“A vida é uma aprendizagem. Nós ensinamos aos outros e os outros ensinam-nos a nós”, afirmou.

A responsável sublinhou que o principal objetivo continua a ser o convívio e a socialização, sobretudo entre pessoas que vivem sozinhas ou que, depois da reforma, perderam rotinas de contacto regular com outras pessoas.

“Isto faz falta a toda a gente, tanto a nível mental como físico”, afirmou, acrescentando que pretende que o projeto continue a crescer e “nunca feche”.

“Descobrir novas formas de ser velho”

O padrinho da UTIT, José Alves Jana, destacou precisamente essa dimensão de envelhecimento ativo, defendendo que o projeto permite “descobrir novas formas de ser velho”.

“E a palavra velho aqui não é de desprezo, porque velho é uma palavra nobre”, afirmou.

Para José Alves Jana, a grande mais-valia da universidade sénior passa por “tirar as pessoas de casa”, mantendo-as “vivas, ativas, com compromissos”, num ambiente de camaradagem e participação na vida social do Tramagal.

Há cerca de duas décadas, recordou, dificilmente se imaginaria que a freguesia viesse a ter uma universidade sénior com esta longevidade.

Universidade Sénior de Tramagal cresce e desafia idosos a “largar o sofá”. Foto: mediotejo.net

“Há vinte e tal anos não era sequer imaginável que o Tramagal tivesse uma universidade sénior. No entanto, tem, e tem já, em números redondos, 20 anos feitos”, disse.

O presidente da ARTRAM, João Carlos Pio, considera igualmente que o maior valor do projeto está em retirar pessoas da solidão e criar oportunidades de convívio.

“Vemos que se sentem felizes por estar aqui”, afirmou, sublinhando que muitas vezes são os próprios participantes que querem prolongar as atividades e permanecer mais algum tempo na associação.

A ARTRAM assegura ainda transporte em carrinha a pessoas que necessitem de apoio nas deslocações, enquanto continua a procurar reforçar o número de alunos, associados e voluntários.

O presidente da ARTRAM considera que o maior valor do projeto está em retirar pessoas da solidão e criar oportunidades de convívio. Foto: mediotejo.net

Ao nível da oferta, João Carlos Pio adiantou que está também a ser estudada a possibilidade de contar com uma fisioterapeuta para desenvolver atividades como pilates ou ginástica adaptada à população idosa.

Município destaca combate ao isolamento

A vereadora da Ação Social da Câmara de Abrantes, Raquel Olhicas, destacou o papel das universidades seniores na aprendizagem ao longo da vida, na melhoria da qualidade de vida e no combate ao isolamento social.

No concelho existem atualmente duas universidades seniores, em Abrantes e no Tramagal, sendo que, segundo a autarca, a estrutura tramagalense assume particular importância numa zona onde durante muitos anos existiu menor hábito de participação em atividades desta natureza.

“As universidades da terceira idade são uma das oportunidades que permite às pessoas combater o isolamento social, promover a sua qualidade de vida e, sobretudo, socializarem”, afirmou.

Raquel Olhicas destacou ainda o contributo destes projetos para a saúde mental, o convívio e a manutenção de um papel ativo dos mais velhos na comunidade.

Também o presidente da Junta de Freguesia de Tramagal, António José Carvalho, considerou a UTIT uma “peça essencial” no tecido social da freguesia.

O autarca destacou o contributo da universidade para manter “a curiosidade, o querer perceber o mundo e o querer aprender coisas”, apontando ainda a diversidade de atividades promovidas pela ARTRAM.

Entre essas respostas está também, desde o ano passado, o ensino de língua portuguesa para estrangeiros, uma vertente que António José Carvalho considera relevante face ao aumento da população imigrante na freguesia.

Universidade Sénior de Tramagal cresce e desafia idosos a “largar o sofá”. Foto: mediotejo.net

A Universidade da Terceira Idade de Tramagal funciona na sede da Associação de Reformados do Tramagal, fundada em outubro de 2000, e mantém as inscrições abertas ao longo do ano.

A frequência das atividades tem um custo de dois euros por mês, acrescido da quota de associado e de um seguro anual, num modelo assente sobretudo no voluntariado de professores e dirigentes.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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