Foto: CMM

O Adamastor, último barco picareto construído pelo mestre calafate Manuel Pires Fontes, de Ortiga, foi formalmente entregue ao Museu de Marinha, em Lisboa, culminando um processo de quase duas décadas dedicado à preservação desta embarcação tradicional do Tejo.

“Hoje damos e ficamos mais ricos”, afirmou o presidente da Associação Os Amigos da Estação de Ortiga (AOAEO), Sérgio Durão, durante a cerimónia realizada no Museu da Marinha, considerando que a entrega permite preservar para as gerações futuras o testemunho de uma arte entretanto extinta na região.

A embarcação, construída em 2009 por Manuel Pires Fontes, conhecido por Ti Fontes, natural de Ortiga, no concelho de Mação, passa a integrar o património do Museu de Marinha depois de um processo iniciado em 2007 pela associação local.

Ao centro, o diretor do Museu de Marinha, capitão de Mar e Guerra Augusto Salgado, e Sérgio Durão, presidente da Associação e entidade doadora, ladeados por Luís Matos, em representação do presidente da Câmara de Mação, e Cidalina Abelho, presidente da Assembleia de freguesia de Ortiga, em representação da freguesia.

O termo de doação foi assinado por Sérgio Durão e pelo diretor do Museu de Marinha, capitão-de-mar-e-guerra Augusto António Alves Salgado, estabelecendo a entrega do Adamastor “a título gratuito e definitivo”, momento oficial acompanhado por Luís Matos, em representação do presidente da Câmara de Mação, e Cidalina Abelho, presidente da Assembleia de freguesia de Ortiga, em representação da freguesia.

Último picareto de mestre de Ortiga entregue ao Museu de Marinha. Foto: AOAEO

O documento determina que o Museu de Marinha deverá promover a integração da embarcação no seu património museológico e poderá expô-la no próprio museu ou noutros locais onde promova exposições temporárias.

Apesar da entrega estar concretizada, o Adamastor ainda não ficará exposto ao público, não existindo para já uma data prevista. Segundo Sérgio Durão, o diretor do Museu de Marinha indicou que a embarcação será colocada em exposição quando surgir uma oportunidade para a integrar no espaço museológico.

“É um grande orgulho e uma honra”, disse ao mediotejo.net o presidente da associação após a cerimónia, reconhecendo também o alívio de entregar a embarcação a uma instituição capaz de garantir a sua conservação.

“Foi um peso que saiu” dos responsáveis da associação, admitiu, pela responsabilidade que representava conservar uma peça com este valor patrimonial. “Assim fica preservada para sempre”, acrescentou.

Um projeto iniciado em 2007

A entrega encerra uma etapa de um processo iniciado há quase duas décadas, quando a Associação Os Amigos da Estação de Ortiga desafiou Ti Fontes, então já afastado da profissão, a voltar a exercer a arte de calafate.

“Estou com 80 anos, mas pelo amor que tenho pela arte e pela terra estou disponível para tentar construir… preciso é da vossa ajuda”, recordou Sérgio Durão no discurso desta manhã, citando a resposta dada na altura pelo mestre.

O desafio acabaria por resultar na construção de dois barcos picaretos: o Príncipe do Tejo, concluído em 2008, e o Adamastor, em 2009, aquela que a associação considera a “última obra-prima” de Manuel Pires Fontes.

Ti Fontes, que morreu em 2012, aos 85 anos, construiu ao longo da vida mais de 300 picaretos, embarcações tradicionalmente utilizadas no Tejo para a pesca e transporte de pessoas e mercadorias.

O Adamastor entrou na água uma única vez, em 2010, durante uma iniciativa realizada em Ortiga, permanecendo depois preservado pela associação até à decisão de o entregar ao Museu de Marinha.

Príncipe do Tejo deverá ficar em Ortiga

Com a entrega do Adamastor, a Associação Os Amigos da Estação de Ortiga pretende prosseguir o trabalho de preservação da memória desta atividade através da criação, a médio prazo, de um espaço museológico em Ortiga, onde deverá ficar o Príncipe do Tejo.

Sérgio Durão, presidente da Associação Os Amigos da Estação de Ortiga. Foto: AOAEO

Sérgio Durão explicou ao mediotejo.net que a associação tem vindo a recolher materiais para esse objetivo e dispõe de terreno e de parte significativa do equipamento necessário, mas a ideia ainda não tem projeto definido, financiamento ou calendário de execução.

“É para isso que guardámos o Príncipe do Tejo”, afirmou, adiantando que o avanço dependerá da existência de recursos e apoios que permitam concretizar o edifício destinado a acolher o espólio.

Na cerimónia desta manhã, Sérgio Durão homenageou Ti Fontes, que classificou como “grande amigo e defensor da nossa terra”, e considerou a entrada da sua última embarcação no Museu de Marinha uma forma de perpetuar a arte do mestre de Ortiga.

“A sua arte será assim admirada por gentes de todo o mundo. Poderá existir maior homenagem que esta?”, afirmou.

Na cerimónia, Sérgio Durão agradeceu ainda às pessoas e entidades que, ao longo de quase duas décadas, contribuíram para a preservação e valorização dos barcos picaretos, destacando o mestre Manuel Pires Fontes, antigos e atuais responsáveis da Câmara de Mação e o Museu de Marinha, na pessoa do seu diretor, Augusto António Alves Salgado, considerando que a entrega da embarcação constitui também uma homenagem a todos os que ajudaram a salvaguardar este património.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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1 Comment

  1. Essa Associação deverá ter a humildade de se chamar Associação da Estação de Alvega – Ortiga …
    Se for criada uma Associação dos Amigos da Estação de Comboios Alvega – Ortiga …
    o que dirão do sectarismo… ? são estas divisões deste tipo sem qualificações que vão enfraquecendo ao longo destes cinquenta anos a Democracia portuguesa e que contribuem, aqui e por todo o Portugal, a que não se consiga fazer uma Regionalização equilibrada e que ao não ser feita continuarão a agravar as assimetrias regionais, fazendo com que o Litoral continue a crescer e o Interior a definhar.
    Alvega e os seus habitantes não são menos portugueses que os da Ortiga.
    O Comboio uniu, o Rio uniu e não estes bairrismos e divisões que juntou no Fascismo, que agora em Democracia deve separar…
    O Médio Tejo e os seus jornalistas têm obrigação de darem contributos para essa coesão.

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