Após chegada "atribulada", refugiados acolhidos na Chamusca procuram novo rumo. Foto ilustrativa: DR

A chegada de 48 refugiados da Ucrânia, na terça-feira, à vila da Chamusca, foi algo “atribulada”, mas hoje, mais tranquilos, procuram perceber qual o passo a dar. O presidente da Câmara Municipal da Chamusca, Paulo Queimado (PS), confessou à Lusa que a chegada dos refugiados, encaminhados para a vila pelo Alto Comissariado para as Migrações (ACM), gerou alguns momentos de tensão já que pensavam que iriam ser levados para Santarém, um meio citadino, tendo alguns mostrado desagrado e vontade de abandonar de imediato a vila.

“Acho que foi a reação inicial”, disse o autarca, explicando que “houve um misto de emoções, de cansaço, de desespero, de preocupação com as famílias” e que, hoje, depois de uma noite de descanso, “está tudo mais calmo”.

ÁUDIO | PAULO QUEIMADO, PRESIDENTE CM CHAMUSCA:

Pela manhã, as famílias acolhidas – 28 mulheres, uma delas grávida, 10 homens (na maioria imigrantes que se encontravam a residir na Ucrânia), um bebé com dois meses e nove crianças (quatro com mais de 10 anos e cinco com idades inferior a 10) – tomaram o pequeno-almoço na sala de refeições, instalada no salão de entrada do Edifício S. Francisco, saindo depois algumas delas para conhecer a vila.

A uma mesa, duas mulheres pesquisavam casas para alugar em Santarém e um grupo procurava, junto de uma técnica do município, perceber como fazer pedidos essenciais, como roupa, usando uma aplicação no telemóvel para a tradução.

Numa parede do espaço transformado em sala, um quadro, encimado com um “bem-vindos” escrito à mão em ucraniano, mostra palavras em português, a forma como se pronunciam e as correspondentes em ucraniano e em inglês, com todos os letreiros – a indicarem a cozinha, os quartos, as casas de banho – escritos nas três línguas.

Na sala de comer e na sala de estar, com uma televisão a passar desenhos animados, há brinquedos e materiais para as crianças, as que, sublinha Paulo Queimado, se mantiveram sempre mais calmas.

A tipologia de alojamento – com quartos com quatro e seis camas e dois com oito camas cada – obrigou a que algumas famílias partilhem o espaço, tendo sido ainda necessário resolver as situações de pessoas que chegaram com animais – três gatos e dois cães, todos já vistos pelo veterinário, sendo que um dos gatos ficou em quarentena para ser vacinado contra a raiva.

O autarca adiantou que o edifício S. Francisco, uma igreja transformada há uns anos pela Misericórdia da Chamusca num espaço para alojamento, com disponibilidade para receber 48 pessoas, é uma resposta temporária, ficando disponível para receber novos grupos conforme os que estão vão saindo.

Por isso, ao longo do dia de hoje, as técnicas do município vão conversar com cada uma das famílias para perceberem “qual é a intenção”, se é ficar, se é estar só de passagem ou, como alguns deram a entender à chegada, ir de imediato para grandes centros urbanos, como Lisboa ou Porto.

Por outro lado, o município vai tentar agendar com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) um dia para atendimento de todo o grupo, sendo que alguns iniciaram já o processo de legalização para permanência temporária no país.

Durante o dia de hoje é esperada a chegada de uma equipa da Saúde para fazer a triagem, nomeadamente em relação à covid-19, já que nem todos têm vacinação, salientando Paulo Queimado o facto de não existir nenhuma pessoa com sinal de doença.

Na sequência de uma reunião com a secretária de Estado da Habitação, o município está a fazer um levantamento de casas disponíveis para arrendamento e a articular com o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) e com a Segurança Social, tanto para atribuição de subsídios, como para formação e encaminhamento para o mercado de trabalho, para os que demonstrem intenção de ficar.

Para o autarca, a chegada na terça-feira teria sido menos “atribulada” se tivesse havido uma primeira triagem e melhor informação às pessoas, salientando que o município recebeu o grupo sem ter qualquer lista que permitisse saber sequer quem eram, trabalho que foi feito ao final do dia pelos técnicos da autarquia.

Paulo Queimado afirmou que, ainda na terça-feira, recebeu mais dois pedidos do ACM para mais dois grupos de 48 pessoas, “o que revela a pressão” que se está a sentir em Lisboa, salientando que, à medida que for tendo disponibilidade, o município poderá receber mais refugiados.

“Temos de dar alguma resposta a estas pessoas, que vêm fragilizadas, cansadas”, declarou.

Nesta fase inicial, até domingo, o município fornece o almoço e o jantar – na terça-feira foi servido um prato de bacalhau ao almoço e carne assada com puré ao jantar -, mas a intenção é que as pessoas confecionem as suas próprias refeições, de acordo com os seus hábitos alimentares, sendo que os próprios já se informaram sobre a localização dos supermercados, farmácias, lojas, para se abastecerem, disse.

Os centros de recolha criados no concelho, nas juntas de freguesia, que estavam a encaminhar a ajuda para a Ucrânia, vão passar a direcionar os bens para o grupo acolhido, referindo o autarca que há muita gente a voluntariar-se e a contribuir com bens alimentares e roupas.

Portugal concedeu 10.068 pedidos de proteção temporária a pessoas vindas da Ucrânia desde que a Rússia invadiu o país, em 24 de fevereiro, segundo o balanço atualizado na terça-feira pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Segundo a Organização Internacional para as Migrações, o número de pessoas que fugiram da Ucrânia devido à invasão russa atingiu os três milhões, incluindo mais de 1,4 milhões de crianças.

A Rússia lançou em 24 de fevereiro uma ofensiva militar na Ucrânia, com forças terrestres e bombardeamento de alvos em várias cidades, um ataque que foi condenado pela generalidade da comunidade internacional.

Agência Lusa

Agência de Notícias de Portugal

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