Tramagal recebeu Festival Nacional de Marchas Seniores e debateu desafios do envelhecimento. Foto: mediotejo.net

Tramagal recebeu no sábado o Festival Nacional de Marchas Populares Seniores, iniciativa integrada nas comemorações dos 25 anos da Associação de Reformados de Tramagal (ARTRAM), que reuniu centenas de marchantes de norte a sul do país.

À margem do evento, em declarações ao mediotejo.net, o presidente da Rede das Universidades da Terceira Idade (RUTIS), Luís Jacob, alertou para os riscos da crescente digitalização dos serviços públicos e privados, defendendo que as universidades seniores assumem hoje um papel central no combate ao isolamento e na promoção do envelhecimento ativo.

“É um papel cada vez mais ativo e, diria, o mais representativo da sociedade civil nos projetos para os mais velhos”, afirmou Luís Jacob, salientando que a RUTIS reúne atualmente “mais de 400 universidades seniores” distribuídas por cerca de 85% dos concelhos portugueses e envolve aproximadamente 80 mil alunos.

O responsável destacou o trabalho desenvolvido em Tramagal, tendo feito notar que estas instituições são hoje muito mais do que espaços de aprendizagem, constituindo locais de convívio, participação cívica e bem-estar.

“Temos aqui universidades do Algarve, do Alentejo, de Vila de Rei…. Estas pessoas tiraram a sua tarde para estar aqui num convívio e passaram muitas horas a preparar os fatos e a ensaiar. São horas que retiraram ao sofá”, observou.

Recorrendo a uma imagem bem-humorada, Luís Jacob afirmou que “o nosso grande inimigo é o sofá”, defendendo que muitas pessoas, por opção ou falta de alternativas, acabam por permanecer demasiado tempo em casa.

“Todos os projetos que as tirem de lá, que lhes deem a possibilidade de se sentirem úteis, de aprender, de estarem em convívio com outras pessoas, são claramente uma mais-valia. É isso que as universidades seniores fazem todos os dias”, vincou.

Um dos maiores desafios identificados pelo presidente da RUTIS prende-se, contudo, com a rápida digitalização da sociedade, que considera estar a excluir uma parte significativa da população mais velha.

“Estamos a caminhar a uma velocidade tão rápida para tudo o que é digital que estamos a deixar metade da população de fora”, alertou, defendendo que a modernização dos serviços não pode significar perda de autonomia para quem não domina as novas tecnologias.

Segundo explicou, muitos idosos são hoje obrigados a recorrer aos familiares para realizar tarefas simples, como marcar consultas médicas ou aceder aos serviços da Segurança Social e da banca. “Tenho de dar a senha ao meu filho ou à minha nora. Estou a perder autonomia e a dar acesso aos meus dados porque não consigo utilizar estas plataformas”, alertou.

Apesar dos esforços desenvolvidos pela RUTIS e por outras entidades na formação digital da população sénior – incluindo através do projeto Universidade Sénior Virtual – Luís Jacob reconheceu que existe uma faixa importante da população que dificilmente conseguirá acompanhar este ritmo de transformação.

“Estamos a empurrar uma parte muito importante da população para a força do pós-digital, sem opção”, afirmou.

O dirigente considera que o perfil dos alunos também tem vindo a evoluir. Se anteriormente predominavam pessoas à procura de disciplinas mais teóricas, atualmente verifica-se uma procura crescente por atividades práticas, culturais e de lazer.

“É uma população mais escolarizada, que quer passear, visitar, participar em atividades extracurriculares e sentir-se mais ativa”, referiu, acrescentando que a evolução da rede tem sido constante em todo o país.

Entre os principais desafios para o futuro, Luís Jacob apontou o reforço do número de professores voluntários e a sustentabilidade financeira das universidades seniores. Revelou ainda que, na véspera do festival, a RUTIS reuniu com a secretária de Estado da Segurança Social, encontro em que foi discutida a possibilidade de as universidades seniores constituídas como Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) poderem beneficiar de apoio direto daquele ministério.

Quanto ao impacto destas instituições, o presidente da RUTIS assegurou que diversos estudos demonstram benefícios significativos na qualidade de vida dos participantes.

“Está comprovado que temos menos casos de depressão, menor consumo de ansiolíticos e antidepressivos e que as pessoas são muito mais felizes quando estão com os outros”, afirmou.

As declarações foram prestadas durante o Festival Nacional de Marchas Populares Seniores, organizado pela ARTRAM em parceria com a RUTIS, iniciativa que decorreu no Largo dos Combatentes, em Tramagal, reunindo seis marchas provenientes de diferentes pontos do país.

O evento integrou as comemorações dos 25 anos da associação tramagalense e teve como madrinha a atriz Catarina Avelar, que regressou emocionada à terra onde passou a infância.

Antes do início dos desfiles, Catarina Avelar recordou as suas raízes tramagalenses e assumiu a ligação afetiva à vila. “Quando me perguntam de onde sou, digo sempre que sou de Tramagal. Nasci em Lisboa, acidentalmente”, afirmou, classificando o convite para apadrinhar o festival como “o regresso às origens”.

Na abertura oficial da iniciativa, Manuel Pio, fundador e representante da ARTRAM, lembrou que o festival estava inicialmente previsto para 2020, mas acabou por ser adiado devido à pandemia de covid-19.

A concretização da iniciativa, integrada nas celebrações dos 25 anos da associação, assume por isso “um significado muito especial”, afirmou, agradecendo o apoio da RUTIS, do Município de Abrantes, da Junta de Freguesia de Tramagal, do movimento associativo, das empresas e dos numerosos voluntários envolvidos na organização.

Manuel Pio, fundador e representante da ARTRAM. Foto: mediotejo.net

“O evento ultrapassava largamente as possibilidades da nossa associação, mas quando existe vontade, dedicação e espírito de comunidade os desafios transformam-se em oportunidades”, salientou, considerando que o festival representa um momento de convívio, alegria e valorização das capacidades da população sénior.

Também o presidente da Junta de Freguesia de Tramagal, António José Carvalho, agradeceu à RUTIS a escolha da vila para acolher um evento de dimensão nacional, considerando que iniciativas desta natureza reforçam a projeção do território e demonstram a capacidade organizativa da comunidade local.

“É um excelente exemplo daquilo que somos capazes de fazer”, afirmou, enaltecendo o trabalho desenvolvido ao longo de vários meses pela ARTRAM, pelos voluntários e pelas restantes associações locais para tornar possível a realização do festival.

Em representação do Município de Abrantes, o vereador Luís Dias destacou a importância do associativismo e da cultura como instrumentos de inclusão e participação, considerando ser “um privilégio” receber um evento nacional desta dimensão no concelho.

“A cultura não tem idade e nunca se apaga em momento algum das nossas vidas”, afirmou, defendendo que iniciativas como esta só são possíveis graças à colaboração entre instituições, autarquias e movimento associativo.

No final da cerimónia, Catarina Avelar voltou a emocionar-se com o reencontro com a terra onde cresceu, manifestando satisfação por regressar ao Tramagal para celebrar uma tradição que diz acompanhar desde criança, numa tarde marcada pela música, pelo convívio e pela valorização do envelhecimento ativo.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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