Vilela Brazão deu consultas às crianças de Tramagal durante 22 anos sem cobrar um cêntimo. Despediu-se no sábado e foi homenageado pela AHDSFT. Foto: mediotejo.net

João Vilela Brazão, 80 anos, despediu-se no sábado, dia 24 de março, da sua atividade de Médico Pediatra exercida durante mais de 22 anos na qualidade de voluntário na Associação Humanitária de Dadores de Sangue do Tramagal (AHDSFT) e onde prestou ensinamentos e cuidados médicos a milhares de crianças.

“Partilhar os meus saberes não foi uma obrigação, foi uma honra, e agradeço  a todos terem-me confiado a saúde dos seus filhos e netos durante estes 22 anos”, disse Vilela Brazão, perante dezenas de amigos de todas as idades, na hora de uma despedida muito sentida e emotiva em cerimónia organizada pela AHDSFT.

“É com pesar que ponho fim a uma colaboração que durou mais de vinte anos, mas fica a satisfação e a honra de poder ter contribuído para o bom estado de saúde infantil, juvenil e da adolescência de parte dos jovens da Região. Aos seus pais, deixo o meu profundo agradecimento pela confiança em mim depositada”, escreveu o médico, residente em Lisboa e com profundas ligações ao Tramagal, devido ao seu casamento com uma professora local, já falecida, e onde mantém habitação.

“Bem hajam e até sempre”, despediu-se no sábado o médico, natural de Benavila, Avis, tendo sido na ocasião descerrada uma placa que perpetua a dedicação prestada às crianças de Tramagal, cerca de uma centena de consultas por ano, milhares durante mais de duas décadas.

O médico fez questão de lembrar e agradecer a António José Contente, fundador da AHDSFT, já falecido, e também a Manuel Maria Velho, “que foi quem convidou a entrar nesta casa”, para além de agradecer todo o apoio prestado pela atual presidente da direção, Graça Alfaia.

“Há poucos exemplos como este e temos de valorizar tudo o que doutor Vilela Brazão deu a estas crianças e à Associação, numa dádiva permanente as outros durante 22 anos consecutivos”, disse ao mediotejo.net a dirigente, justificando a homenagem ao medico pediatra.

Aos 80 anos, João Joaquim Vilela Brazão, sportinguista confesso e filho único de um marceneiro, cumpriu durante as últimas duas décadas uma jura de oferecer os seus serviços de pediatra tanto às crianças da sua terra (Benavila) como às da sua falecida esposa, professora natural do Tramagal.

Em Lisboa, cada um dos pais destas crianças pagaria umas dezenas largas de euros para uma consulta sua. Em Tramagal, custava-lhes só 25 euros, verba que revertia na íntegra para os cofres da AHDSFT.

Com uma visão muito humanista e pouco mercantilista da Medicina, João Vilela Brazão defende que as pessoas têm o direito a viver com saúde, oferecendo os seus préstimos às crianças que afirma “adorar” e que hoje, mais do que pacientes, são seus pequenos amigos e confessores.

Este sábado despediu-se com o seu “Bem-hajam e até sempre”. E com a promessa de continuar a receber os seus amigos em casa. “Estarei sempre de porta aberta. E se não estiver aberta, toquem a campainha”.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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