Tramagal eterniza Octávio Oliveira no dia em que celebrou 40 anos de vila. Foto: mediotejo.net

Cerca de 200 pessoas, entre familiares, amigos de infância, populares, autarcas, empresários, antigos e atuais governantes e representantes de instituições, juntaram-se no domingo no Tramagal, concelho de Abrantes, para homenagear Octávio Félix de Oliveira, numa cerimónia marcada pela emoção e pela memória de um homem cuja vida cruzou profundamente a história da terra e do país.

A chuva intensa obrigou a alterar o programa e a transferir para a Sociedade Artística Tramagalense (SAT) parte da cerimónia, mas não afastou quem quis estar presente no momento em que foi inaugurado o memorial que perpetuará o seu nome.

O memorial foi erguido num lugar particularmente simbólico para a família. De um lado está a Rua da Barca, onde se situava a casa dos bisavós de Octávio e onde, segundo o filho Afonso, o pai encontrava um refúgio e um lugar de tranquilidade que nunca deixou de levar consigo.

Do outro, a Rua Comendador Eduardo Duarte Ferreira, que conduz ao local onde funcionou a Metalúrgica Duarte Ferreira, empresa onde trabalharam o pai e os avós de Octávio e que, como recordou Afonso, moldou a sua ética de trabalho, a sua liderança e o seu sentido de missão.

Afonso Félix de Oliveira agradeceu aos amigos e às instituições locais que desde a primeira hora se associaram à iniciativa e sublinhou o simbolismo de ver o nome do pai ligado de forma permanente à terra.

Apesar da carreira que o levou à presidência do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), à presidência do Instituto da Segurança Social e ao Governo como secretário de Estado do Emprego, Octávio manteve “Tramagal e os tramagalenses no centro da sua vida”, afirmou o filho, defendendo que o seu exemplo deve continuar a inspirar quem queira desenvolver a vila e o concelho de Abrantes.

Afonso Félix de Oliveira, filho de Octávio, agradeceu aos amigos e às instituições locais que se associaram à iniciativa. Foto: mediotejo.net

A cerimónia contou também com a intervenção de Paulo Félix de Oliveira, irmão de Octávio, que agradeceu aos amigos e à comunidade a homenagem e deixou uma reflexão sobre a forma como o irmão encarava a vida. Recordou que, poucos dias depois de ter sido confrontado com a gravidade da doença, Octávio lhe disse que não deviam adiar aquilo que desejavam e queriam fazer.

A frase, partilhada perante familiares e amigos, ganhou naquele momento um significado particular, perante uma comunidade que se reuniu para recordar tudo aquilo que ficou por fazer e, sobretudo, tudo aquilo que Octávio deixou feito.

Paulo Félix de Oliveira, irmão de Octávio. Foto: mediotejo.net

Em nome do grupo de amigos que propôs a homenagem, Fernando Brazão falou de um homem que conhecia desde a infância e cuja amizade atravessou décadas. Evocou as brincadeiras de crianças, a juventude, os tempos de universidade, os projetos associativos e os muitos momentos partilhados, mas também o profissional exigente e competente que entendia o trabalho como uma questão de princípio e que sabia ouvir, respeitar diferenças e colocar a sua capacidade ao serviço das causas em que acreditava.

A saudade atravessou a sua intervenção, sobretudo quando recordou os projetos que ficaram interrompidos, entre eles novos trabalhos sobre a história do Tramagal e uma caminhada a Santiago de Compostela. Mas Fernando Brazão falou também do homem ligado à família, do pai orgulhoso e do avô feliz, destacando a ternura com que Octávio falava dos filhos e, mais tarde, da neta.

“Que esta homenagem seja por isso muito mais do que uma cerimónia, que seja um abraço”, afirmou, desejando que no futuro se possa dizer de Octávio que foi um grande profissional, um defensor do associativismo e um homem que fez a diferença, mas também, simplesmente, “um grande amigo”.

Pedro Passos Coelho, antigo primeiro-ministro, foi uma das presenças mais marcantes da cerimónia e recordou um conhecimento que remontava ao início dos anos 1980. Descreveu Octávio como uma pessoa calma, voluntariosa, realista e prática, que não desistia de procurar soluções e que conquistou o respeito de pessoas de diferentes sensibilidades políticas pela competência e pela forma séria como desempenhava as suas funções.

Foi também Passos Coelho quem trouxe para a homenagem a dimensão nacional do percurso de Octávio. Recordou o trabalho desenvolvido no domínio do emprego e da formação profissional e, em particular, o papel que desempenhou na conceção e execução da Garantia Jovem, num período em que o desemprego entre os jovens atingia níveis muito elevados.

Para o antigo primeiro-ministro, o programa permitiu que centenas de milhares de jovens portugueses tivessem acesso a estágios profissionais e oportunidades de emprego, deixando uma marca que ultrapassou largamente o território de onde Octávio era natural.

Mas foi precisamente essa dimensão nacional que os vários intervenientes fizeram questão de colocar em segundo plano quando falaram da relação de Octávio com Tramagal.

O presidente da Junta de Freguesia, António José Carvalho, recordou um homem que estava presente na vida da comunidade, que participava nas iniciativas locais, dava opiniões e conselhos e procurava contribuir para que a terra fosse “um dos melhores lugares do mundo para se viver”.

E Octávio não se limitava a recordar o Tramagal que conhecia. Até pouco antes de morrer continuava a pensar no Tramagal que queria ajudar a construir. António José Carvalho contou que, numa das últimas conversas entre ambos, falavam de preservação da história local, iniciativas culturais, dinamização das escolas e maior envolvimento dos antigos alunos, mas também de projetos concretos como iniciativas gastronómicas e a valorização ambiental do espaço de recreio da Barca, que Octávio frequentava e estimava.

Entre essas memórias há uma que parece resumir particularmente bem a ligação de Octávio à sua terra. Foi o melhor aluno da quarta classe e recebeu, como era hábito na época, uma bicicleta como prémio. António José Carvalho contou que Octávio ainda conservava essa bicicleta e sugeriu que ela pudesse um dia integrar o Museu do Tramagal que o próprio idealizava, ao lado de objetos e histórias que ajudam a contar a identidade da comunidade, como o banjo de Zé Cunha e outros elementos da memória das suas gentes.

O presidente da Junta de Freguesia, António José Carvalho. Foto: mediotejo.net

A ideia é quase uma síntese do homem que a cerimónia quis recordar: alguém que guardava cuidadosamente as memórias do passado e celebrava o presente, enquanto pensava no futuro da terra.

O envolvimento de Octávio na vida do Tramagal passou pelo associativismo, pelo desporto e pela cultura. Foi atleta e dirigente do Tramagal Sport União e acompanhou de perto a vida do clube, tendo tido um papel na preparação das comemorações do centenário. Em 2017 assumiu a presidência da direção da Tuna Tramagalense, contribuindo para a sua refundação e promovendo iniciativas de carácter social, recreativo e cultural.

A elevação do Tramagal a vila, que no domingo completou 40 anos, foi outro dos capítulos incontornáveis da sua ligação à terra. Os amigos recordaram o papel que desempenhou no processo que levou à concretização dessa aspiração, numa altura em que era necessário reunir condições e mobilizar vontades. Octávio e Paulo Mendes, entre outros, estiveram também ligados à criação da Caixa de Crédito Agrícola de Tramagal, num percurso de intervenção cívica que atravessou diferentes dimensões da vida da comunidade.

A ligação de Octávio ao processo de elevação do Tramagal a vila esteve também presente numa mensagem enviada pelo antigo deputado e secretário de Estado Miguel Relvas, seu amigo, que foi lida no palco pela secretária da Junta de Freguesia, Ana Velho.

Uma mensagem enviada pelo antigo deputado e secretário de Estado Miguel Relvas, seu amigo, foi lida no palco pela secretária da Junta de Freguesia, Ana Velho.

Relvas recordou que teve a honra de ser o primeiro proponente da elevação do Tramagal a vila e considerou que Octávio teve um papel “absolutamente fundamental” nesse processo, destacando a sua determinação, capacidade de mobilização e profundo amor pela terra. Na mensagem, deixou ainda uma síntese particularmente pessoal: na vida, Octávio tinha “três grandes paixões, a família, o Sporting e o Tramagal”.

A homenagem nasceu de um grupo de amigos proponentes, chamado ao palco pelo mestre de cerimónias, Abílio Pombinho, e constituído por Fernando Brazão, Fernando Jorge, Joaquim Simplício, Paulo Mendes e Manuela Ruivo. Foram eles que estiveram na génese da proposta de reconhecimento público de Octávio e acompanharam o processo que levou à concretização do memorial, numa iniciativa que a Junta de Freguesia de Tramagal acolheu e tornou possível.

A homenagem nasceu de um grupo de amigos proponentes, chamado ao palco pelo mestre de cerimónias, Abílio Pombinho. Foto: mediotejo.net

Para António José Carvalho, a inauguração do memorial representa a concretização de uma vontade manifestada pelos amigos mais próximos e assumida pela freguesia, numa tentativa de manter viva a memória de alguém cuja partida precoce deixou “tanto para fazer”. O autarca garantiu que a comunidade procurará continuar algumas das ideias que Octávio deixou, desde as mais ambiciosas às pequenas iniciativas que ajudavam a valorizar produtos, tradições, espaços e memórias locais.

O presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, destacou precisamente essa ligação entre a dimensão pública do percurso de Octávio e a relação com a comunidade. Na sua intervenção, descreveu-o como professor, autarca e responsável por cargos de elevada importância na administração pública e no Governo, mas sobretudo como “um homem de causas e de princípios”, profundamente ligado ao associativismo e à vida da comunidade.

Manuel Jorge Valamatos, também ele natural do Tramagal, recordou ainda o percurso de Octávio no Tramagal Sport União e na Tuna Tramagalense, mas também a sua intervenção em causas sociais, culturais e desportivas em Abrantes, Torres Novas e noutros locais por onde passou.

O autarca sublinhou a sua capacidade de mobilização, o compromisso com o bem comum e a forma como sabia ouvir e respeitar diferentes posições, considerando que a homenagem traduz o reconhecimento de uma terra que nunca deixou de fazer parte da sua vida.

Também João Moura, secretário de Estado da Agricultura, quis associar-se à homenagem, justificando a presença pela relação pessoal que manteve com Octávio e pelo reconhecimento da sua competência. Recordou-o como um homem modesto e altamente profissional e contou episódios da sua capacidade de análise e de trabalho, incluindo a forma minuciosa como acompanhava resultados eleitorais e procurava encontrar soluções para melhorar o desempenho das estruturas em que estava envolvido.

Mas foi uma memória dos últimos tempos de vida de Octávio que João Moura escolheu para terminar a sua intervenção. Já no hospital, gravemente doente, Octávio continuava preocupado com os outros e procurava promover uma conciliação entre pessoas que estavam afastadas, numa tentativa de encontrar uma solução que ajudasse o projeto político em que acreditava. Mesmo debilitado, falava baixo, por causa das enfermeiras, e pedia ajuda para resolver problemas alheios aos seus próprios sofrimentos.

João Moura, secretário de Estado da Agricultura, associou-se à homenagem a Octávio Félix de Oliveira. Foto: mediotejo.net

Foi essa imagem, mais do que qualquer cargo ou distinção, que ficou de uma tarde em que Tramagal se reuniu para recordar um dos seus filhos. Um homem que chegou aos lugares mais altos da administração pública e do Governo sem deixar de voltar à rua onde cresceram os seus pais e avós, que guardou uma bicicleta recebida na infância e que, quase até ao fim, continuou a pensar num museu, na história local, nas associações, nas escolas e nas pessoas da sua terra.

O memorial agora inaugurado dá-lhe um lugar físico na paisagem do Tramagal, mas a homenagem mostrou que a memória de Octávio já estava espalhada muito antes pela comunidade.

Entre amigos, familiares, antigos colegas, instituições e gerações diferentes, ficou a ideia de que a melhor forma de o recordar será continuar algumas das coisas em que acreditava: cuidar da terra, preservar a sua história, valorizar as suas pessoas e, sobretudo, não desistir de fazer acontecer.

Padre Adelino Cardoso na bênção do memorial a Octávio Félix de Oliveira. Foto: mediotejo.net

Como lembrou o padre Adelino Cardoso na bênção do memorial, não se trata apenas de recordar “um rosto ou um nome”, mas uma vida e um exemplo. E talvez seja esse o verdadeiro significado da homenagem que Tramagal lhe prestou no dia em que celebrou 40 anos de vila: dizer que Octávio Félix de Oliveira pertence à história da terra, mas também que a sua história continua a fazer parte do futuro do Tramagal.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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