Elvira Sequeira é vereadora da cultura em Torres Novas. Foto arquivo: mediotejo.net

Conhecido pela sua dinâmica cultural, com 104 associações no ativo e um programa apelativo ao longo de todo o ano, sem descurar a formação de públicos, o concelho de Torres Novas entra em 2022 com todo um conjunto de novos desafios. A integração numa Rede Nacional de Teatros e Cineteatros, a instalação no território da Federação Portuguesa de Cineclubes e de um Arquivo Digital de Cineclubismo, o restauro de um pianoforte raro que pode tornar-se num tesouro nacional, um futuro núcleo de arqueologia que abre com uma exposição do famoso crânio descoberto nas grutas do Almonda são alguns dos projetos que a vereadora da cultura, Elvira Sequeira, tem em carteira. O polémico tema da ausência de um diretor artístico no Teatro Virgínia não está fechado, mas por enquanto é a autarca que assume as funções do cargo. Sendo Torres Novas um farol cultural na região, a autarca constata que é preciso muito mais que um espaço para criar apetência por cultura.   

A conversa ocorre no Convento do Carmo, espaço clássico da cidade de Torres Novas alvo de uma profunda requalificação nos últimos anos e que tem recebido várias exposições e eventos municipais. A par do edifício, o município possui ainda uma ampla atividade cultural no Teatro Virgínia, na Biblioteca Municipal, no Museu Municipal, sem contar a rica vida associativa que dinamiza outros espaços culturais espalhados pelo concelho.

Torres Novas respira cultura, não apenas popular como de elite, trazendo à região espetáculos que tendem a não sair dos grandes centros urbanos nacionais. Alguma coisa, por aqui, se faz diferente. 

Elvira Sequeira é vereadora da cultura em Torres Novas Foto: mediotejo.net

Mediotejo.net: Torres Novas tem-se afirmado em termos culturais no Médio Tejo. Tem essa noção do concelho como um farol cultural na região?

Elvira Sequeira: Tenho, pelos feedbacks que temos de todas as partes onde tenho que ir no país. A nossa programação cultural é conhecida em vários setores culturais do país, mesmo nos órgãos centrais e governamentais. Depois porque vamos acompanhando as notícias que saem nos diferentes jornais, quer na comunicação social local, regional e também nacional. Tenho a perfeita noção que fazemos coisas interessantes e que as pessoas acompanham, trazendo pessoas de fora a Torres Novas.

A que pensa que se deve esta cultura instalada de teatro, de arte. Qual a natureza desta apetência cultural?

Desde que eu conheço, em termos históricos, daquilo que se faz em Torres Novas que temos tido sempre muita atividade cultural. Não temos artistas de relevo – já tivemos a atriz Virgínia, que deu nome ao Teatro – mas produzimos muito. Em termos literários, em termos cénicos, em termos musicais… Depois somos pessoas que também compram cultura. Em termos de gastos e de investimento, os torrejanos gostam de usufruir daquilo que é culturalmente difundido.

Mas de onde vem esse interesse? Noutros concelhos por vezes nota-se um desinteresse geral pela oferta cultural.

Tem a ver com as dinâmicas que conseguimos projetar para as pessoas. Quer nos espaços culturais que possuímos, quer nos próprios torrejanos que, sabendo que têm estes espaços culturais, conseguem também ser criadores, conseguem produzir, é isso que depois potencia essas dinâmicas.

Não temos artistas de relevo – já tivemos a atriz Virgínia, que deu nome ao Teatro – mas produzimos muito. Em termos literários, em termos cénicos, em termos musicais… Depois somos pessoas que também compram cultura. Em termos de gastos e de investimento, os torrejanos gostam de usufruir daquilo que é culturalmente difundido.

Qual a importância do associativismo para essas dinâmicas?

Nós temos à volta de 104 associações culturais em Torres Novas. São muitas. Antes da pandemia, agora estamos efetivamente parados, tinham esse foco na dinamização de alguns eventos culturais por todas as aldeias e terras e freguesias do concelho. E essa dinamização dá impulsos positivos para depois podermos também nós desenvolver outras atividades para as direcionar para estes públicos. 

E qual a importância para a formação de públicos?

Nós temos muito dinâmicas, mas mesmo assim ainda não conseguimos fazer tudo. Não conseguimos chegar a todo o lado, até porque não temos recursos humanos que nos permitam atingir outros patamares. Mas estamos sempre a procurar melhorar aquilo que temos. Uma das questões fundamentais quando produzimos e realizamos alguma intervenção cultural na terra é precisamente o termos serviços educativos, que é uma aposta forte do nosso município em todos os equipamentos culturais que possuímos. Esses serviços educativos, que até foram premiados pela APOM [Associação Portuguesa de Museologia] ainda não há muito tempo, têm precisamente essa função de promover aquilo que está a ser feito e criado em Torres Novas.

Ao mesmo tempo com as crianças, e não só – porque os serviços educativos também trabalham com os seniores – podemos estar a formar estas pessoas para terem apetência para aspetos culturais que estão a ser desenvolvidos no concelho, nos diferentes equipamentos culturais. Já são múltiplos estes equipamentos culturais e estamos a criar uma rede para, com o chapéu do Museu Municipal Carlos Reis, assim como com o Teatro e a Biblioteca, para termos acesso aos diferentes públicos e aquilo que as pessoas querem usufruir.

No seu terceiro mandato, Elvira Sequeira considera que é importante as autarquias envolverem-se a fundo com a vida cultural dos concelhos para promover fortes dinâmicas culturais e criar públicos Foto: mediotejo.net

Quando fala em serviços educativos, que tipo de atividades é que estamos a falar?  

Fazemos uma exposição. Logo a seguir criamos no serviço educativo algumas atividades para aqueles a que a queremos direcionar. Criamos mesmo uma oficina que vai trabalhar aquele aspeto que está a ser desenvolvido naquela exposição. No teatro também. Na Biblioteca, com o serviço de apoio às bibliotecas escolares, promovemos também nos serviços educativos essas dinâmicas para chegar a todos os públicos. 

Por vezes as escolas já nos dizem que são tantas as coisas, que gostariam de estar em todas, mas têm que fazer as suas escolhas. Nós acabamos por oferecer um leque muito variado de oficinas e de atividades que catapultam tudo aquilo que é dinamizado em Torres Novas.

Uma das questões fundamentais quando produzimos e realizamos alguma intervenção cultural na terra é precisamente o termos serviços educativos, que é uma aposta forte do nosso município em todos os equipamentos culturais que possuímos. Esses serviços educativos, que até foram premiados pela APOM [Associação Portuguesa de Museologia] ainda não há muito tempo, têm precisamente essa função de promover aquilo que está a ser feito e criado em Torres Novas

E acredita que os mais novos, e não tão novos, acabam por desenvolver um maior contacto com as atividades culturas à conta desse tipo de oficinas?

Exatamente. E são muito bem aceites por todos os públicos. Quer pelos professores que levam os seus alunos –  dos mais pequeninos, começa no pré-escolar, aos mais velhos – as atividades têm tido uma forte atração para esses públicos e é isso que cria estas dinâmicas. Porque não basta ter uma exposição aberta, é preciso depois criar uma dinâmica com a própria exposição. E criando este serviço educativo para estes diferentes trabalhos que vamos fazendo nos diferentes equipamentos culturais é mais fácil chegar a esses públicos e fazê-los usufruir dos espaços que são dos torrejanos.

É para isso que nós investimos. Os orçamentos que temos são sempre reduzidos, mas com o pequeno orçamento que temos vamos conseguindo realizar coisas. Temos que ser criativos e é isso que fazemos. 

Estamos num Ano Novo, o que nos pode adiantar sobre a programação de 2022?

Nós candidatámo-nos à Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses e por isso tivemos que fazer um trabalho um pouco diferente de programação, porque não podemos programar temporada a temporada, tínhamos que programar o ano inteiro. Já o fazíamos regularmente, mas temos que o fazer de forma diferente para ter um fio condutor. Esse fio de programação normalmente tem por base o podermos ter durante o mês os diferentes tipos de artes performativas – quer a música, quer o teatro, quer a dança, ou outra – quer para crianças como para os adultos, e por isso temos que diversificar e ser um pouco mais ecléticos no que oferecemos.

Nesta segunda agenda da temporada, que as temporadas começam em outubro, temos essa diversidade de programação, eclética, com diferentes artistas, sendo que temos sempre algum nome nacional para a música, para que o público local possa usufruir dos grandes espetáculos nacionais. Temos diferentes espetáculos, quer de artistas emergentes, quer de diferentes áreas artísticas, para chegar ao maior número de pessoas e àquilo que são os gostos dos torrejanos e daqueles que nos querem visitar.

Nos mais jovens conseguimos ter público juvenil nos espetáculos de stand-up comedy, para os mais velhos temos outro tipo de espetáculos. Temos fado, património da humanidade, temos teatro com belíssimas peças, que são aceites nacionalmente como muito boas, temos artistas emergentes, coproduções em que também ajudamos na criação, temos relações com outras redes, outros teatros, que também têm programação que passam por Torres Novas, e temos artistas internacionais.

Porque não basta ter uma exposição aberta, é preciso depois criar uma dinâmica com a própria exposição. E criando este serviço educativo para estes diferentes trabalhos que vamos fazendo nos diferentes equipamentos culturais é mais fácil chegar a esses públicos e fazê-los usufruir dos espaços que são dos torrejanos.

Falou na Rede de Teatros e Cineteatros, a que vários municípios aderiram neste último ano. O que é que ela vai trazer de novo, para além das alterações que já mencionou à organização da programação?

Alterações não traz muitas, porque nós já fazemos contratações a mais de seis meses. Mas deixamos sempre algumas datas abertas para projetos novos. Aquilo que vai trazer de novo, se efetivamente formos financiados por esta rede, vai trazer-nos a possibilidade de termos financiamento que antes era apenas do município de Torres Novas. Todos os espetáculos foram financiados até hoje pelo município de Torres Novas. Neste caso temos o apoio do Governo para poder fazer uma programação regular, como temos feito sempre, e termos a possibilidade de ter outro tipo de contratação que antes não poderíamos ter, porque o nosso orçamento nunca passa os 200 mil euros.

E esta contratação vai ser direcionada para certos artistas? Para certas áreas? Como vai ocorrer?

Este financiamento tem por base algumas características, algumas nuances que têm que ser dirigidas para determinadas criações, podemos dizer, para determinadas áreas de trabalho. Claro, não apoia aquilo a que chamamos o comercial. Vamos continuar a fazer essa aposta também para dar aos torrejanos aquilo que eles gostam, mas temos a possibilidade de apoiar os criadores e as criações e é isso que a rede nos vai trazer de bom para o nosso teatro.

A possibilidade de fazermos coproduções, de termos mais apoio financeiro para ajudar os artistas nessas criações e isso são as mais valias que podemos daí retirar, por fazermos parte de uma Rede que acaba por ser nacional e cujos artistas terão a possibilidade de poder ter mais oportunidades de apresentar criações e, àqueles que são os emergentes, que produzem, ter palco para as poder apresentar essas mesmas criações. 

No âmbito desta Rede de Teatros, e também do histórico dos últimos anos do Teatro Virgínia, tem-se falado  muito da ausência de um diretor artístico. Em que ponto se encontra esta situação? Vão ter um diretor artístico ou vão permanecer no atual modelo sem diretor?

Neste caso temos o apoio do Governo para poder fazer uma programação regular, como temos feito sempre, e termos a possibilidade de ter outro tipo de contratação que antes não poderíamos ter, porque o nosso orçamento nunca passa os 200 mil euros.

Ao longo destes anos, desde que o Teatro foi requalificado e começou o seu funcionamento com programação regular, tivemos sempre vários diretores artísticos, que acabaram por sair por motivos vários. O último acabou por sair também com alguma polémica em relação àquilo que era a sua programação e aquilo que ele fazia enquanto diretor artístico no Teatro. Desde essa altura achámos que tínhamos que repensar bem antes de termos um novo diretor artístico e fiquei eu com essa função de ir gerindo, com os técnicos do teatro, essa programação, até que conseguíssemos ter aqui uma perspetiva do que queremos efetivamente para o nosso teatro.

Toda a gente sabe que eu defendo que o nosso Teatro deve ter um diretor artístico, mas não tem sido fácil perceber quem é que terá essa capacidade para fazer uma programação como aquela que gostaríamos, dirigida a este público que é o nosso, de Torres Novas, e fazer um trabalho se calhar muito mais interessante do que eu faço, porque eu não sou diretora artística. Programação qualquer um pode fazer, não é nada difícil. Temos que saber que espetáculos temos que ter em Torres Novas, quais são os nossos públicos, e isso não é difícil eu fazer. Eu queria era ter outro trabalho além deste, que é o de fazer uma simples programação. 

Continuamos a colocar verba para termos um diretor artístico no nosso orçamento, ele está lá disponível, mas ainda não conseguimos perceber exatamente o que pretendemos fazer e quem gostaríamos de ter para fazer esta programação, ou esta direção artística num teatro que é uma referência nacional como Teatro Virgínia. Ainda continuamos em análise e não me inibo de o dizer. Não é uma decisão fácil e demora algum tempo até conseguirmos perceber exatamente o que queremos ali concretizar.

Estamos a elaborar o nosso Plano Estratégico de Cultura e depois de alguns destes passos dados poderemos perceber o que queremos em termos de direção artística e aí apostar nisso.

Elvira Sequeira e o poeta José-Alberto Marques, um torrejano residente em Abrantes. Foto arquivo: mediotejo.net

Pode adiantar o que é este Plano Estratégico?

Nós contratámos um professor da Universidade do Minho para nos ajudar na elaboração de um Plano Estratégico para a Cultura em Torres Novas. Esse trabalho foi feito, está em fase de conclusão e partir daí, com os dados que temos, então vamos construir esse plano e dá-lo a conhecer aos torrejanos. Estamos na fase de o levar a discussão pública e quando o Plano Estratégico estiver concluído trataremos de ajustar o trabalho que fazemos em termos culturais, nos diferentes equipamentos culturais de Torres Novas, que não é apenas o Teatro Virgínia, e faremos um trabalho que entendemos ter que ser mais organizado em termos de envolver todos, quer a comunidade, equipamentos e órgãos de decisão. Também estamos na fase de implementação do Conselho Municipal de Cultura para fazer um trabalho consistente nesta área.

A Federação Portuguesa de Cineclubes adiantou que vai mudar-se para Torres Novas. O que me pode dizer sobre esta transição, porque sei que esteve associada às negociações?

Uma Assembleia Geral da Federação de Cineclubes foi realizada aqui no Convento do Carmo, em Torres Novas, onde estava também o nosso Cineclube. Uma das questões que tinham era efetivamente uma nova sede para essa mesma Federação. Como estava na reunião disse que teria toda a disponibilidade para que esse trabalho pudesse ser feito com Torres Novas, até porque querem ter o seu Arquivo Digital em alguma parte e nós temos um Arquivo Municipal que funciona muito bem e temos essa capacidade no local onde está o Cineclube, que também funciona muito bem e em ligação com o município.

Toda a gente sabe que eu defendo que o nosso Teatro deve ter um diretor artístico, mas não tem sido fácil perceber quem é que terá essa capacidade para fazer uma programação como aquela que gostaríamos, dirigida a este público que é o nosso, de Torres Novas, e fazer um trabalho se calhar muito mais interessante do que eu faço, porque eu não sou diretora artística. Programação qualquer um pode fazer, não é nada difícil. Temos que saber que espetáculos temos que ter em Torres Novas, quais são os nossos públicos, e isso não é difícil eu fazer. Eu queria era ter outro trabalho além deste, que é o de fazer uma simples programação.  

Com esta concentração de cineclubismo, o que podemos esperar do futuro? Uma nova dinâmica cultural, com festivais, com investigação? Como vereadora da cultura, o que gostava que acontecesse?

(risos) Temos um cineasta premiado nacionalmente, que é o Flávio Ferreira. O Flávio Ferreira, antes de começar a trabalhar, fez um estágio PEPAL connosco no Arquivo Municipal e trabalhou connosco. Uma das ideias que íamos trabalhando, como ele era cineasta, era precisamente que tipo de festival poderíamos ter em Torres Novas com o cinema.

Temos algumas ideias, que não estão completamente afastadas. Também temos extensões de outros festivais que acontecem no país, nomeadamente em Coimbra, com uma extensão do Festival do Cinema Português que acontece em Torres Novas. E temos esta possibilidade de poder construir alguma coisa mais sólida em termos de cinema.

Com o Cineclube temos feito esse trabalho, de tentar perceber o que podemos fazer. Quer com eles, quer também com outros festivais para se tornar mais alargada a difusão do cinema em Torres Novas. Temos alguns projetos, inclusive com espaços, mas que ainda não estão completamente concluídos. Quando estiverem concluídos isto terá sempre pernas para andar. 

Podemos antever que Torres Novas será um novo polo de cinema na região?

Eu gostaria muito que isso acontecesse e faço força para que consigamos pôr de pé um projeto dessa natureza. Para isso é preciso trabalhar com todas as partes e temos disponibilidade para o fazer.

Na última reunião de câmara a vereadora falou de um projeto com o pianoforte do Museu Municipal, querem candidatá-lo a tesouro nacional. Pode-me falar um pouco deste projeto?

Este piano é um piano absolutamente especial, só existem quatro a nível mundial. É o pianoforte de Mathias Bostem que foi restaurado no Instituto Politécnico de Tomar, na sua parte física. Para o pôr a tocar é necessário outro tipo de restauro, que foi o que levámos a reunião de câmara, que foi um donativo dado por um professor da Universidade Nova, o professor [Gerhard] Doderer que gostaria o ver tocar e por isso nos deu esse apoio financeiro para fazer o restauro fonológico do piano. Para o colocar a tocar e realizar um CD, com músicas tocadas nesse piano. 

Este piano esteve em leilão no século anterior e foi adquirido por Carlos Reis. É uma peça que faz parte, desde o início, do espólio do Museu. É uma peça absolutamente especial, porque só existem quatro: um está nos EUA, outro em Inglaterra, outro no Museu Nacional da Música em Lisboa e outro no Museu Municipal Carlos Reis. Dado o interesse que esta peça potencia, tendo em conta as características que tem, nós consideramos que ele é passível de ser candidatado a tesouro nacional e é isso que estamos a fazer. Estamos a promover as ações necessárias para fazer essa candidatura. 

O que implica ser um tesouro nacional? Que responsabilidades acrescem em relação ao pianoforte?

Bem, termos um tesouro nacional em Torres Novas é absolutamente especial para que toda a gente o consiga visitar. Temos tido visitação de especialistas de renome, internacionais, só para ver o pianoforte.

É claro que temos que ter características especiais no Museu, e temos, para ter aquela peça para visitação. Agora vai ser restaurada em termos fonológicos para poder tocar e depois teremos se calhar uma apresentação, no futuro, de alguma peça tocada neste que é um tesouro, que por enquanto é de Torres Novas mas que gostaríamos que fosse também nacional.

O Museu Municipal Carlos Reis tem um espólio particularmente interessante, de um artista que foi o pintor da família real portuguesa, mas parece-me ser um pouco desconhecido a nível nacional. O que falha aqui? Será uma questão de divulgação? Estas questões como este tesouro nacional poderão vir a ajudar à promoção?

Este piano esteve em leilão no século anterior e foi adquirido por Carlos Reis. É uma peça que faz parte, desde o início, do espólio do Museu. É uma peça absolutamente especial, porque só existem quatro: um está nos EUA, outro em Inglaterra, outro no Museu Nacional da Música em Lisboa e outro no Museu Municipal Carlos Reis. Dado o interesse que esta peça potencia, tendo em conta as características que tem, nós consideramos que ele é passível de ser candidatado a tesouro nacional e é isso que estamos a fazer. Estamos a promover as ações necessárias para fazer essa candidatura. 

Desconhecido não é, propriamente, até porque acabamos por ganhar prémios na APOM. Mas porque agora estamos a fazer essa ligação com outras associações, com outras áreas, até internacionais. Faltava-nos essa dinâmica de comunicar para fora.

Um dos problemas que temos em Portugal é o não conseguirmos divulgar, em termos de comunicação. É uma falha que temos. Não é só em Torres Novas. Como fazemos chegar estas questões, muito relevantes, a todos? Fazendo alguma coisa, promovendo alguma coisa. Neste momento estamos a criar um núcleo de arqueologia para albergar aquele que é património nacional, e também mundial, que é o crânio que descobrimos nas Grutas do Almonda, na Aroeira, com o professor João Zilhão. 

Crânio encontrado na gruta da Aroeira, em Torres Novas. Foto: mediotejo.net

Vai ficar em Torres Novas?

Vai ser exposto pela primeira vez em Torres Novas. Depois veremos onde ficará. E poderá itinerar até pela Europa, pelo mundo. Mas a exposição desse, que é também um tesouro, vai ser em Torres Novas. Para isso estamos a criar condições para ter um espaço digno para poder promover também aquilo que é absolutamente relevante em Torres Novas e em que tínhamos apenas um núcleo no museu.

O Museu Municipal Carlos Reis é um museu generalista. Tem arte sacra, a pintura de Carlos Reis e a evolução humana com algumas peças em termos arqueológicos patentes. Estarmos a criar um núcleo de arqueologia fora do Museu, dá-lhe possibilidade de se desenvolver em termos de arte, de podermos expandi-lo de outra forma. Temos o bisneto de Carlos Reis a trabalhar nesse sentido. Temos um espólio de cartas que nos foi cedido e teremos depois esse potencial do núcleo de arqueologia. 

Já há data para inauguração deste núcleo de arqueologia?

Estamos a tentar, tentar, que isto da pandemia é incerto, para o final do primeiro semestre.

Além do Museu e do Teatro também a Biblioteca é outro polo cultural da região. Com a pandemia diminuiu forçosamente a atividade, como será este ano?

É como tudo. Se houver possibilidade continuaremos a fazer o trabalho que estávamos a desenvolver. Com todos os públicos. Era uma biblioteca que até à pandemia tinha mais de 100 mil entradas por ano. É absolutamente relevante, porque implica dinâmica do que oferecemos ao público, como em termos de lançamento de livros e conferências. Somos uma biblioteca UNESCO. Temos preocupações ao nível dos objetivos do desenvolvimento sustentável. Vamos trabalhando essas áreas em termos de literacia. Tínhamos também alguns projetos que estavam para começar com a CIM do Médio Tejo e que tivemos que parar e que temos que ir, lentamente, retomando.

Não podemos dizer que vamos voltar ao que tínhamos antes, porque temos que ir lentamente voltando e tendo cuidados. Até hoje nunca houve um foco de infeção em nenhum dos equipamentos culturais de Torres Novas. O que quer dizer que estamos a trabalhar bem. 

[O crânio da Aroeira] vai ser exposto pela primeira vez em Torres Novas. Depois veremos onde ficará. E poderá itinerar até pela Europa, pelo mundo. Mas a exposição desse, que é também um tesouro, vai ser em Torres Novas. Para isso estamos a criar condições para ter um espaço digno para poder promover também aquilo que é absolutamente relevante em Torres Novas e em que tínhamos apenas um núcleo no museu.

Qual a sua visão, como vereadora para a cultura no concelho de Torres Novas neste novo mandato?

Temos que ter uma articulação forte com todos. Não se faz nada sozinho. A Câmara e o Município não criam. Para isso temos que ter os criadores e quem produz. Nós temos os espaços e os equipamentos.

Costumo dizer que somos aqui os potenciadores, aqueles que dão a possibilidade e dão palco e que permitem que as coisas aconteçam. Também fazemos algumas coisas. Mas o que importa é atrair todos aqueles que acabam por ser criadores e com eles criar um conjunto de atividades e programação que permita que os torrejanos possam ter acesso à cultura. E acesso é mesmo um acesso integral. O ter a acessibilidade é o que nos motiva. 

Cláudia Gameiro

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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