João quer criar uma pequena quinta para vender produtos agrícolas Foto: mediotejo.net

A Start Up de Torres Novas está a desenvolver um projeto piloto de empreendedorismo no Estabelecimento Prisional (EP) de Torres Novas, cujo objetivo é criar um modelo que possa ser implementado em outras estruturas prisionais ou instituições. Neste momento há quatro detidos a desenvolverem projetos de negócio, que na quinta-feira, 3 de maio, realizaram uma avaliação de viabilidade por alguns dos mentores da Start Up e o presidente da Câmara de Torres Novas. A aprovação dos projetos foi unânime, assim como é geral a vontade de criar aqui uma oportunidade de integração.

São iniciativas de âmbito agrícola, social e comercial e estão a ser acompanhadas pela Start Up de Torres Novas, que faculta os meios e o conhecimento para que os detidos consigam estruturar um plano de negócio, encontrar financiamento e estabelecerem negócios de sucesso assim que as penas estiverem cumpridas. Há sobretudo uma grande vontade de construir algo, de ambas as partes, que permita dar um sentido à vida cá fora, quando nem sempre existe um passado fácil de recuperar.

João Oliveira pensou investir numa peixaria, mas acabou por decidir apostar num negócio agrícola Foto: mediotejo.net

“Estou contente por eles. Devemos sempre acreditar na mudança”, comenta Helena Caetano, técnica municipal que trabalha há seis anos com os presos em Torres Novas e tem impulsionado este projeto da Start Up. No dia da avaliação é ela que acompanha e dá dicas quando o nervosismo faz esquecer pormenores importantes aos projetos. Ao longo do processo foi ela que dialogou com os interessados, trazendo estudos e informação para que estes pudessem avaliar melhor os negócios e a sua rentabilidade nos concelhos em que se querem implementar.

Como João Oliveira, 53 anos, natural de Marinhais, preso por conduzir sem carta e há ano e meio no Estabelecimento Prisional de Torres Novas. João quer mudar de vida e fazer algo que lhe dê orgulho, em memória do pai que faleceu recentemente. A ideia é criar uma pequena quinta para produzir e vender produtos agrícolas cultivados de forma tradicional, distribuindo posteriormente pelas aldeias e cidades.

A globalidade do projeto já está delineado, falta o financiamento e algumas noções de burocracia que lhe vão sendo transmitidas pelo júri. O projeto inicial, confessa, até era fazer uma peixaria, mas apercebeu-se depressa que o investimento era demasiado elevado. Pequenos passos, salienta, são importantes para ir ao encontro do seu objetivo.

Nervoso, Stephan traça os primeiros planos para abrir um salão de beleza masculino Foto: mediotejo.net

Stephan Gomes tem 24 anos e é natural de Abrantes. O seu projeto é um salão de beleza vocacionado para o público masculino, onde pretende ele próprio fazer tatuagens, dado o seu talento para o desenho. Muito nervoso e algo inseguro, vai apresentada a ideia, apoiado por Helena Caetano que constata que não existe nada do género naquela região. Stephan precisará ainda de alguma formação, mas conta com o apoio da mulher. O valor do investimento também ainda é desconhecido. Para já, a ideia tem contornos de inovação e agrada a quem avalia.

Segue-se João Pedro, 35 anos, cujo projeto é-nos pedido que não seja divulgado. Das quatro ideias a serem incubadas, esta é a que apresenta um projeto mais estruturado, inovador, graças ao olhar perspicaz de João Pedro, que quer acumular esta empresa como outra, mais relacionada com o seu trabalho na construção civil. Se o negócio correr tão bem como prevê, será inclusive possível empregar pessoas, comenta.

Pedem-nos que não divulguemos porque a ideia tem mesmo potencial. João Pedro tem o futuro bem delineado Foto: mediotejo.net

Ao chegar distribui um plano pelos presentes, com os preços já definidos do serviço de cariz social que quer prestar. Sabe as necessidades da zona onde quer implementar-se e o contexto sócio-económico dos clientes. A organização e a noção da realidade que vai encontrar agradam ao júri. Será uma das propostas com mais futuro.

Por fim chega a vez de Hélder Miguel, 41 anos, de Marinhais, a cumprir pena há uma década e ainda com vários anos pela frente. Uma reportagem televisiva sobre a indústria de cogumelos e os seus conhecimentos de agricultura permitiram-lhe elaborar, com ambição, um projeto para uma estufa. Tem perspetivas de venda e conseguiu, por meio do apoio de Helena Caetano, consultar estudos sobre o tema. O investimento é elevado, constata, mas o negócio parece garantido.

“Vê-se pouco disto”, comenta Hélder Miguel, tendo cumprido já 11 de uma pena de 18 anos Foto: mediotejo.net

“Há poucas oportunidades destas” na prisão, comentaria a dada altura ao júri. “Não se vê muito interesse das pessoas em deixarem as suas vidas e virem a um EP falar com as pessoas e encaminharem-nos”, o que é afinal “uma ajuda para a vida”. “Não se vê, acaba-se a pena e faz-te à vida”.

“Isto também é uma escola para nós”, comentaria à saída o presidente da Câmara de Torres Novas, Pedro Ferreira.

Um projeto-piloto

O trabalho que está a ser desenvolvido no Estabelecimento Prisional de Torres Novas é na prática um projeto-piloto, um “modelo” que a Start Up gostaria de poder implementar em outras instituições, além das prisionais. “A nossa ideia é mesmo iniciar um modelo”, salientou ao mediotejo.net Nuno Valente, coordenador da equipa “Torres Novas Mais”, que no próximo ano possa ter continuidade noutra instituição.

Este é afinal um trabalho que não se prende apenas à questão social, mas se foca sobretudo no empreendedorismo e necessita de alguma resiliência para conseguir ultrapassar obstáculos. “A ideia é que às pessoas que forem entrando (nas instituições) lhes seja dada logo à partida a oportunidade”, explicou, constatando que basta que haja uma experiência bem sucedida para criar ânimo nestas comunidades.

A Start Up Torres Novas pegou nos meios existentes e está a criar um modelo de apoio ao empreendedorismo que possa ser implementado em prisões e outras instituições Foto: mediotejo.net

A Start Up oferece principalmente mentoria, ou seja, informação sobre burocracia e as realidades envolvidas a quem deseja entrar no mundo dos negócios. Os incubados aprendem a estruturar uma empresa através de pequenas formações, como de marketing digital. A instituição também informa sobre linhas de financiamento. Posteriormente “ajudamos nas candidaturas”, adiantou.

Na sessão de dia 3 de maio, analisaram-se as propostas de negócio e fizeram-se contas ao investimento necessário. Há projetos com risco elevado, outros nem tanto, constatou. O próximo passo com os presos é realizar um plano de negócios, com custos, receitas e despesas e criar o nome para a empresa.

Torres Novas precisa de uma Casa de Saída

Para a diretora do Estabelecimento Prisional de Torres Novas, Paula Quadros, a iniciativa da Start Up é “muito importante na medida que vai ajudar os detidos a um reconhecimento das suas potencialidades, que muitos deles desconheciam”. Os pequenos negócios criados acabam também por ser alternativas em termos de trabalho.

Na instituição estão presos indivíduos com uma tipologia de crimes de penas pequenas, entre quatro a cinco anos, pelo que muitos deles se encontram em regime aberto. São pequenos furtos, roubo, tráfico, a condução sem carta. No geral, mas com exceções, são pessoas com dificuldades económicas e de famílias desestruturaras, que acabam por ter na prisão a possibilidade de obter uma formação.

Em Torres Novas há aulas de alfabetização e de ensino secundário, havendo também um curso de formação profissional de manutenção hoteleira. A nível socio-cultural há workshops de pintura, uma turma de yoga, um espaço de desporto e um clube de leitura, realizando-se também sessões de esclarecimento ao nível da saúde. Neste momento encontram-se no EP 48 reclusos.

O Estabelecimento Prisional de Torres Novas destina-se a crimes menores e possui regime aberto Foto: mediotejo.net

Questionada quanto à gestão de expetativas dos detidos, algumas eventualmente irrealistas sob o real impacto dos projetos de negócio, a diretora constatou que “eles têm que ser balizados e adaptar-se à realidade”, sendo que o intuito do projeto é precisamente dar-lhes essas ferramentas. O grande perigo para estes projetos, e para os próprios presos, é muitas vezes os detidos, em liberdade, regressarem aos locais de origem. Paula Quadros aborda por tal a necessidade de o município apostar numa “Casa de Saída”.

“Recebemos muitos indivíduos de fora que ao constatarem a boa integração local querem ficar por cá”, contextualiza, inclusive para se afastarem dos meios familiares. Neste sentido faz falta uma espaço de transição, que permitisse uma continuação do acompanhamento dos detidos nos primeiros meses de liberdade, quando eles não têm possibilidades de pagar uma renda. “Se envolvêssemos a Segurança Social e a Câmara Municipal neste projeto era importante, para eles ganharem asas para voar”.

Fotos. Jorge Santiago

Cláudia Gameiro

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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