Uma turma de 10º ano do curso de Turismo da Escola Profissional de Torres Novas teve a oportunidade de ouvir neste Dia da Mulher, 8 de março, a experiência de vida de quatro mulheres torrejanas que de alguma forma se destacaram. Manuela Tolda, Maria Isilda Cunha, Graça Prezado e a jovem Nádia Carvalho (em substituição de Teresa Tapadas, que não pôde comparecer) falaram sobre “Ser Mulher” e os problemas de ontem e hoje em termos de direitos sociais e cívicos. Lutar pelos objetivos, mutilação genital feminina, violência no namoro ou simplesmente aceitar a pluralidade do ser humano foram os temas das intervenções.
A abrir a sessão, na Loja Ponto Já, esteve presente o presidente da Câmara de Torres Novas, Pedro Ferreira, que lembrou a história da mãe, funcionária dos Correios. “Não era normal” naquele tempo uma mulher ter outra ocupação que não o serviço doméstico, constatou, pelo que a atitude dela na época já foi “muito voluntariosa”. “Era impossível uma mulher entrar na política”, sendo que precisavam inclusive de uma autorização para sair do país.
“A minha mãe para entrar nos Correios teve que assinar um documento a renunciar” a um conjunto de liberdades, recordou.
A primeira intervenção da manhã foi de Manuela Tolda, professora e ex-vereadora da Câmara de Torres Novas, que fez uma exposição de todos os projetos em que se envolveu ao longo da sua carreira na docência e na vida política. Conforme recordou, foi a primeira mulher vereadora em Torres Novas, tendo-lhe cabido o pelouro da Educação. Foi nessa função a grande impulsionadora da construção da Escola Profissional de Torres Novas.

Ao longo do seu discurso deixou vários concelhos à turma de estudantes, como por exemplo que “nunca se fazem coisas sozinho” e os perigos das várias formas de analfabetismo. “Conhecer permite-nos escolher o nosso caminho”, defendeu. Atualmente Manuela Tolda, já reformada, criou na sua terra natal, Almeida, uma associação de desenvolvimento local.
Seguiu-se o testemunho de Maria Isilda Cunha, professora e primeira cooperante portuguesa. A docente recordou a sua experiência na Guiné-Bissau, nos anos 70, e de como uma tradição local, a Festa do Fanado, lhe despertava curiosidade, sem nunca lhe ter sido permitido perceber do que se tratava. O que é que acontecia aos rapazes e raparigas adolescentes que eram mandados para a mata e os fazia faltar à escola?, questionava-se.
Só há relativamente poucos anos, admitiu aos alunos, descobriu que se tratava de uma prática que incluía, entre outras tradições, a mutilação genital feminina. Na época nunca conseguiu saber o que acontecia na mata, recordou, tendo sido aconselhada a não se envolver com o assunto.
Nádia Carvalho, a jovem atleta de 16 anos que protagonizou o salvamento de uma idosa há alguns meses, foi convidada a intervir no lugar da fadista Teresa Tapadas. Algo embaraçada mas com ideias a transmitir, deixou o exemplo de um dos seus ídolos, Rosa Mota, que venceu numa prova que era tradicionalmente masculina.
“Para nós nada é impossível”, defendeu. “Não temos que ser nem feministas, nem machistas, somos todos seres humanos”. “Somos todos seres. Ninguém é igual a ninguém. O que importa é unirmo-nos”, concluiu.
Por fim, falou a Chefe Graça Prezado, da PSP, que recordou o início dos anos 80, quando houve o grande “boom” de entrada de mulheres nas forças de segurança. “As mulheres nos edifícios de polícia eram as da limpeza”, lembrou, mas gradualmente percebeu-se que era necessário haver mulheres nas equipas, dado o crescimento da criminalidade feminina.
Graça Prezado reconheceu que teve momentos em que sentiu que os homens a despiam mentalmente e que a entrada das mulheres na polícia não se fez sem comentários machistas. Hoje, apesar de ainda existirem distinções, as coisas mudaram. “Nós fizémos a diferença”, recordou. “Não queremos estar a medir força de braços com os homens”, sublinhou, “queremos a igualdade” de direitos.
A responsável terminou a sua intervenção a falar sobre a violência no namoro, frisando que esta não é só quando é praticada por um homem, mas também por mulheres. “Não nos vamos nunca esquecer do homem”, comentaria face a algumas questões colocadas pelos alunos.
Esta foi uma iniciativa da Câmara Municipal de Torres Novas.
