Entre 60 e 70 por cento da população a nível distrital respeitou as diretivas de limpeza de terrenos, ainda que por vezes com alguns excessos. Na sexta-feira, 18 de maio, o Sexta d’Ideias debateu em Chancelaria a Proteção Civil, com a presença do Major Pedro Reis, da GNR, do Comandante José Carlos Pereira, dos Bombeiros Torrejanos, e do engenheiro agrónomo Ricardo Vicente. A Serra de Aire, sem incêndios desde a viragem do século, é uma das grandes preocupações no território.
Torres Novas não é propriamente um concelho florestal, explicou o Comandante José Carlos Pereira, mas rural. Ou seja, pode não registar grandes incêndios, mas é propício a incêndios de grande velocidade, em zonas onde as moradias se encontram “salpicadas” pela paisagem. “Nunca vamos ter meios para este flagelo”, constatou assim o responsável, expressando a impossibilidade de conseguir levar os meios a acudir todas as situações que se possam gerar de perigo.
O debate de sexta-feira não foi de todo pessimista, mas refletiu preocupação com o aproximar do verão. Segundo o Major Pedro Reis a ação de sensibilização para limpeza de terrenos causou “muito impacto local”, com de 60 a 70 por cento de cumprimento a nível distrital. O responsável salientou porém que existem, por exemplo, proprietários emigrantes que estarão a aguardar pela visita a Portugal para tratar da limpeza, o que deixa terrenos ainda por limpar. Como afirmara de início, basta haver um incumpridor num aglomerado populacional, para afetar todos os outros.
Da parte de José Carlos Pereira foram deixadas críticas ao atraso das políticas de Proteção Civil no concelho de Torres Novas, embora desde o ano passado tenham sido dados alguns passos nesse sentido. Com a responsabilidade a passar para os municípios, gerou-se mais pressão para encontrar soluções.
Por outro lado, constatou, há um “despertar de consciências”. Desde novembro que os Bombeiros Torrejanos receberam 2399 informações sobre queimadas, quando em 2017 não teria chegado a uma centena, salientou. Desde 2003/2005 que não há grandes incêndios em Torres Novas, o que pode significar que o ciclo sem fogos estará a terminar.
O apoio municipal é assim fundamental, referiu, defendendo de seguida que se aposte na profissionalização dos Bombeiros. “Não podemos estar assentes apenas em voluntários”, referiu, comentando que 50 a 70% do efetivo deveria ser profissional, quando acontece o inverso.
No momento do debate, o Comandante mostraria alguma frustração pela forma como estão a ser desacreditados os Bombeiros, colocando-se profissionais no banco dos réus por situações descontroladas. Ao mesmo tempo procuram-se profissionais no estrangeiro para dar formações, que, não obstante o conhecimento que trazem, possuem contextos diferentes dos de Portugal.
Além disso “têm outros mecanismos de apoio à decisão”, como equipamentos técnicos de meteorologia ou câmaras térmicas. Os equipamentos portugueses, notou, estão obsoletos. “Temos que ter novas tecnologias, que não existem”, referiu, salientando que ainda se trabalha de mapa na mão.
Já Ricardo Vicente fez uma exposição das conclusões dos relatórios dos incêndios de junho e outubro de 2017. Alterações climáticas, território desorganizado e falta de meios foram as causas apontadas para a catástrofe, com a indicação de que a tendência é para que se continuem a verificar fenómenos extremos. Por outro lado, constatou, o despovoamento e envelhecimento do interior, com ausência de atividade económica, torna os territórios propícios à desorganização da floresta e às monoculturas do pinheiro e do eucalipto, que ardem com facilidade.
Mão criminosa (36%), queimadas (33%) e reacendimentos (24%) estão entre as causas das ignições. “Numa situação de alterações climáticas precisamos de estruturas e meios que não temos hoje”, melhorando-se a profissionalização, defendeu. Uma aposta em medidas estruturais e ordenamento do território será essencial, nomeadamente a construção de faixas de gestão de combustível e a modificação da estrutura da floresta, com mais diversidade.
Ricardo Vicente adiantaria ainda, no momento do debate, que o eucaliptal industrial não foi muito atingido pelos incêndios, uma vez que estava muito mais cuidado que o dos pequenos proprietários.
Face a uma questão do mediotejo.net, o Comandante José Carlos Pereira adiantou que a última intervenção de limpeza da Serra de Aire decorreu em 2001 e que todos os anos tem procurado alertar o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) sobre o estado do parque natural, que não sofre um grande incêndio desde 2005. O Pedrógão, localizado na Serra de Aire, está em risco muito alto de incêndio.
