antiga oficina da Casa Espanhol Foto: mediotejo.net

Ainda há sujidade nas mãos de João “Espanhol”. E dúvidas. Tantas dúvidas… Terá sido boa ideia encerrar? O que será de mim depois disto? Despediu-se da música há algum tempo e agora foi a vez de dizer adeus ao negócio centenário. Só o Partido parece ter ficado, nos cartazes de figuras históricas fixados na parede e nos amigos que entram e saem e lhe deixam uma palavra de conforto neste último dia. A Casa Espanhol encerrou a 30 de maio de 2018. Um dia para a História de Torres Novas.

Voltemos ao início. João José Lopes, 89 anos, João “Espanhol” para os amigos. Nascido e criado em Torres Novas, cantador de serenatas e vencedor ribatejano do programa “À Procura de uma Estrela”, de 1953.

Comunista de filiação, guerreiro de coração, pois a vida foi uma luta contra a pobreza e a justiça social é um bem pelo qual se deve dar a alma. Vocalista durante 50 anos do Grupo Niger, que correu o país a dar nome a Torres Novas.

Proprietário da loja de ferragens “Casa Espanhol”, o mais antigo negócio da cidade torrejana, criado nos anos 20 do século passado pelo pai galego de João, que acabaria por aportuguesar o sobrenome “Lopez”.

João “Espanhol” e os irmãos tornaram-se responsáveis pela loja de amolar quando este tinha apenas 11 anos, na sequência da morte do pai. Na época o estabelecimento já tinha a sua dose de história, uma vez que o pai recebera ali vários foragidos da Guerra Civil espanhola. Inicialmente na cave do antigo Teatro Virgínia, foi transferida há cerca de 50 anos para rua por trás da Praça 5 de Outubro, onde se manteve até ao seu encerramento na quarta-feira.

João Espanhol teve um último dia bastante agitado, com uma encomenda que o manteve a trabalhar durante a tarde Foto: mediotejo.net

A política sempre fez parte da vida de João “Espanhol”, filiado no Partido Comunista, com o espaço tornar-se um ponto de encontro de discussão e tertúlia. O proprietário foi sendo porém mais conhecido pela sua costela de baladeiro e cantor de serenatas, levando o grupo Níger em concertos pelo país ao longo de meio século. Mesmo quando o grupo se separou, João continuou a cantar, interrompendo cerimónias públicas a cantar o Hino Nacional.

Até que se chegou a 30 de maio de 2018. Há vários meses que se sabia que a loja iria fechar. A condição de saúde de João “Espanhol” foi-se deteriorando e a filha e os netos vivem na Suiça. Deixou de cantar, confessa, decisão para a qual necessitou de alguma coragem. Optou por encerrar também a Casa de ferragens, que, se não contarmos a mudança de localização, conta com cerca de um século e é considerado o mais antigo negócio da cidade de Torres Novas.

“Estou cheio de trabalho”, comenta aquando a chegada do mediotejo.net a meio da tarde do último dia. Uma encomenda inesperada tornou o dia agitado, interrompendo-se continuamente o trabalho para receber as visitas e antevendo-se um atraso com a entrega.

Os amigos vêm dar-lhe um abraço, uma palavra de conforto, pois a saúde, ainda que débil, vai-se mantendo na medida do possível. João “Espanhol” sorri, mas não esconde a tristeza. O que fará depois disto? Prefere não pensar…

“É um desgosto fechar a loja”, confessa, negócio no qual trabalhou nos últimos 78 anos e reergueu com esforço e dedicação após o falecimento do pai. “Estou a viver um momento triste. Tenho sempre a loja no pensamento. Como vou superar isto?…”.

Na sua oficina, foi recebendo vários amigos ao longo do último dia Foto: mediotejo.net

Não sabe também o que vai acontecer ao espaço, admitindo que já houve interessados em comprar. O médico e amigo de mais de 30 anos, Vaz Teixeira, defende a transformação da loja num lugar de memória – um museu ou espaço de tertúlia – que possa preservar a essência do que foi a vida de João “Espanhol”, um “humanista” que nunca se desvinculou da luta pela justiça social e que tinha amigos de todos os quadrantes políticos.

“Era um ponto de conversa, de tertúlia”, recorda sobre o espaço, defendendo uma atitude municipal a este respeito.

No meio da agitação de visitas e o trabalho a atrasar-se, acabamos por partir. Muitas prateleiras estão vazias, mas resta muito por arrumar. João “Espanhol” vai repetindo à funcionária, de alerta com a urgência do cliente, que ainda vai levar algum tempo a terminar de afiar as tesouras. Caso para dizer que na Casa Espanhol se trabalhou até ao encerrar das portas.

Mais que um negócio centenário, fechou-se um determinado capítulo na memória torrejana. A memória do tempo das lojas de ferragens, do tempo da resistência à ditadura, do tempo das serenatas à janela e de um mundo muito particular que, aos poucos, vai desaparecendo do imaginário coletivo.

Cláudia Gameiro

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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1 Comentário

  1. Excelente artigo Cláudia.
    Para além do trabalho jornalístico, a escolha das palavras ilustram bem o sentimento de perda que o fecho da loja trará a Torres Novas. Uma cidade cada vez mais sem identidade, cada vez mais sem memória e, infelizmente, cada vez mais afastada do seu centro histórico.

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