Fundada em 1845, encerrada em 2011 por insolvência, a Companhia Nacional de Fiação e Tecidos de Torres Novas é uma marca do concelho e parte integrante da história dos últimos 200 anos da fiação em Portugal. Com exceção do infantário que ali continua a funcionar, todo o edificado encontra-se em franca degradação, tendo motivado um comunicado da Associação para a Defesa do Património de Torres Novas (ADPTN) no último 1º de maio. Mas o que fazer com a Fiação e Tecidos, cerca de 33 mil m2 de terrenos, edifícios e um afluente do rio Almonda que atravessa toda a fábrica? Maria Neves Correia, 25 anos, torrejana mestre em Arquitetura, tem uma proposta.
O encontro estava combinado para o início da tarde do 1º de maio, por forma a visitar o espaço da fábrica que serviu de inspiração à tese de mestrado de Maria Correia, defendido em setembro de 2016. Boa a ideia, mau grado o dia, nem a jornalista nem a entrevistada se lembraram que era feriado nacional e que o infantário local, que mantém os portões abertos, estava fechada. A conversa acabaria por decorrer no Jardim das Rosas, num banco de jardim, onde Maria lembrou como nasceu a sua paixão pela arquitetura e como surgiu a ideia de abordar a Companhia Nacional de Fiação e Tecidos de Torres Novas na tese de mestrado.
Nascida e criada em Torres Novas, Maria Correia decidiu que queria ser arquiteta no 7º ano. O pai é engenheiro civil e costumava-a levar para as obras, estimulo que terá impulsionado o interesse de Maria pelo desenho. Ingressou em Arquitetura na Universidade de Coimbra, no mestrado integrado, tendo defendido a tese em setembro último. Recentemente o seu trabalho começou a circular nas redes sociais, tendo chegado ao núcleo político do concelho.

“Precisava de alguma coisa que me interessasse”, começa por explicar ao mediotejo.net. “Pensei nas fábricas da cidade, porque há algumas abandonadas. Pensei inicialmente na fábrica Alves das Lãs, mas havia pouca informação”, recorda. O facto de ter um tio que trabalhou na Fiação e Tecidos acabaria por impulsionar a escolha final, por forma a realizar uma tese em torno de um projeto de reabilitação. Em 2014, recorda, quando iniciou este processo, a fábrica tinha fechado há três anos.
Inicialmente “fui à Câmara Municipal procurar desenhos da fábrica, mas encontrei pouca coisa. Depois fui à fábrica, onde tirei fotos e fiz um levantamento em desenho e um modelo 3D, tanto da fábrica como está, como da proposta”, explica. Em todo este trabalho nunca chegaria a falar com os antigos proprietários. “Não me souberam indicar que estava com a tutela da fábrica (desde a insolvência em 2011), pelo que fui com o conhecimento do vigilante que se encontra lá. Fiz duas visitas à fábrica”, refere.
Maria Correia admite que antes de iniciar este projeto pouco sabia da história da Fiação e Tecidos e que ficou surpreendida com o que foi descobrindo. “Consultei os livros do Joaquim Bicho e do Francisco Canais Rocha sobre a fábrica”, recorda, “não tinha noção nenhuma da dimensão da fábrica e do papel que desempenhou na fiação em Portugal”.

Feito o levantamento do edifício, Maria teve que elaborar uma proposta de reabilitação. “Apesar de periferia, é perto do centro, pelo que é um ponto estratégico”, começa. Com 33 mil m2 (3,2 hectares) a fábrica “tem um grande potencial”, com muita natureza envolvente e o rio que a atravessa, para além dos inúmeros edifícios. “Tive dificuldade até em pensar num projeto suficientemente grande para a fábrica”, admite.
O projeto de Maria Correia excluiu o parque de estacionamento, o infantário e uma secção destinada à fiação de algodão. “Só trabalhar no grande núcleo foram dois anos”, explica.
O primeiro passo deste trabalho passa por demolir o bloco central da fábrica, a fim de criar uma grande praça. A Fiação e Tecidos tornar-se-ia uma “hub”, ou seja, um núcleo cultural virado para o rio, cujos edifícios remanescentes se transformaria em: uma incubadora de empresas, um museu da Companhia Nacional de Fiação e Tecidos, um hostel, um mini-mercado, um restaurante com vista para o rio, um ginásio, parque de estacionamento e umas piscinas fluviais, com água do rio. Propõe ainda a recriação do moinho de Santa Bárbara, já inexistente. A praça central acolheria concertos, feiras, entre outros eventos.

Esta foi a tese que Maria Correia apresentou em setembro e que lhe valeu o 18 na nota final. Posteriormente apresentou o projeto à Câmara Municipal, tendo recebido um bom feedback. Aguarda a oportunidade de poder apresentar o trabalho a todo o executivo camarário. Ressalva porém que este projeto é uma opção que pode ainda incluir muitas outras opções. “Isto é um estudo, uma visão”, sublinha.
“Estas reabilitações acabam por potenciar a envolvente”, criando-se outras centralidades, explica. “Aquele espaço da cidade merecia outra visão”, que passaria também pela recuperação das margens e de toda a zona por trás da Fiação e Tecidos.
Maria Correia começou a receber elogios ao seu trabalho quando este foi divulgado nas redes sociais recentemente. No entanto a estudante de arquitetura continua à procura do estágio profissional que lhe dará acesso à Ordem dos Arquitetos e ao mundo do trabalho. “A minha ideia era ficar na zona, gostava de ficar em Portugal”, explica. “Mas vou esperar apenas um ano”, admite, após o qual equaciona a emigração.
O desejo de Maria é finalmente “colocar as mãos na massa”, trabalhar e aprender mais sobre a sua área na realidade prática da vida. Prosseguir os estudos não faz parte dos seus planos. “Gostava de contribuir para a sociedade, em termos de habitação social. Também gostava de contribuir para a minha cidade”, termina.
