ex-diretor clínico do Hospital de Torres Novas defende que se deve lutar pelo modelo inicial do CHMT Foto: mediotejo.net

O ex-diretor clínico do Hospital de Torres Novas, José Sampaio, foi o convidado do Sexta d’Ideias de sexta-feira, 2 de março, a tradicional tertúlia promovida pelo Bloco de Esquerda de Torres Novas. Em cima da mesa esteve o debate sobre o Sistema Nacional de Saúde (SNS), com o título “A Saúde a que temos direito”. O Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT) foi naturalmente trazido para a discussão, com José Sampaio a defender que se regresse ao modelo de divisão de serviços pelos três hospitais previsto aquando a construção do Hospital de Torres Novas.

O Bloco de Esquerda encontra-se a percorrer o país com um roteiro sobre o SNS. Segundo explicou o deputado bloquista Moisés Ferreira, a iniciativa surgiu devido à falta de resposta do governo PS à atual crise que se vive no serviço público de saúde, que caminha cada vez mais no sentido da privatização. Para Moisés Ferreira, o crescimento dos hospitais privados têm-se feito à custa do dinheiro público e da falência do serviço público.

“Quem garante a universalidade é a gestão pública”, defendeu. O deputado argumentou que é necessário um movimento em defesa do SNS e que o governo não tem combatido os lobbies. Por tal, o Bloco de Esquerda quer propor alterações à atual lei de bases. Por uma “lei de bases que separe o público do privado”, defendeu, acabando com a “promiscuidade” entre setores. “Que o público seja universal e gratuito”.

A explicação em torno do contexto do debate surgiu logo após a intervenção de José Sampaio, médico reconhecido em Torres Novas. O clínico começou por abordar a falência do SNS, constatando que se caminha no sentido da privatização.

O paradigma, argumentou, de que o “centro de saúde é a porta de entrada do SNS” tem vindo a degradar-se gradualmente, com as populações a procurarem antes as Urgências. “Aquilo que se nota é que há um setor privado em crescimento à custa dos dinheiros públicos”.

José Sampaio constatou que “não há uma resposta dos cuidados de saúde primários com a abrangência que devia existir” e uma redução dos médicos de família. Deu assim o exemplo da Dinamarca, onde existe um serviço de médico de família disponível 24 horas por dia. “Quem vai direto para o Hospital são os acidentes”, apontou, sendo que na Dinamarca há três médicos de família por um médico hospitalar. “Aqui o número de profissionais é inferior às necessidades”.

Uma solução, sugeriu, seria atuar no internamento médico para captar mais médicos de família. Porém, referiu, “não há vontade política para fazer isto”, sendo que existem também interesses corporativos e nas próprias especialidades médicas. “Há vários interesses. O que dá prestígio é inaugurar um hospital não um centro de saúde”. Pouca prevenção, mais medicina hospitalar e menos proximidade são algumas das consequências da atual situação.

Sobre o CHMT, José Sampaio recordou que entrou como responsável em 1997 e já encontrou o processo de organização dos três hospitais (Tomar, Torres Novas e Abrantes) em curso. “Toda a gente queria o seu hospital”, recordou, admitindo que a solução mais lógica teria sido juntar os hospitais de Tomar e Torres Novas.

Recordou assim que o projeto inicial para o CHMT era o de uma “complementaridade técnica hospitalar”, com Torres Novas a ficar com os serviços de Medicina e cirurgia geral, Tomar com a restante cirurgia e Abrantes com a maternidade e a urgência. Porém os serviços foram-se modificando e houve necessidade de mais investimento em Abrantes. “Passados estes anos tenho mágoa que isto tenha esvaziado”, comentou, evidenciando que tal demonstra a falência do SNS.

“Devia-se agarrar no documento inicial e fazer daí a bandeira”, sugeriu. Para José Sampaio uma solução para o CHMT seria o regresso desta “complementaridade técnica” que serviu de fundamentação à existência dos três hospitais.

Também presente, o deputado do BE Carlos Matias lembrou que ainda existem 19 mil utentes sem médico de família no Médio Tejo. Não obstante, os médicos de família acumulam cerca de 1900 utentes em cada ficheiro. “É um trabalho muito pesado”.

“Abrantes não tem capacidade para acolher a procura que tem”, referiu. Defenderia assim que a situação das urgências no Médio Tejo terá que ser alterada.

A sessão decorreu na Praça do Peixe.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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