Noite dedicada aos primórdios da medicina moderna Foto: mediotejo.net

O médico, artista e académico abrantino, Manuel Valente Alves, abriu na sexta-feira, 25 de maio, a temática da Feira de Época de Torres Novas, com uma conferência subordinada à “Saúde e Medicina em Portugal na Época dos Descobrimentos”. Mestre António, figura que centra as recriações histórias deste ano, seria uma espécie de Bastonário da Ordem dos Médicos, uma homem proeminente num tempo em que a medicina começava a descobrir o que era de facto o corpo humano.

Com um extenso currículo profissional e trabalho académico realizado na área da história da medicina, o médico de clínica geral Manuel Valente Alves deu o mote à rubrica Memórias da História que o município conjuga com a feira temática. Em torno da figura do judeu torrejano e físico-mor do Rei D.João II, Mestre António, falou-se das descobertas na medicina no século XV e XVI e do seu impacto no assistência médica que então era facultada à população.

“Foi com D.João II que se fez a primeira reforma hospitalar”, recordou ao público Manuel Valente Alves na Biblioteca Municipal de Torres Novas, tendo sido criado assim o Hospital Real de Todos os Santos, já no século XVI. Com a expansão marítima, Portugal foi crescendo enquanto potência europeia, mas também começou a ser alvo de doenças, como a cólera, a sífilis, a febre amarela ou a peste. Foi em Portugal, inclusive, que nasceu a primeira enfermaria de sífilis do mundo.

Manuel Valente Alves deu uma palestra sobre as alterações na assistência médica e as descobertas nos séculos XV e XVI Foto: mediotejo.net

Realizou-se uma maior aposta na formação médica, nomeadamente por meio das universidades, e fundou-se as Misericórdias, a “primeira rede organizada de saúde do mundo”. “A reforma assistencial começou com D.João II e marcou uma mudança a nível mundial”, salientou, uma vez que um país sem saúde não podia colonizar.

Mestre António ocupava um cargo de autoridade semelhante ao que é desempenhado atualmente pelo Bastonário da Ordem dos Médicos, sendo aquele a quem competia legitimar o exercício da medicina. Portugal possui aliás um conjunto de figuras que marcaram a medicina desta época, como Garcia da Horta ou Francisco Chances, grandes cientistas e humanistas do seu tempo que se dedicaram a investigar a origem das doenças.

O século XV, retratado nas Memórias da História deste ano, é assim o berço da medicina moderna, quando se começou a descobrir o interior do corpo humano, a química e a bioquímica, apesar de apenas no século XIX boa parte destes conhecimentos terem sido introduzidos na prática médica. Durante séculos os médicos foram sobretudo uma elite, muitos dos quais eram judeus que acabaram por sair do país, homens sábios que se dedicaram à investigação.

Em entrevista ao mediotejo.net, Manuel Valente Alves admitiu que visita pouca a sua região natal. “Gosto muito da região, mas raramente me desloco lá. Como tenho uma vida profissional muito intensa, devido aos meus múltiplos afazeres, acabo por não ter muito tempo para revisitar os lugares de infância, como gostaria”.

A investigação da história da medicina tem tido uma grande dinâmica, admitindo o investigador que faltam apenas “meios e sobretudo estruturas que divulguem o trabalho realizado, dentro e fora da universidade”.

Na região “há duas personalidades da medicina, naturais da região de Abrantes, sobre as quais me tenho debruçado e que refiro no meu livro História da Medicina em Portugal: Manuel Constâncio, o fundador da Escola Portuguesa de Anatomia, e António Augusto da Silva Martins, notável cirurgião que colaborou com Egas Moniz na invenção da angiografia cerebral”.

Manuel Constâncio, explicou, foi discípulo de um famoso anatomista francês, Dufau, e teve uma vida longa, morrendo aos 92 anos de idade.

“Quando assumiu a regência da cadeira de anatomia no Hospital de Lisboa conseguiu que o Governo apoiasse a ida de alguns dos seus discípulos a Londres e Edimburgo para aprender as técnicas cirúrgicas mais recentes e assim criar em Portugal um corpo docente altamente qualificado que permitisse fundar uma verdadeira escola de cirurgia em Lisboa, o que veio a acontecer após a sua morte, com a criação da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1836. Constâncio criou assim a primeira escola portuguesa de anatómica, que depois irradiou para Coimbra, para o Porto, para a Baía, para o Rio de Janeiro”, narrou.

Já Silva Martins foi um “cirurgião multifacetado” que “teve uma vida curta”. “Era genro de Francisco Gentil, fundador do Instituto Português de Oncologia, e pai do cirurgião-pediatra António Gentil Martins, ex- bastonário da Ordem dos Médicos. Inventou a famosa pinça de Martins, fabricada pela Casa Gentile de Paris, utilizada por Egas Moniz na angiografia cerebral, e foi o primeiro a executar uma angiografia no Karolinska Institut em Estocolmo.

Em 1922 venceu em Haia o Campeonato do Mundo de Tiro”. Este médico morreu com 38 anos, vítima da explosão acidental de uma arma de fogo.

Questionado sobre a importância de iniciativas como a Feira de Época de Torres Novas, Manuel Valente Alves considerou-as “muito interessantes e importantes”.

“Além de reforçarem a identidade local e global dos lugares, ligando-os à história, à cultura, às relações interpessoais, estes eventos divulgam o património cultural e natural, tornam-no atractivo. A atractividade dos lugares tem quer ver com esta gestão viva inteligente das várias dimensões do humano”, concluiu.

A Feira de Época decorre de 30 de maio a 3 de junho.

 

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

Deixe um comentário

Leave a Reply