Há 30 anos que equipas arqueológicas fazem investigação em Torres Novas, havendo um Centro destinado a acolher as equipas de arqueólogos Foto: DR

O crânio da Aroeira,  o fóssil humano mais antigo já encontrado em Portugal, um crânio com cerca de 400 mil anos encontrado nas grutas do Almonda, vai ser exposto pela primeira vez no concelho de Torres Novas, em princípio durante este ano de 2022. A vereadora da cultura, Evira Sequeira, adiantou ao mediotejo.net que está a ser criado um núcleo de arqueologia no Museu Municipal que vai mostrar pela primeira vez ao público este achado, se possível no final do primeiro semestre.

“Neste momento estamos a criar um núcleo de arqueologia para albergar aquele que é património nacional, e também mundial, que é o crânio que descobrimos nas Grutas do Almonda, na Aroeira, com o professor João Zilhão”, referiu a responsável. 

“Vai ser exposto pela primeira vez em Torres Novas. Depois veremos onde ficará. E poderá itinerar até pela Europa, pelo mundo. Mas a exposição desse, que é também um tesouro, vai ser em Torres Novas. Para isso estamos a criar condições para ter um espaço digno para poder promover também aquilo que é absolutamente relevante em Torres Novas e em que tínhamos apenas um núcleo no museu”, referiu.

A ideia é inaugurar este núcleo arqueológico ainda no primeiro semestre do ano, mas Elvira Sequeira salientou que a pandemia está a criar incertezas quanto à abertura da exposição.

Uma equipa internacional de arqueólogos liderados pelo português João Zilhão anunciou em em 2017 ter descoberto na gruta da Aroeira, em Torres Novas, o fóssil humano mais antigo já encontrado em Portugal, um crânio com cerca de 400 mil anos.

“É o mais antigo fóssil encontrado em território português e um dos mais antigos da Europa”, disse João Zilhão na ocasião, tendo feito notar que nunca se tinha encontrado um fóssil humano da altura média do Pleistoceno, que cobre o período desde há 2,5 milhões de anos até há 11,5 mil anos, num local tão ocidental da Europa.

O arqueólogo indicou que o interesse deste fóssil é que está “muito bem datado e passa a ser padrão de referência para interpretação de outros fósseis bem completos mas com datação mais imprecisa”.

“Apresenta uma combinação de características morfológicas únicas que põem em causa a noção de que a variação, as diferenças entre fósseis desta época possam ser interpretadas como manifestação de várias espécies humanas diferentes”, afirmou.

Apesar de nesta altura coexistirem “populações muito diversas, mais diferentes do que qualquer população humana atual, nem por isso deixavam de pertencer a uma só espécie”, salientou João Zilhão.

Trata-se de um antepassado “a meio caminho entre o ‘homo erectus’, que apareceu em África há entre 1,5 e dois milhões de anos e os mais recentes, a que chamamos Neandertais na Europa e modernos em África”.

O local da descoberta “tem potencial, pelas condições geológicas, para ter vestígios de todas as épocas do último meio milhão de anos”.

Na gruta foram encontrados também restos de animais e ferramentas de pedra, como machados. São dados que dão aos cientistas informação sobre o ambiente e o clima da época, a par de restos de lareiras, carvão e pólenes.

O fóssil, recuperado em 2014, foi retirado do local incrustado num bloco único de sedimentos e levado para um centro de investigação em Madrid, Espanha, onde os especialistas o conseguiram separar ao cabo de dois anos de trabalho.

“O crânio da Aroeira é o fóssil humano mais antigo já encontrado em Portugal e partilha algumas características com outros fósseis deste período descobertos em Espanha, França e Itália”, afirmou o arqueólogo Ralf Quam, da universidade norte-americana de Binghamton.

Quam apontou a Península Ibérica como “uma região crucial para compreender a origem e a evolução dos ‘homens de Neandertal'”, referindo-se ao ramo da evolução humana que se extinguiu há cerca de 40.000 anos.

C/LUSA

Cláudia Gameiro

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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