É um dos momentos mais simbólicos da Festa dos Tabuleiros de Tomar. Nesta sexta-feira, 6 de abril, pelas 21h00, os habitantes que assim o decidam reúnem-se, como é tradição, no Salão Nobre dos Paços do Concelho para decidir, por votação de braço no ar, se há Festa dos Tabuleiros no próximo ano. Em caso afirmativo, passam à escolha do respetivo mordomo, quase sempre presente na sala. João Victal, mordomo das Festas de 2007, 2011 e 2015, já disse que não está disponível para continuar. Se o novo mordomo escolhido aceitar, são lançados foguetes para anunciar à população que haverá Festa em 2019. A festa de 2019 começa hoje.
É assim, com mais de um ano de antecedência, que se parte de imediato para o grandioso trabalho de preparação da Festa e que envolve várias vertentes, desde a construção de centenas de tabuleiros, a confeção das flores em papel ou a ornamentação das ruas com enfeites de papel criados pelos próprios moradores. Mas quem melhor para falar da Festa do que o Mordomo que passa a pasta?

Falar de João Manuel de Oliveira Victal, 57 anos, natural de São João Baptista, Tomar é falar da Festa dos Tabuleiros. Funcionário autárquico, foi em Tomar que estudou e viveu sempre. Participa na Festa dos Tabuleiros desde muito jovem, assistindo às Reuniões do povo desde meados do anos 80. Em 2019, faz 25 anos que entrei na Comissão Central. “Eram reuniões muito efusivas e tinham menos gente do que as de agora. O salão não estava cheio e sempre foi nestes moldes, de se lançar um nome para o ar. O mordomo tem que, por norma, estar presente na sala”, indica.
Quase a passar a pasta, o Mordomo das últimas três Festas recorda o convite que lhe foi feito em 1997 por Nini Ferreira, para acolher essa responsabilidade, que declinou nesse ano por achar que era jovem e inexperiente. Acabou por ocupar este lugar uma década depois. Foi no dia 3 de março de 2006, era presidente de Câmara António Paiva. “Fui à reunião e fui eu mesmo a disponibilizar-me para o cargo. As pessoas que estavam presentes bateram palmas e assim foi. Senti-me confiante mas também estava ciente da responsabilidade que me estava a cair nos ombros naquele dia”, confessa.
Aventuras com o sino na Torre da Igreja de São João Baptista
Histórias de bastidores tem tantas que o difícil é escolher uma. Recorda aquela vez em que, muito novo, se ofereceu para ajudar na Festa e coube-lhe logo a tarefa de maior responsabilidade: tocar o sino na Torre da Igreja de São João para orientar os pares que transportavam os Tabuleiros na Praça da República, afim de receberem a bênção. “O Mordomo, Sr. Luís Santos, mandou-me para a torre e antigamente os sinos eram ligados com arames. Estava por ali a jornalista da RTP e o operador de câmara e já os tinha avisado para terem cuidado. Eu já estava suficientemente nervoso com tamanha responsabilidade. Olhei lá para baixo e ainda faltava algum tempo para dar o primeiro toque. Não sei como é que a jornalista fez aquilo, enfia um pé no arame e o sino toca pela primeira vez. Levei as mãos à cabeça e olhei cá para baixo como que a dizer que não tive a culpa”, recorda a sorrir. Desceu a escadaria com receio do que ia ouvir mas o Mordomo apenas lhe disse que para a próxima iria correr melhor. Mas a história não a esquece por mais anos que viva.

Outra aventura inesquecível, já como Mordomo, foi em 2007, na Mata dos Sete Montes, de manhã quando chegaram ali e era só coelhos de volta dos tabuleiros. “Cheirava-lhes a pão fresco e andavam ali de volta dos tabuleiros. Tivemos que começar a por lá cães soltos durante a noite”, explica. Noutra ocasião, no Cortejo dos Rapazes, em 2011, os motoristas que iam buscar as bandas receberam uma hora de saída diferente daquela que nós tínhamos pedido. “Faltava uma hora para o cortejo e não tinha cá a Banda de Paialvo nem a da Pedreira. Liguei para a empresa e por acaso consegui falar com uma pessoa que estava a tomar café com o motorista que tinha o serviço. Faltava 20 minutos para os portões abrirem e a Guarda Republicana não os deixava passar. Lá fui eu a correr Estrada de Paialvo acima, a pé, chego lá acima e tive que puxar dos galões e dizer quem mandava ali era eu”, recorda.
Para João Victal, um mordomo deve ter “bom-senso, humildade e muita diplomacia”. sendo que a tarefa que tem em mãos, “não sendo um bicho de sete cabeças” acaba por ser relativamente fácil já que são muitos a ajudar na festa. “Tem que saber ouvir muito, calar algumas vezes e falar noutras. O mordomo é sempre o responsável pelas coisas boas e menos boas que acontecem. Tem que haver um grande espírito de entreajuda entre todos. A festa não se faz sozinha”, atesta.
A poucas horas de entregar a Festa, João Vital refere que o seu estado de espírito é de que entrega a festa em condições. “A Festa dos Tabuleiros não pode ser muito mexida. Só tenho a agradecer todo o apoio recebido. A festa é algo que só os tomarenses sentem. Viver a festa é uma vivência extraordinária”, refere. Quanto a conselhos, é muito prático:
“que o novo Mordomo tenha coragem para continuar com o legado que nos deixaram, sem ligar muito ao que circula à volta. Foi o que me disseram a mim. Não vai ser fácil, mas avancem e continuem porque a nossa festa não pode terminar de modo algum”.

Tomarenses falam sobre qualidades do futuro Mordomo
O mediotejo.net pretendeu ainda saber como é que os tomarenses estão a viver este primeiro momento da Festa. Rui Pompeu considera que a reunião do povo/ escolha do Mordomo é sempre “um momento tocante e que cria muita ansiedade, porque o povo do
Concelho de Tomar é chamado a prenunciar-se num acontecimento tão importante e que amam”. Para este tomarense o futuro Mordomo deve ter “humildade, seriedade e capacidade de diálogo”. A Festa significa muito para si. “Tem um significado muito especial e de muita emoção, porque faço parte da mesma (Comissão do Cortejo) há imensos anos e viver a Festa por dentro é qualquer coisa de maravilhoso”.

Para Rui Pompeu, a Festa dos Tabuleiros é a celebração mais importante do Concelho de Tomar, atrai milhares de forasteiros Nacionais e Estrangeiros levando o nome de Tomar aos quatro cantos do mundo. Obviamente que daí advém um maior interesse em visitar a Cidade Templária. Em Portugal é mesmo uma das maiores e mais antigas, sendo a Festa que atrai mais visitantes no País”. O tomarense considera, no entanto, que as saídas de coroas devem ser alvo de alguma reflexão. “A Festa dos Tabuleiros é mágica”, concluiu.
Já para José Paulo Marques, “as coisas já estão decididas ou quase” no momento em que se realiza esta Reunião do Povo, sendo que nela comparecem, sobretudo, os apoiantes do possível vencedor. Para este tomarense, o futuro Mordomo deve ser “afável, prestável, isento, ponderado mas firme”, refere, acrescentando que neste momento a festa tem pouca importância para si, dado que toda a envolvência está a tornar-se estranha. Reconhece, porém, que a cidade sai a ganhar com a Festa se esta for bem estruturada. “O comércio sai beneficiado. A entidade Camarária, se agir com postura e dignidade, levará o nome da cidade a mais gente mas não pode haver sem partidarismos”. De resto, para este tomarense, “a festa dos Tabuleiros é o que cada um quiser que seja. E deveria ser: o que todos querem que seja”.
