Castelo do Bode em fevereiro de 2022.. Foto: mediotejo.net

O tema da escassez de água na Albufeira de Castelo do Bode marcou a reunião de Câmara Municipal de Tomar de segunda-feira, com um munícipe a intervir no período de intervenção do público e a fazer um apelo: “não nos deixem ficar sem água”. Perante isto, a autarca Anabela Freitas afirmou ser seu entendimento que, perante os indicadores de seca, já deveriam as entidades responsáveis ter tomada medidas mais cedo. O mesmo crê que deveria ter acontecido com a suspensão de produção hidroelétrica na barragem de Castelo do Bode, que teme ter sido uma medida “tardia”. A preocupação prende-se com o aproximar da época de incêndios, cujo abastecimento é feito na albufeira. Como tal a Comissão Distrital de Proteção Civil vai reunir esta quarta-feira com a Agência Portuguesa do Ambiente para saber o que aí vem, que medidas podem ser tomadas e debater o futuro desta massa de água e grande ativo da região do Médio Tejo.

“Se toda a gente sabe que existem alterações climáticas, já deveria ter sido tomado há mais tempo um conjunto de medidas por parte das entidades responsáveis, no sentido de prever o que poderia acontecer”, disse a presidente da Câmara Municipal de Tomar, igualmente presidente da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil de Santarém.

Na sessão camarária do executivo municipal tomarense, Anabela Freitas relembrou que “na nossa zona existe um Plano Intermunicipal de Alterações Climáticas, teve que ser feito um estudo que incluiu a barragem de Castelo de Bode e que identifica os fenómenos que temos, provocados pelas alterações climáticas. No nosso caso, os incêndios, a seca e as cheias rápidas. Sabendo que no território já existe isto, mesmo com a Central do Pego a funcionar, já deveriam ter sido tomadas medidas em relação a esta questão”.

ÁUDIO | Anabela Freitas, presidente da CM Tomar:

A autarca crê que se não se pode “dissociar a questão da seca das alterações climáticas. Não são o único fator. A utilização intensiva de água de regas para determinado tipo de culturas também tem de ser analisada, em termos de agricultura, no sentido de encontrar soluções para diminuir a utilização da água”.

Referindo que “no final de dezembro e princípio de janeiro, a origem da energia era essencialmente das hidroelétricas”, a socialista advertiu que a medida de suspensão da produção de energia na barragem de Castelo do Bode pode já ter chegado tarde. “Se já se previa, porque se fala com o IPMA, que não iria haver chuva, a medida que foi tomada a semana passada deveria ter sido tomada há mais tempo. É o que eu acho”, declarou.

Por outro lado, deixou uma crítica pela falta de comunicação da tutela e entidades competentes aos autarcas, empresários e associações e organismos locais. “Não se pode continuar a intervir no território sem dar conhecimento aos atores do território. A barragem de Castelo de Bode e todas as outras barragens estiveram a turbinar e a produzir e ninguém nos disse rigorosamente nada”, adiantou.

Governo restringe uso de barragens para eletricidade e rega, entre elas duas no Zêzere: Castelo do Bode e Cabril. Foto: DR

Ainda assim, Anabela Freitas disse que esta situação levou a que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) passasse a reunir com as autarquias e Proteção Civil para dar conhecimento do que está previsto e discutir o que vai acontecer.

“A primeira reunião vai ocorrer quarta-feira, dia 9, com a Comissão Distrital de Proteção Civil, porque este problema vai colidir com o problema da época de incêndios. A APA acedeu ao convite para reunir”, justificou.

Segundo a edil, a APA “tem estado a enviar diariamente a monitorização da capacidade de armazenamento das barragens. No caso de Castelo de Bode, ainda não houve aumento da capacidade, ao contrário do que está a acontecer noutras barragens. Houve manutenção do nível”.

O problema reside na reserva da massa de água, que está a preocupar os autarcas quando à sua disponibilidade. “Aquilo que nos dizem também é que a reserva da massa de água está para dois anos. Mas se efetivamente se fizerem campanhas de sensibilização para a utilização racional da água, porque se não… esqueçam os dois anos, estará por muito menos tempo”, refere, temendo o pior.

Situação que agrava a preocupação com a reserva é o historial de incêndios florestais da região e do país, e o facto de a albufeira ser essencial para o abastecimento de meios aéreos e não só para combate. Este uso, fará diminuir a disponibilidade da massa de água.

“Irei confrontar a APA também com isto, porque a reserva estará por dois anos se não tivermos incêndios. Se existirem, o abastecimento é todo feito na albufeira de Castelo do Bode, e diminui claramente a reserva da massa de água para consumo humano”, reitera.

Foto: Joana Rita Santos/mediotejo.net

O tema surgiu a debate devido a preocupação demonstrada pelo cidadão tomarense Fernando Caldas Vieira, engenheiro e consultor no setor da energia. O municípe disse “estar em pânico com a possibilidade de vir a ter falta de água em casa e até eletricidade, sendo serviços básicos dos quais não se pode prescindir” e disse ainda que “estar preocupado não soluciona nada e que os municípios têm de passar à ação”.

O munícipe afirmou que “houve utilização intensiva da água da barragem para produção de eletricidade ainda sem haver caraterização hidrológica do ano que estava a começar” e disse também temer que “a tomada de medidas com a suspensão da utilização da barragem de Castelo de Bode para produzir eletricidade possa ter vindo tarde”.

ÁUDIO | Intervenção do tomarense Fernando Caldas Vieira na reunião de Câmara:

Fernando Caldas Vieira questionou se estão a ser consideradas medidas para a mitigação dos efeitos desta escassez, nomeadamente com sensibilização das populações para consumo mais racional de água em consumo doméstico, crendo “ser uma boa oportunidade para insistir no problema das fugas técnicas de água”.

Também questionou sobre “medidas mais incisivas como redução da produção na rede e se está preparado um plano de racionamento e abastecimento por autotanques”.

Apesar de considerar que “o encerramento das centrais de Sines e Pego não interferiram em nada nos fenómenos extremos das alterações climáticas, caso da seca”, terminou a intervenção com um apelo: “não nos deixem ficar sem água”.

Sobre o abastecimento de água a Tomar, a presidente da Câmara de Tomar disse que o subsistema da Mendacha está a funcionar e “não houve reversão total para o ponto de abastecimento no Castelo de Bode”, proveniente do sistema de abastecimento da EPAL, a partir do reservatório da Choromela.

ÁUDIO | Anabela Freitas, presidente da CM Tomar:

“O acordo que existe é que, passando Tomar a ser abastecido na totalidade pelo Castelo de Bode, a Mendacha fica sempre como reserva”, afirma.

Quanto à existência de um plano de abastecimento por autotanques, a edil referiu que já existe esse plano dado que algumas localidades, nos últimos anos, têm precisado de ser abastecidas por autotanques por questões de falta de pressão de água ou interrupção do abastecimento.

A ideia, agora, passa por criar um Plano Intermunicipal dessa índole, na Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, para que, por exemplo, não havendo capacidade de abastecimento em Tomar, se ir buscar a Ferreira do Zêzere.

Anabela Freitas, presidente da CM Tomar. Foto: mediotejo.net

“Também Abrantes, Sardoal e Mação são abastecidos numa captação própria na Albufeira de Castelo de Bode. Na prática, todo o Médio Tejo está neste «caldo» que pode ser ou não explosivo”, considerou.

Quanto a campanhas de sensibilização, a autarca deu conta de que a empresa Tejo Ambiente está preparar “uma campanha conjunta” para sensibilizar a população, e tem que coordenar com outras entidades com responsabilidade no abastecimento em baixa no Médio Tejo, caso dos SMAS de Abrantes e a Be Water em Ourém.

“Faço intenção de propor na reunião de quarta-feira, para que se faça mais do que esta questão de interromper a produção energética, que sim, é importante. Mas se não chover, vamos ter aqui um problema grave. Temos de começar a trabalhar e não pode envolver só a APA, tem que envolver outros Ministérios, nomeadamente da Agricultura porque temos algumas culturas que são grandes consumidoras de água”, terminou a autarca socialista.

Da parte da oposição do executivo camarário, o vereador Tiago Carrão (PSD) também quis tecer considerações sobre o tema da tema da escassez de água, nomeadamente na albufeira de Castelo do Bode, caracterizando como “prematuro” o encerramento da Central Termoelétrica do Pego, apontando como fator que também levou a este estado de coisas.

Central termoelétrica do Pego. Foto: mediotejo.net

“Não creio que seja coincidência. Obviamente que há outros fatores, mas não creio que seja coincidência, uma vez que como a senhora Presidente disse e bem, a partir de dezembro e janeiro verificou-se um aumento da produção de energia nas barragens hidroelétricas. O que aconteceu em novembro? O encerramento prematuro e com base apenas em ideologia da Central do Pego”, concluiu.

A presidente da Câmara, perante isto, disse “não ter como certo que haja relação direta entre o encerramento da Central do Pego e o aumento da produção de energia por via hidroelétrica, sendo que a central funcionava essencialmente para despachabilidade”.

Por outro lado, disse que “não se pode ter sol na eira e chuva no Nabão” e que se se quer uma descarbonização, tinha de se atuar, ainda que o Governo pudesse ter pedido adiamento.

Mencionando que a energia que se está a importar “vem de centrais a carvão em Espanha, que não cumpriram aquilo que se tinham comprometido em termos de encerramento”, mas que houve comprometimento do Governo português e que a palavra deve ser mantida.

Por outro lado, frisou, “a questão da energia ultrapassa claramente o que acontece apenas no nosso país”.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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