O tomarense Luís Mota foi o grande vencedor da 8ª edição do “Oh Meu Deus – Ultra Trail Serra da Estrela “, uma prova com 170 quilómetros e que decorreu entre os dias 8 e 10 de junho. Quisemos saber mais sobre este homem de 48 anos, professor de educação física, que representa o Casa do Benfica de Abrantes e que soma vitórias atrás de vitórias, resultado de anos de preparação física e treinos diários dos quais não abdica. Persistência, dedicação, humildade, disciplina, gratidão e trabalho são os ingredientes que fazem um campeão, como mostramos nesta entrevista que lhe fizemos após mais um treino de 50 quilómetros de bicicleta.
Na aldeia onde nasci, em Cem Soldos, havia o saudoso José Augusto Rodrigues (que infelizmente está desaparecido há alguns anos) e ele foi como que um pai para nós. Levava-nos no carro, organizava-nos e criou a equipa de atletismo em Cem Soldos… Muito devemos a este grande tomarense que nos educou e nos preparou para a vida. Saíram dali grandes profissionais e Tomar orgulha-se de, em vários setores, ter grandes atletas. A formação desportiva é muito importante.
Sim, antes dos dez anos. Na altura nem sapatilhas, nem fato de treino tínhamos. Lembro-me de nós irmos a correr de Cem Soldos para o Paço da Comenda e íamos com as antigas ceroulas para não termos frio. Não havia nada, apenas vontade e esforço. E uma alegria enorme de estarmos a correr. E foi assim que passei das distâncias mais curtas para as mais longas. Tinha esse objetivo e fiz uma primeira maratona e hoje já tenho mais de 50 de estrada. E ultra maratonas, que são provas de longa distância, já tenho cerca de 200.
Na altura havia um circuito das freguesias e a freguesia da Madalena também tinha uma prova nas várias aldeias da freguesia. Lembro-me que, no meu escalão éramos dez, e na primeira prova fiquei em último lugar. Depois na segunda, as coisas já estavam a correr melhor e estava em 9.º lugar. Vinha a descer nos Gaios para o Paço da Comenda e vinha todo o contente, de peito feito porque já não era o último mas quando cortei a meta notei que o décimo desistiu e fiquei em último outra vez (risos).
Foram muitos anos de trabalho. O sucesso que tenho hoje se calhar é a soma de 40 anos de treino. Muitas vezes não devemos ter pressa, não queimar etapas. É uma pena porque temos jovens com muito talento nas várias modalidades e os pais, familiares e treinadores querem que sejam logo vedetas e tiram-nos logo do clube da terra, fazem quilómetros e quilómetros, levam os filhos para longe…. Não tem que haver pressas. Só no dicionário é que a palavra sucesso vem antes de trabalho. Os pais têm que se consciencializar que não se devem queimar etapas.
É preciso muito disciplina. Eu quando vou para a cama já vou a pensar no meu dia seguinte todo. Durmo todos os dias com o meu saco pronto, ao lado da cama, para o treino. Eu trabalho a 80 quilómetros, no Cartaxo, e treino duas vezes ao dia. Tem que haver muita organização. Imagine fazer a viagem de ida e volta, trabalhar, treinar duas vezes ao dia e ainda ter tempo para a nossa vida. Quando se faz as coisas com gosto e sem pressas é uma grande alegria.
É uma paixão muito grande. Não ando à procura de prémios ou reconhecimento público. Andamos a viver cada dia de uma forma intensa e valiosa, junto de amigos e num ambiente de festa. O Desporto deve servir para unir, aproximar as pessoas. É assim que olho para o desporto. Se as coisas correrem bem ficamos contentes mas se não correrem bem não ficamos tristes porque corridas há muitas. A vida é feita de altos e baixos.
Sim e temos que ser fortes para saber dar a volta e vencer. Vencemos algumas vezes mas perdemos muitas mais. Devemos ter a coragem de não baixar os braços, de não desistir e de tirar sempre algo de positivo dessas experiências.
Sim, de cada prova tiramos muitas coisas boas. Ficamos fascinados com a forma como o nosso corpo reage. Morremos várias vezes e ressuscitamos na mesma prova. Por exemplo, nesta última prova de longa distância, na Serra da Estrela, foram 170 quilómetros em condições duríssimas. Estavam condições climatéricas adversas e aos 80 quilómetros o meu organismo já não aceitava comida. Tudo o que entrava saía. E ainda não estava a meio da prova. Pensei como iria completar a restante sem comer. Mas com muito esforço, reunindo as experiências anteriores, juntei todas as estratégias para conseguir chegar ao fim com sucesso.
Durante esta corrida, em 170 quilómetros, passam-lhe muitos pensamentos pela mente?
Sim. Podemos ter o corpo fraco mas se a nossa mente estiver forte conseguimos. É a cabeça que nos faz andar. Começamos a pensar em todas as pessoas que nos ajudam e quando terminamos a vitória é de todos. Foram 170 quilómetros, 22 horas a correr de dia e de noite. Dá para pensar (risos).
Temos que ter muito respeito pela montanha e, sobretudo, pelo nosso corpo. Temos o objetivo de terminar mas em primeiro lugar está a nossa saúde. Temos que manter sempre a nossa integridade física. A partir do momento em que comecei em dificuldades, comecei a gerir. Foi uma prova extremamente competitiva. Um atleta holandês tinha um staff de apoio na montanha – e ia mudando de meias e sapatilhas – e eu fiz todo o percurso com o mesmo equipamento. A certa altura as meias romperam-se e começaram a magoar-me mas não perdi um segundo e, sozinho, consegui dar a volta à questão. A certa altura, o holandês foi como que uma sombra. Tudo o que eu fazia ele imitava, foi muito desgastante. Os atletas com quem eu pensei lutar pelo primeiro lugar , ficaram a duas horas de mim. Por aqui se vê o ritmo. Já ganhei aquela prova com 160 quilómetros e em 26 horas. E agora fiz mais dez quilómetros em menos horas.
É o final de muito trabalho. A alegria interior é inexplicável. Tudo passou. Já não há mais dor, já não há mais sofrimento, cansaço ou fadiga, é impressionante como o nosso corpo faz um reset. Há uma descarga de adrenalina tal que ficamos como novos.
Tenho tido a sorte de ter uma família extraordinária. Era impensável fazer o que faço se não tivesse a ajuda da família e tenho uma rede extraordinária de amigos que me ajudam a treinar em qualquer lugar do país.
Já fiz provas em sítios onde jamais pensei ir, como o ultra-trail do Mont Blanc, onde percorri três países – França, Itália e Suíça. E são estas histórias que ficam para contar para os netos. Agradeço tudo o que tenho e aquilo que tenho em muito. É bom e é mais do que suficiente para fazer o que faço. Os meus patrocinadores têm sido fantásticos comigo. Tudo isto é fruto de muito trabalho, empenho e esforço, de não baixar os braços. Um atleta leva muitos anos a fazer-se. Como disse, quando comecei a correr fiquei em último. Se tivesse baixado os braços por causa disso, não teria chegado onde cheguei hoje.


