“Uma intensa aventura que consistiu em juntar as peças de um enorme puzzle, mas um puzzle pluridimensional com a gratificante satisfação de ir completando, gradualmente, cada um dos vários quadros que resultariam numa imagem final de um polígono de vários vértices”. Foi deste modo que Leonel Vicente, autor do livro “Mendes Godinho – Uma história de empreendimento empresarial familiar” descreveu o processo de realização desta obra, uma iniciativa da Associação Memorial Mendes Godinho.

O livro foi apresentado na manhã de domingo, 6 de maio, precisamente no Complexo da Levada, mais precisamente nas instalações onde funcionou a central eléctrica, a qual, na primeira metade do século XX, assegurou o fornecimento de energia eléctrica à cidade de Tomar, perante a presidente da Câmara de Tomar, convidados e antigos trabalhadores das Fábricas Mendes Godinho.

Ao longo de quase 540 páginas, a história desta indústria familiar divide-se em cinco partes principais: Manuel Mendes Godinho & Filhos; Casa Bancária Manuel Mendes Godinho & Filhos, Fábricas Mendes Godinho, SARL; TAGOL, companhia de Oleaginosas do Tejo, SARL e Nacionalização.

Livro foi escrito pelo tomarense Leonel Vicente (ao centro) e apresentado a 6 de maio Foto: mediotejo.net

Leonel Vicente, que vive em Lisboa desde 1974, contou aos presentes como surgiu a oportunidade de escrever esta obra.

“Quando no final de 2016, a Associação Mendes Godinho me dirigiu o convite para escrever um livro sobre a história da Mendes Godinho eu sabia que estava a ser colocado perante um vasto império empresarial com um leque muito diversificado e heterogéneo de atividades e uma enorme amplitude e abrangência”, disse, acrescentando que aceitou o desafio proposto porque o considerou muito aliciante.

“Era um desafio irrecusável, que estava obrigado a aceitar. Estava, ainda assim, longe de poder abarcar toda a importância de que o grupo se revestiu, ao longo de várias décadas, não só no panorama local e regional mas, sobretudo, no plano nacional.

Nos anos 80, a TAGOL (maior empresa privada de Portugal) fazia parte integrante do grupo Mendes Godinho e foi com grande entusiasmo que comecei a estudar, resumir e a tratar a informação que quase semanalmente o Sr. Carlos Mendes Godinho e o Dr. Manuel Mourão me faziam chegar, sempre com novas descobertas – e não apenas para mim – vindas do fundo dos seus arquivos pessoais”, referiu aos presentes.

Lançamento do livro foi presenciado por dezenas de tomarenses, entre os quais a presidente da Câmara de Tomar Foto: mediotejo.net

Leonel Vicente considerou ainda “muito gratificante” ter convivido, nos meses seguintes, e diariamente, com o patriarca Manuel Mendes Godinho e o seu neto, grande responsável pela dinamização do grupo, João Mendes Godinho Júnior.

Teve ainda contacto com as vertentes dos negócios muitos variados deste grupo empresarial tais como a moagem, o fornecimento de eletricidade, cerâmicas, fábricas de rações, fibras de madeira/platex, até à Casa Bancária.

“Vi desfilar os vários momentos desde as origens, criação, crescimento e apogeu deste império empresarial, a implementação da TAGOL e o projeto de navegabilidade do Tejo que acabou por não sair do papel”, evocou.

A história da Mendes Godinho é ainda marcada por várias geografias tais como Vale Florido, Valbom, Nazaré e Palença na margem do Tejo, junto a Lisboa. Leonel Vicente descreveu ainda o contacto que teve com os primeiros sintomas de crise e o período de declínio da Mendes Godinho.

Este declínio, de alguma forma, decorre do período de incerteza sobre a propriedade das empresas, que se seguiu à nacionalização da Casa Bancária (a qual era proprietária das empresas da área industrial), durante o qual terá estado em suspenso a tomada de decisões estratégicas a nível da gestão das sociedades.

“Foi um processo que começou em 1975 e que me fez embrenhar numa imensa panóplia de documentação jurídica, tais como decretos-lei, despachos, acórdãos, sentenças judiciais, pareceres ou decisões de recurso”, exemplificou.

Presidente da Câmara de Tomar, Anabela Freitas, recebeu uma ação simbólica das empresas Mendes Godinho Foto: mediotejo.net

O livro trata grandes áreas temáticas, organizadas em datas cronológicas, sendo que a primeira parte traça um perfil biográfico do fundador, Manuel Mendes Godinho, assim como das origens da constituição da atividade empresarial.

A segunda parte é apresentada a evolução histórica da Casa Bancária; a terceira parte reporta-se às fábricas Mendes Godinho, desde a fábrica de rações Sol às fábricas de fibras de madeiras; a quarta parte detalha sobre a Tagol, aquela que nos anos 80 era a maior empresa portuguesa em termos de faturação, e a quinta e última parte é dedicada ao processo de Nacionalização e todo o imbróglio associado ao contencioso com o estado português e o Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa.

Luís Moreira, diretor do Mestrado em Design Editorial do Instituto Politécnico de Tomar (IPT) – foram os alunos deste curso os responsáveis pelo design e paginação deste livro – agradeceu o convite e destacou a excelente relação com a Associação Mendes Godinho.

“Sempre que é possível gostamos de participar em projetos reais sendo que desafiei um grupo de alunos para fazer uma pré-maquete sendo que quem ganhou foi o André Freitas”, disse, acrescentando que é muito salutar a relação entre o IPT e a comunidade tomarense. A foto de capa é de João Flores.

A presidente da Câmara de Tomar, Anabela Freitas, disse o grupo Mendes Godinho tem uma reconhecida importância não só na cidade como no país.

“É nossa obrigação e dever  preservar o legado que o grupo Mendes Godinho deixou no nosso concelho. O trabalho que estamos a fazer em conjunto com a Associação Memorial Mendes Godinho é para continuar” assegurou, acrescentando que o espólio da Mendes Godinho é de todos.

Durante a sessão de lançamento desta obra foram entregues réplicas” dos títulos originais, que foram agora impressas, sendo que também Anabela Freitas recebeu esta oferta simbólica.

Elsa Ribeiro Gonçalves

Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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