Tomar celebra 400 anos da Feira de Santa Iria entre a tradição e a aposta na inovação. Foto: mediotejo.net

A Feira de Santa Iria abriu portas esta sexta-feira, 16 de outubro, em Tomar, numa edição especial que assinala quatro séculos de história e procura conciliar as tradições que atravessaram gerações com novas formas de animação e entretenimento. Até 25 de outubro, o certame volta a ocupar diferentes espaços da cidade, entre a zona do Mercado Municipal e a Várzea Grande, com comércio, gastronomia, artesanato, divertimentos e música.

Na inauguração, o presidente da Câmara Municipal de Tomar, Tiago Carrão, defendeu que a longevidade da feira depende da capacidade de preservar a sua identidade e, simultaneamente, acompanhar a evolução dos públicos e dos hábitos culturais.

“Procuramos aliar esta tradição à inovação”, afirmou o autarca, em declarações ao mediotejo.net, considerando que um evento com 400 anos de história tem de encontrar novas formas de se afirmar e atrair visitantes.

A edição comemorativa mantém a Feira das Passas, os vendedores e comerciantes, a gastronomia, os divertimentos e as celebrações religiosas em honra de Santa Iria, mas apresenta como principal novidade o Iria Music Fest, uma programação musical própria que inclui, pela primeira vez, concertos sujeitos a bilhete.

O cartaz reúne artistas e bandas nacionais como Padre Guilherme, Chico da Tina, Quinta do Bill, Ivandro, ÁTOA, GNR e Bárbara Tinoco, com espetáculos distribuídos ao longo dos dez dias.

Concertos pagos e sustentabilidade financeira

Para Tiago Carrão, a sustentabilidade financeira constitui um dos principais desafios da organização, sobretudo perante a ambição de apresentar uma programação cada vez mais diversificada e capaz de atrair públicos de diferentes gerações.

“Se queremos apresentar uma Feira de Santa Iria cada vez mais ambiciosa, também temos de procurar a sustentabilidade do evento”, afirmou, defendendo que os encargos não devem depender exclusivamente do orçamento municipal e, consequentemente, dos contribuintes.

A opção de cobrar entradas em parte dos concertos procura contribuir para esse equilíbrio financeiro, mantendo-se gratuito o acesso ao recinto geral da feira, aos espaços comerciais e de animação e a alguns espetáculos musicais.

O Iria Music Fest decorre numa tenda instalada na Várzea Grande, com bilhetes entre sete e dez euros nas noites pagas e um passe geral de 25 euros para os seis dias. A entrada é gratuita nos dias 18, 19, 20 e 25 de outubro, estando as crianças com menos de 12 anos isentas de pagamento.

Entre os momentos mais simbólicos está o concerto dos Quinta do Bill, banda tomarense que atua no dia 20 de outubro, Dia de Santa Iria, com entrada livre.

Momentos antes da inauguração, Tiago Carrão revelou que a venda antecipada de bilhetes já tinha gerado receitas de várias dezenas de milhares de euros, manifestando expectativa de forte adesão aos principais espetáculos, com possibilidade de lotação esgotada na tenda da Várzea Grande.

A aposta numa programação musical parcialmente paga representa uma alteração significativa face às edições anteriores e introduz uma nova componente no modelo de financiamento do certame.

Tiago Carrão, presidente da Câmara Municipal de Tomar. Foto: mediotejo.net
ÁUDIO | Autarca de Tomar em declarações ao mediotejo.net

Quatro séculos de comércio, tradições e encontros

A inauguração da edição comemorativa foi também marcada por uma evocação histórica conduzida pelo professor tomarense Carlos Trincão, que recordou a origem e a evolução das feiras e mercados de Tomar e o papel que desempenharam na vida económica e social da cidade.

A Feira de Santa Iria foi instituída por Carta Régia de Filipe III de Portugal, datada de 3 de outubro de 1626, na sequência de um pedido da Câmara da então vila de Tomar. A autorização permitiu a realização anual de uma feira por ocasião do dia dedicado à padroeira, substituindo um certame anteriormente associado a Santo André.

Numa época em que as feiras constituíam importantes centros de abastecimento e comércio, o evento reunia mercadores, artesãos e vendedores de diferentes produtos, atraindo populações de Tomar e das localidades vizinhas.

Carlos Trincão evocou a diversidade de profissões e atividades representadas no certame, desde vendedores de pão, frutos secos e produtos agrícolas a comerciantes de tecidos, sapateiros, oleiros, ourives e vendedores de ferramentas e alfaias.

A importância económica da feira refletia-se também na própria organização do espaço e nos valores cobrados aos comerciantes, que variavam consoante o tipo de atividade e a localização das bancas.

Segundo os registos históricos divulgados pelo município, em 1673 um mercador de panos podia pagar 300 réis pela ocupação do espaço, enquanto um taberneiro pagava 100 réis e os vendedores de fruta, hortaliça e melões 20 réis.

Ao longo dos séculos, a Feira de Santa Iria foi acompanhando as transformações da sociedade e dos hábitos de consumo. Com o desenvolvimento do comércio permanente, perdeu gradualmente parte da sua função original de abastecimento, mas manteve-se como espaço de encontro, convívio e preservação das tradições.

Durante grande parte do século XX, continuou a representar uma oportunidade importante para as populações adquirirem roupa, calçado, alimentos e instrumentos agrícolas, nomeadamente numa altura do ano associada à preparação para o inverno e à apanha da azeitona.

Com o passar do tempo, ganharam maior expressão os divertimentos, a gastronomia, as atividades culturais e os espetáculos musicais, que passaram a integrar a programação e a atrair novas gerações.

Feira das Passas mantém ligação às origens

Entre as tradições que resistiram às transformações do certame está a Feira das Passas, associada à comercialização de uvas secas e outros frutos de outono.

A sua origem está ligada à necessidade de escoamento dos produtos agrícolas numa época em que a sazonalidade determinava grande parte da atividade comercial. Apesar da diminuição do número de produtores ao longo dos anos, a Feira das Passas continua a constituir uma das marcas identitárias do evento.

A edição comemorativa procura preservar esta componente tradicional, integrando-a numa oferta mais ampla que inclui espaços de artesanato, comércio, gastronomia, tasquinhas, feira de velharias e antiguidades e diversões para diferentes idades.

Dia de Santa Iria continua a ser momento central

Apesar da crescente dimensão cultural e musical, a componente religiosa mantém um lugar central na programação, particularmente no dia 20 de outubro, dedicado à padroeira de Tomar.

As celebrações começam às 09h00, com uma missa de ação de graças na Igreja de Santa Maria dos Olivais, seguindo-se, às 10h00, a tradicional procissão pelas ruas da cidade.

Um dos momentos mais emblemáticos acontece na Ponte Velha, onde crianças das escolas do concelho lançam pétalas de flores ao rio Nabão, evocando a tradição associada ao martírio de Santa Iria.

O ritual, repetido ao longo de gerações, constitui uma das expressões mais reconhecidas da devoção da comunidade tomarense à sua padroeira e da ligação histórica entre a cidade, a feira e o rio.

Quatro séculos depois da sua criação, a Feira de Santa Iria mantém-se como um dos acontecimentos mais emblemáticos do calendário tomarense, procurando renovar-se sem perder a memória do comércio, das tradições e do convívio que marcaram a sua história.

A edição comemorativa prolonga-se até 25 de outubro, com a programação distribuída entre a zona do Mercado Municipal e a Várzea Grande, numa celebração que procura aproximar o passado e o presente de um certame que atravessou gerações.

Até 25 de outubro, a Feira de Santa Iria distribui-se entre a zona do Mercado Municipal e a Várzea Grande, com espaços dedicados ao comércio, à gastronomia, ao artesanato, aos divertimentos e à música.

A edição comemorativa pretende assinalar os 400 anos de um dos certames mais emblemáticos de Tomar, conciliando a memória histórica com novas formas de animação e envolvimento do público.

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Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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