Coro Misto da Canto Firme e o maestro e sócio fundador António de Sousa. Foto: DR

Corria a década de 80 e em Tomar nascia o orfeão dos orfeões. O único que vingou depois das muitas tentativas de agrupar homens e mulheres com apetite pela música, ou simplesmente com vontade de participar numa atividade de grupo, entretenimento para a sociedade. Lopes-Graça, ilustre compositor, maestro e musicólogo do século XX, não tinha fé que o coro sobrevivesse entre as arrelias das coralistas do sexo feminino e o desinteresse dos homens em fazer a sua parte no repertório de música essencialmente erudita. Eis que um texto seu, que retratava uma tentativa falhada de constituição de um orfeão nos anos 40, inspirou um jovem músico e recém-maestro a traçar o destino de um coro cuja firmeza no canto ainda hoje persiste. Em 1980, na sede da centenária Sociedade Banda Republicana Marcial Nabantina, nasceu pela mão do maestro António de Sousa o Coro Misto Canto Firme.

Encontramo-nos na sede da Associação Canto Firme, em Tomar. Edifício que não deixa enganar sobre o que ali se passa entre paredes, pelas notas musicais que escapam aqui e acolá, e na banda sonora dos dias entoam-se melodias ao piano, instrumentos de sopro ao desafio ou a exigência de um ensaio de canto.

Nasceu ali, em 2002, na Rua Dom Lopo Dias de Sousa, 8C, a sede de uma associação que é uma autêntica caixa de música. Onde todos são convidados a entrar e partilhar da mesma paixão e arte, independentemente da idade. Com alunos, professores, sócios e músicos que ali entram desde tenra idade e, se assim se proporcionar, podem ficar até aos cento e muitos anos. Ninguém lhes diz que não.

Depois de criado o coro, em 1980, por questões logísticas, nasce oficialmente a Associação Canto Firme de Tomar a 19 de Fevereiro de 1982. Reconhecida como entidade pública desde 1992 e Instituição Particular de Solidariedade Social desde maio de 2007, tem como objetivo semear e cultivar o gosto e a fruição cultural na região, mas também com provas dadas no país e no mundo. Ali se formam músicos, homens e mulheres, e cidadãos.

Tudo se deve ao fundador e sócio nº1, António Corvelo de Sousa, com quem nos sentamos numa salinha modesta entre a azáfama musical partilhada, com pratos a marcar compasso de um lado e piano a soar de outro piso. Com o afinar de instrumentos de sopro, onde se ouve a subtileza que podemos jurar ser de flauta transversal e ainda o filarmónico clarinete.

Aquecida a voz, lançamo-nos à conversa sobre uma vida dedicada à música e a um projeto-maior que prendeu a atenção do vulto musical tomarense que foi Fernando Lopes-Graça.

É pela vontade e maestria de António de Sousa, diretor artístico do coro, que tudo começa. Natural de Leomil, ali para os lados de Moimenta da Beira onde mantém casa para aconchego nas visitas às raízes, conta-nos que veio para Tomar com cerca de 5 anos.

O pai era advogado, e quando saiu da faculdade ficou por Tomar, onde tinha alguns colegas de profissão. A família chamou-o para o norte, com o argumento de que lá em cima não havia advogados. Lá regressou e passou alguns anos até nascer António de Sousa.

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Porém, detalha-nos, parece que o pai “se deu mal com a interioridade” e voltou para terras nabantinas, trazendo a família e o filho a tempo do jardim-escola.

António de Sousa frequenta o colégio em Tomar, até seguir caminho para a Universidade de Coimbra, onde frequentou a licenciatura de História.

“Mas entretanto vem a Guerra [Colonial] e tive de ir. Só fiz o conservatório depois de vir”, conta. À época havia apenas três grandes conservatórios, no Porto, Lisboa e Ponta Delgada, e todo o restante trabalho resultava do “ensino doméstico”.

António lembra de imediato a professora que teve em Tomar, que lhe dava aulas de piano, mas apenas com condição imposta pelo pai, “eu nunca iria a Lisboa fazer os exames”.

“Tinha aquela mentalidade que havia – e ainda há – de que é melhor ter uma «profissão decente» do que ser músico. Então ele dizia que eu podia tocar e tal, mas fazer exames não”, lembra.

Acaba por fazer os exames de conservatório após a morte do progenitor, já adulto e senhor da sua vida, e depois de frequência do mesmo em dois anos, seguiu Piano e Composição, na classe do Professor Mário de Sousa Santos, deixando a licenciatura em História para trás. “A coitada da minha mãe é que dizia, Ohh! Se o teu pai visse… Se o teu pai soubesse…”, suspira.

António de Sousa, quando veio da aldeia, não se adaptou logo à cidade. “Tinha ataques de fúria”, reconhece. E daqui surge a entrada da música na sua vida, num contexto caricato.

“Havia um piano que era da minha avó, era um traste velho que estava na sala. Quando vim para Tomar – contam as histórias de família – que me punham ao piano, abriam um livro e diziam para eu tocar. E eu fingia que estava a tocar, batia com as mãos e os dedos”, o que perturbava o pai.

“Sendo advogado, tinha o escritório em casa. E ouvia aquilo dia e noite. Até que decidiu que assim não podia continuar”, e logo providenciou que o filho tivesse ensino musical em casa, para que pudesse entoar melodias mais afinadas, e menos perturbadoras, ao piano.

De resto, nasceu a “paixão assolapada”, muito graças à sua professora de piano e pedagoga, Maria Ilda Barata.

Chegam os 17 anos, e vai “para a má vida”, virando-se para o rock e para o jazz; nessa altura o piano cai para segundo plano, meio esquecido. E nisto faz os exames em Lisboa e por ali fica.

António Luís Linhares Corvelo de Sousa é Luís Linhares, pianista e compositor da Filarmónica Fraude: a primeira banda de rock a gravar um LP em Portugal.

Dois anos depois, já artista de variedades muito conhecido, fez parte de grupos de música ligeira como “Filarmónica Fraude” [a primeira banda de rock a gravar um LP em Portugal], “Banda do Casaco” e “Pedra e Cal”. Nesta altura, sentiu necessidade de voltar a ter aulas de piano, e contactou de novo a sua professora tomarense. No currículo consta que chegou a ser pianista no Casino Estoril.

Tirou licenciatura em Ciências Musicais e mestrado em Musicologia Histórica pela Universidade Nova de Lisboa, onde apresentou tese sobre o compositor tomarense Fernando Lopes-Graça, um ícone e inspiração. Ficou sempre ligado à área da investigação, mas a certa altura saturou-se da vida na capital. E aqui começa a aventura.

Regressa a Tomar na década de 80. E é nesta altura que se torna sócio fundador e diretor artístico do Coro Misto da Canto Firme, desde a sua fundação, cargo que agrega com a de responsável científico pela Casa Memória Lopes-Graça, Professor de Formação Musical, História da Música e Coro na Escola de Música Canto Firme.

Adepto de uma vida calma e tranquila, depois da experiência da guerra do Ultramar, deixou o seu apartamento na cidade e deslocou-se para uma casa na periferia de Tomar. Há mais de 40 anos, concorreu para o Ciclo Preparatório, e nos primeiros anos percorreu as escolas da região, desde Tramagal, Chamusca, Ferreira do Zêzere… até que, finalmente, conseguiu vaga em Tomar. Onde até hoje permanece.

Todos os projetos em que se vê envolvido nascem a partir do ensino da música. Mas, na verdade, o coro misto não estava nos planos.

“O coro foi coisa que nunca me passou pela cabeça”, frisa, lembrando que Tomar teve um orfeão nos anos 30 que durou pouco mais de três anos e da experiência dos que o tinham integrado transmitiam-lhe as dificuldades e garantiam que todos se zangavam. Foi destas queixas que surgiram dúvidas e curiosidade. “Porque é que Tomar não tem um coro? Todas as terras têm um orfeão…”, teimou.

Para ajudar, um dia António Corvelo de Sousa leu um texto de Lopes-Graça, sobre tentativa de um coro que existiu nos anos 40 na cidade.

“Aquele texto mexeu comigo”

António de Sousa morava perto da Sociedade Nabantina, onde uns amigos mantinham um projeto cultural. Ia tocando piano e fazia umas músicas para o Grupo de teatro – que mais tarde originou o atual ‘Fatias de Cá’ – até que é convidado para dirigir um coro. O Coro.

“Na altura estava numa aldeia, aqui perto de Tomar, que é Seiça. Já tinha um coro com meia dúzia de pessoas [Grupo Coral de Seiça] e o horário dos ensaios era conforme o calendário agrícola. Se trabalhavam na terra até às nove horas, o ensaio era às onze. Se trabalhavam até às cinco da tarde, o ensaio era às seis”, algo que achava engraçado.

Acontece que o horário preenchido e as atividades que já tinha, quase o fizeram negar o convite. Mas logo, logo, se encontraram 50 pessoas interessadas em ingressar no novo coro de Tomar, premissa para que o maestro tomasse sequer a ideia como possibilidade. “Sem querer vi-me com um menino nas mãos… assim começou o coro, em 1980”, recorda.

Ainda se lembra do primeiro ensaio, a 4 de outubro de 1979, mas o primeiro concerto do Coro Misto foram os 25 minutos mais inesquecíveis da história deste grupo. Na sede da Nabantina, “com sala cheia”, o Coro Misto da Canto Firme atuou a 24 de janeiro de 1980. E ali começou uma bela aventura ao sabor das notas que se distribuíam em cada pauta musical.

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A evolução dá-se por “necessidade”, que começou a aparecer juntamente com as dores de crescimento. Os dois ensaios por semana começaram a incomodar, o barulho também, e surge uma Assembleia Geral da Sociedade Nabantina em que o Coro assume a sua independência e sai daquela coletividade.

O processo de fundação da Associação Canto Firme acontece “com naturalidade”, iniciando o percurso enquanto Escola de Música e servindo de casa para o Coro Misto da Canto Firme, havendo uma sede própria da associação.

Sempre foi misto, o que acaba por ter alguma piada e dar especial gozo ao maestro António Corvelo de Sousa. Encontrou-se certo dia com o professor que veio substituir, levando a conseguir vaga em Tomar, que lhe disse que o coro tinha os dias contados… por ter mulheres envolvidas.

“Um dia apanhou-me na rua e disse-me ‘Rapaz, estás feito! Nem penses que esse coro dura um ano que seja…’ E eu perguntei porquê. E ele disse ‘Tens lá mulheres… as mulheres é que dão cabo dos coros, começam a fazer intrigas, não sei quê…’. Na altura fiquei na dúvida, será, não será…”, ri-se. Mas a verdade é que, tendo só homens, “cantam de cinco em cinco minutos, e têm que ir beber um copo”, atira, com graça.

40 anos de memórias, histórias e outras coisas mais

No início do Coro Misto, na década de 80, diz o maestro que se gerou uma tensão interessante. Entrava a mulher e passado um mês o marido também participava, e vice-versa. “Houve uma família que chegou a ter no Coro três gerações, a avó, o filho, a neta”, garante. Tendência que hoje não se verifica.

Nos dias que correm, o coralista mais velho tem 82 anos e o mais novo tem 15 anos. Para manter entre 40 a 60 membros, o coro tem aproveitado os alunos da escola de música que se interessem pelo canto. Uma triagem que é já diferente, porque houve uma época em que “a miudagem vinha para o coro porque era a grande hipótese de sair de casa”. Hoje, um aluno do 10º ano já entra no grupo por gosto e capacidade.

A entrada em coros é “universal”, tendo por base a mudança de voz nos rapazes, que varia de caso em caso. Já com as raparigas, normalmente a partir dos 14 anos já ingressam sem qualquer problema.

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Por outro lado, perguntamos a António de Sousa sobre o que é preciso para ser um bom coralista, ao que responde de imediato que passa por “cumprir e compreender a lógica. É óbvio que a maior parte das pessoas que vêm para o coro não têm cultura musical, acabam por vir pelo convívio. Neste coro há duas regras/ideias de princípio: só quem não der «duas para a caixa» é que não fica; e deve cumprir-se a disciplina, nomeadamente frequentar os dois ensaios por semana”, sublinha.

“Em 40 anos deve haver três ou quatro casos de pessoas a quem eu disse que era melhor dedicar-se à pesca, que aqui não dá. Há dez coralistas que se mantêm desde há 40 anos, caso do senhor de 82 anos, a mulher, e uns tantos assim”, diz, asseverando que já devem ter passado pelo coro perto de 400 pessoas.

As mais recentes gerações funcionam de outro modo. Os mais novos aguentam-se cerca de 3 a 4 anos no grupo, à exceção dos que são músicos e fazem por continuar a vir, nem que seja uma vez por semana.

Maestro de coros desde 1975, António de Sousa diz ter prosseguido com o estudo de regência coral porque teve referências positivas, caso do “grande mestre” Lopes-Graça. “Era a pessoa mais encantadora, ia para os copos com os coralistas, não os deixava tratarem-no por maestro… Mas quando chegavam ao ensaio… O primeiro ensaio que vi, epá… fiquei boquiaberto”, recorda, saudoso.

Talvez por isso admita as suas semelhanças ao compositor nabantino. “Criei a minha maneira de estar, que é muito mais idêntica à do Lopes-Graça. Eu digo as minhas piadas com eles, brinco, mas quando perco a cabeça… vai tudo à minha frente! De vez em quando chego a casa e penso, ‘hoje fui bruto demais, não devia ter sido’… Mas por outro lado é muito telúrico: tenho paixão por aquilo que faço, e só vejo notas musicais. Quando estou a fazer música, não vejo mais nada”, indica.

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Costuma dizer que os coralistas são “as teclas do seu instrumento”, e nem dá pelas horas passarem durante o ensaio. Agora anda de relógio para que não exceda mais que duas horas “porque a cantar não se aguenta muito mais. Têm dez minutos intervalo. De resto é para levar à séria”.

A sua “malta”, antes da pandemia de covid-19, costumava estar pelos corredores meia hora antes “para a galhofa e como costumamos dizer, a dizer mal do Governo”, considerando-se que o convívio “faz parte e é fundamental”. Tudo isto é importante para criar uma boa relação e trabalhar para a média de duas dezenas de concertos por ano, quer na região e no país, quer pelo mundo fora.

“O Coro Misto da Canto Firme distingue-se pela defesa da boa música portuguesa”

“Nos dias de hoje, quando cantamos com outros coros, metade das vezes só nós cantamos música portuguesa”, diz António de Sousa, referindo que têm obras oferecidas por grandes compositores como Eurico Carrapatoso, Fernando Lopes-Graça e Luís Freitas Branco.

No início a aposta virava-se para a música renascentista, porque as pessoas “não tinham cultura musical”. E nisto lembra-se da sua passagem pelo Chorus Auris, em Ourém, quando em certo ensaio uma das senhoras do coro disse que ia para casa, porque não estava para cantar “estrangeirices”.

“A música antiga era mais fácil em termos tonais, percebia-se melhor, e eram atuações mais curtas. A pouco e pouco, começou a ligar-se à música contemporânea, avant-garde. Hoje em dia a minha preocupação é ter repertório essencialmente coral, para coro misto”, detalha.

Entre as preferidas composições ou atuações, distinguem-se “umas porque foi muito difícil ensaiar, e quando se chega ao cume, fica tudo em grande êxtase” ou porque na apresentação ao público se notou comoção por parte do público.

Logo saca de uma memória que lhe traz um brilhozinho aos olhos, a notar-se por trás dos óculos que ajeita enquanto se ordena os pormenores e nos transporta para a Hungria.

O Coro Misto viajou, ia ter um concerto na Floresta Negra daquele país. “Passámos o dia lá, na floresta e numa aldeia. Tinha umas casinhas com umas quintinhas. Almoçámos lá, e à noite vieram indicar-nos onde íamos cantar. Disseram que íamos cantar à frente de uma casota onde se guardava utensílios. Fazia um anfiteatro no meio das árvores”, conta.

“De repente, depois de estranharmos ainda não haver público nenhum, começámos a ver pessoas a chegarem de bicicleta. Dezenas de pessoas que vinham da aldeia. Chegavam, pousavam a bicicleta e sentavam-se no chão a olhar para nós”, prossegue.

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Num ambiente místico, o maestro tinha preparado o repertório que incluiria só música portuguesa e húngara, porque curiosamente uma das coralistas da Canto Firme na altura era de nacionalidade húngara. “Levámos música e pronúncia trabalhadas”, garante. Cantaram a famosa música Esti Dal.

“Quando começamos a cantar, começo a ver pessoas do coro a chorar, outros muito vermelhos… e eu fiquei intrigado com o que estaria a acontecer. Quando acaba a música, a maioria das pessoas que estavam sentadas no chão, a ver, chorava também. Depois a presidente da Junta de lá explicou-me que não estavam habituados a ouvir música húngara cantada por estrangeiros. Normalmente traduziam para inglês, e cantavam”, recorda.

Para quem lá esteve “não há outra música que bata aquele momento”.

Outras ficaram na história, mas não por tão belos motivos. Caso de uma obra de Lopes-Graça, a 16 vozes, que era o “Avisamento”. “São as Cartas de Ceuta de Camões. Demorou um ano inteiro para ensaiar, nem concertos tivemos”, explica.

“Se largar o coro aos 80 anos, de certeza que continuo a fazer música”

Já lá vão 40 anos de dedicação ao “menino que lhe caiu no colo”. Facto consumado quando a certa altura Lopes-Graça, maestro e compositor, começou a levar a sério o Coro Misto tomarense.

Mas para que isso acontecesse, António de Sousa escreveu a Lopes-Graça para convidar para um Encontro de Coros, dando conta que cantavam três músicas suas. O concerto era na aldeia de Carril.

“Ele responde que não tinha meios nem idade para vir para o hotel em Tomar, nem para ir e vir no mesmo dia. E se eu lhe arranjasse guarida, ele «cá botaria»”, lembra.

No dia do concerto, Lopes-Graça atrasou-se e o concerto foi-se atrasando também, aguardando a sua chegada. Quando o compositor chegou só restavam dez pessoas a assistir.

Lopes-Graça subiu ao palco, depois de uma música, e começa a gerir o coro. “Ele vira-se para mim e diz que «esta gente não sabe música, rapaz, portanto escusas de estar a marcar compasso, eles precisam é de perceber a frase»”, momento que representou o reconhecimento de uma referência, a bênção que faltava. E não mais se largaram.

“Ele vinha aos ensaios, e os últimos anos de vida teve uma ligação muito próxima com o Coro Misto. Ele acompanhou o coro até morrer, nos anos 90. Dedicou-nos 5 horas, e aquele momento em que nos conhecemos foi marcante”, garante António de Sousa.

Hoje com 70 anos, o maestro já pensa em passar a pasta. “Este coro fez muito músico. Agora era preciso que este coro começasse a ter músicos feitos. Porque é um fim de um ciclo”, adverte.

“Começámos com dois lemas «para que Tomar possa cantar» e o outro «porque é bom estar entre amigos». Na verdade, até temos um médico que veio de Vila Nova de Gaia e chegou cá com conhecimento de que existia o Coro Canto Firme. Epá, isto é a prova de que Tomar já canta!”, exclama, visivelmente orgulhoso.

O futuro e continuidade passa por dar o passo seguinte, que é a chamada sociedade coral. Ao estilo de uma do Porto, o Círculo Portuense de Ópera. “Eram amadores e contavam com poucos profissionais. Todos ensaiavam e faziam a ópera, em cinco ou seis espetáculos. E tinha uma qualidade muito grande. Porque todo o músico feito como não tem ópera em lado nenhum, aproveitava o CPO. Este tipo de organização faz público de concertos, e faz divulgação de música erudita”, determina.

Em Tomar, há capacidade para tal. “A verdade é que somos tantos, que já esperamos que haja cinco ou seis que não vão. Não cabem na camioneta se forem todos e tem de se levar carros ou carrinhas”, ri-se.

O Maestro António de Sousa também tem os momentos de desânimo quando algum ensaio corre menos bem, e lá deixa escapar a dúvida se ao fim de uns meses haverá coro. O certo é que não há perigo de extinção, por haver pessoas capazes e preparadas, ainda que em número mais reduzido.

A verdade é que nem o maestro sabe ainda muito bem como pôr o cargo à disposição, nem nenhum coralista ou músico se chega à frente por não querer substituir o mestre fundador.

“Eu já percebi que enquanto eu cá estiver, ninguém se atreve. Mesmo eu pedindo para conduzirem o coro, eles não aceitam por mais que os empurre. Terei de anunciar com antecedência e pirar-me. Mas depois de 40 anos aqui, sem nunca ter saído ou ameaçado sair, não vou sendo capaz de deixar o coro. É um círculo vicioso”, admite, entrando no dilema da sua vida.

Ainda dá aulas e trabalha num projeto de investigação de cinco anos, mas teme que o tempo já não lhe dê para tudo.

Fundou outros coros, nomeadamente na Frazoeira e em Alvaiázere, no total quatro coros na região contam com o seu cunho, e normalmente a primeira resposta é sempre “Não”. Mas o envolvimento e o compromisso para com a música e os que comungam da mesma paixão por fazê-la fala sempre mais alto.

São muitas vivências e a segurança que 40 anos dão. É a experiência de uma vida que permite saber como continuar a surpreender o público.

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O maestro não tem dúvidas que é muito mais fácil agradar lá fora. “O velho problema de que não se fala: as barreiras entre estilos musicais estão a cair. E antigamente falávamos em música erudita, o jazz, a música ligeira e o folclore. Eram gavetas. Agora é tudo muito confuso…”, o que facilita o poder de surpreender, mas dificulta a manutenção de uma linha de qualidade.

“Eu costumo preparar algumas surpresas, arranjos diferentes, e muitas vezes o coro fica a pensar que raio estou eu a fazer. Mas é como digo, comigo é assim. Quem vier depois, que feche a porta”, afirma, certeiro.

“Percebo que a música em Portugal está numa fase terrível. Vai ter que cair para algum lado. Eu mantenho-me muito fiel ao meu percurso, porque já não tenho muito futuro”

Diz que a sua escola é outra, e que  tanto faz estarem cinco ou 500 pessoas a assistir. “Se faço a música que quero, como quero, desde que me dê gozo, tudo bem. Eu estar a empenhar-me em coisas em que não acredito? Não. E é perigoso. Há muita coisa hoje em dia que vai ser passageira. Antes havia duas escolas: ou um tipo se fazia a nível do público, ou trabalhava para que a pouco e pouco o público chegasse lá”, reconhece.

Lembra os anos 60 e o “Em Órbita”, que permitia ouvir as músicas que saíam em Londres naquele dia, ao final da tarde, às 19h, a quem na altura tinha rádios com FM. “E andávamos de casa em casa para ouvir aquele programa como se fosse um concerto. Era tudo feito com estilo e classe”, e aprendia-se uns com os outros e a fluir. A internet veio estragar essa magia, com “os putos a chegar de telemóvel na mão e aceder às partituras e a toda a informação. E é nesta altura que os aviso que lhes como o telemóvel se não o guardarem”, atira, rindo-se da ameaça.

Agora, por mais que se tenha acesso a tudo, “em termos de estrutura de vida musical, era suposto termos 10 orquestras regulares, temos duas. Era suposto termos cursos de produção, de afinadores, aquilo que em termos musicais é suporte… não temos nada. E continuamos a fazer músicos como salsichas, e metade deles vêm sem consciência nenhuma. Comem o que lhe dão e dão a comer aquilo que lhe deram”, lamenta, afiançando que “o sistema cresceu muito, melhorou muito, mas está numa fase muito confusa”.

Tão confusa que o maestro diz que em Portugal se sente “um bocado elefante numa loja de porcelana”.

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Ainda assim, não se identificando com o panorama musical da atualidade, será fácil fechar a porta após tantos anos dedicados a este coro?

“Aos 80 fecho de certeza absoluta”, insiste, como que a convencer-se a si próprio uma vez mais e em voz alta, para imediatamente depois dar a entender que não vive sem isso.

Tão certo como Lopes-Graça passar os seus últimos anos de vida a acompanhar o Coro Misto, António de Sousa deverá continuar por ali enquanto a saúde, mas essencialmente a vontade, o permitir.

“Eu acho que sobrevivo ainda pelo coro, é uma terapia como outra qualquer”, suspira, encolhendo os ombros e acenando com a cabeça.

O coro sobrevive consigo, passando a incluir na sua história um interregno inédito que marca os 40 anos de existência. Viu a sua atividade ser interrompida pela pandemia de covid-19.

O Coro Misto tinha programadas atividades e concertos para comemoração de mais uma aniversário, sendo que se estenderiam até janeiro de 2021. A pandemia veio não só impedir a realização dos eventos, como afastar pela primeira vez os coralistas dos ensaios durante meses.

No final de setembro de 2020, o Coro retomou os ensaios, numa realidade nunca antes vivida em 40 anos. A voz deixou de ser o único instrumento comum, para passar a partilhar esse lugar com a viseira.

Hoje em dia, e após programação dos ensaios e medidas de contingência com a DGS, o coro continua a ensaiar no Auditório Lopes-Graça, de 250 lugares, na sede da Associação Canto Firme. O ensaio é sempre feito com viseira e espaçamento entre os elementos. Há ainda um circuito definido, para entrada e saída do auditório e da sede, impedindo o cruzamento entre coralistas antes e após o ensaio.

As atividades e concertos foram suspensos, aguardando dias melhores. Ficam adiados até que volte a ser permitido fazer-se a festa e celebrar a música, a fazer lembrar como “é bom estar entre amigos”, sendo a homenagem a Lopes-Graça, este fim de semana, um bom pretexto para um brinde cultural em Tomar e estando previsto o Coro Misto da Canto Firme fechar a evocação dos 115 anos do seu nascimento, no domingo, num concerto especial.

Os 115 anos do nascimento de Fernando Lopes-Graça, compositor, maestro, pianista e musicólogo tomarense, vão ser assinalados com dois concertos dedicados à sua vida e obra, e com o lançamento de um livro sobre a sua juventude em Tomar e as influências e movimentações que contribuíram para a sua formação e início da atividade musical, tendo iniciado jovem a aprendizagem ao piano e tendo dado o seu primeiro concerto no Cine-Teatro Paraíso. Esta figura emblemática será assim lembrada e evocada, de 17 a 19 de dezembro.

* Publicado em 2020, republicado em dezembro de 2021

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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