Numa altura em que estamos a entrar numa época em que a hipocrisia vai começar a reinar e onde os valores brilharão sem realmente se sentirem, aproveito este espaço para recuperar um texto que escrevi há alguns anos, porque hoje, ele é ainda mais “verdadeiro” do que era quando foi originalmente escrito e porque no fundo, ele acaba por retratar de forma mais genuína os verdadeiros valores da época que se aproxima.
A vida é feita de escolhas e de decisões. Há escolhas simples que dispensam qualquer tipo de reflexão mas há outras que são bastante complexas e que podem abanar os pilares de tudo o que foi construído anteriormente.
Estas exigem coragem para sairmos do comodismo da nossa zona de conforto e para enfrentarmos um futuro vazio cheio de incertezas.
Apesar de sentirmos que esse futuro incerto é preferível a um presente que não nos preenche e onde não nos sentimos realizados, seria hipócrita se afirmasse que a decisão é tomada com bases racionais e com a certeza de que é assim que tem que ser para que tudo volte a encaixar e a fazer sentido.
Este processo de reconstrução leva o seu tempo e em diversos momentos faz-nos duvidar do acerto da nossa decisão. Podemos mesmo chegar a pensar que desejámos mais do que precisávamos e que esse excesso de ambição traiu a nossa clarividência e quanto mais prolongado for esse processo de transição, maior vai sendo a nossa angústia e as nossas incertezas!
Até que finalmente, quando a reconstrução tem um final feliz, as dúvidas dão lugar às certezas e percebemos que estávamos certos na nossa inquietação e no nosso desejo de recomeçar. E não há certeza maior do acerto dessa decisão do que olharmos para o presente e concluirmos que com menos temos muito mais.
A certeza ganha maior dimensão quando percebemos que estamos diferentes e que as nossas ambições transitaram da esfera do material para a esfera dos afetos e quando percebemos que o tamanho da casa deixou de ser importante porque deixou de ser relevante onde estamos e o que realmente importa é com quem estamos.
Sentirmos que temos mais com menos é, em resumo, a confirmação de que vale a pena mudar, recomeçar e reconstruir.
E como até prova em contrário só temos esta vida para viver, não desperdicemos a oportunidade de a viver como ela merece ser vivida com a consciência tranquila de que não há crescimento sem dor nem conquista sem perda.
