Tempestade expõe fragilidades e UF Abrantes reage com solidariedade e plano de prevenção local. Foto: DR

A passagem da tempestade Kristin pela União de Freguesias de Abrantes e Alferrarede deixou centenas de árvores caídas, estradas obstruídas e vários danos materiais, mas também mobilizou a população numa forte onda de solidariedade e levou a Junta a avançar com medidas de prevenção, como a criação de um banco de telhas e a preparar a aquisição de geradores para responder a futuras ocorrências. Segundo o presidente da União de Freguesias, João Marques, não há registo de feridos nem de pessoas desalojadas.

Para além dos trabalhos de limpeza e recuperação, a União de Freguesias de Abrantes e Alferrarede, presidida por João Marques, tem coordenado uma campanha de recolha de bens para apoiar as populações afetadas no distrito de Leiria, nomeadamente de alimentos não perecíveis e de artigos de higiene pessoal.

Paralelamente, a autarquia lançou o “Banco de Telhas”, um projeto destinado a armazenar telhas e, futuramente, geradores e lonas, garantindo que a comunidade estará mais preparada para enfrentar eventuais ocorrências no futuro.

Desde a noite em que a depressão atingiu a região, a Junta de Freguesia tem vindo a responder a múltiplas ocorrências, sobretudo relacionadas com a queda de árvores e derrocadas. Em declarações ao mediotejo.net, na tarde desta segunda-feira, o presidente da União de Freguesias explicou que a maioria das vias já foi desobstruída, embora continuem a verificar-se situações críticas no território e “bastante trabalho pela frente” ao nível da recuperação e da monitorização das zonas mais vulneráveis.

Uma das ocorrências mais recentes aconteceu na noite de domingo, em Alferrarede-Velha, na Rua das Covas da Raposa, onde um telhado cedeu. “Prontamente nos deslocámos ao local”, explicou o autarca, referindo que a situação foi acompanhada em articulação com a Proteção Civil.

As pessoas afetadas não necessitaram de realojamento, ficando a viver num anexo da habitação, e esta segunda-feira já se encontrava no local uma equipa a proceder à colocação de lonas, em coordenação com o município e a Proteção Civil.

Foto: U.F. Abrantes e Alferrarede

Desde a noite da tempestade, registaram-se também várias derrocadas. Ainda esta segunda-feira, a estrada de acesso ao Outeiro de São Pedro esteve completamente obstruída, situação que já foi resolvida, tal como na Calçada de São José. Mantêm-se, no entanto, problemas crónicos em zonas como a Avenida António Farinha Pereira e na zona do Espinhaço de Cão, onde o talude continua a ceder.

Nestes casos, explicou João Marques, a Junta informa a Infraestruturas de Portugal e, quando se trata de situações menores, procede à reposição com meios próprios.

A Junta de Freguesia encontra-se também a monitorizar o caudal do Tejo, em articulação com a Proteção Civil, mantendo contacto permanente com moradores em zonas consideradas críticas, como a Fonte Quente, onde circulam pessoas e animais junto à ribeira.

“É uma forma de monitorizarmos e também de as descansarmos”, referiu o presidente, sublinhando que a Junta está “sempre em cima da situação”. Nas Barreiras do Tejo também o contacto com os moradores é regular, com o autarca a assegurar que podem pedir apoio a qualquer hora.

Persistem ainda algumas falhas pontuais de energia elétrica e muitas pessoas continuam sem telecomunicações, uma situação que, segundo João Marques, poderá demorar a ser resolvida. A rede viária encontra-se bastante degradada, tanto nos caminhos de terra batida como nas vias pavimentadas, sendo expectável que a recuperação “leve bastante tempo”.

Apesar dos danos, o presidente destacou que não há registo de feridos nem de desalojados. Entre as situações mais preocupantes está a da Ribeira da Abrançalha de Cima, na zona da Senhora da Luz, onde a água “comeu bastante terra” às hortas, e uma situação ainda mais grave nas Sentieiras, que já tinha sido afetada pela depressão Cláudia e que agora viu o seu agravamento.

O município já colocou uma máquina no local para tentar segurar o talude da estrada e repor alguma segurança, embora seja necessária, no futuro, “uma obra de bastante monta”.

João Marques, presidente da União de Freguesias de Abrantes e Alferrarede. Foto: mediotejo.net

A experiência com a tempestade Kristin levou a autarquia a repensar a alocação de recursos. “Futuramente, uma fatia do nosso orçamento terá de ser sempre destinada a este tipo de situações. A prevenção é o maior ensinamento que retiramos”, afirmou João Marques, acrescentando que esta reorganização das prioridades poderá implicar o adiamento de algumas obras menos urgentes, mas permitirá garantir meios para responder rapidamente a catástrofes e proteger a população.

No que diz respeito às necessidades da população, o presidente referiu que não há, neste momento, pedidos de bens essenciais, mas há uma procura significativa por materiais de construção, sobretudo telhas. Foi nesse contexto que a Junta lançou a campanha do Banco de Telhas, uma iniciativa pensada não apenas para a resposta imediata, mas também para o futuro.

“Vamos ficar com um banco permanente de telhas no nosso estaleiro”, explicou, acrescentando que qualquer pessoa pode doar e que o material ficará disponível para quem precisar.

A iniciativa poderá evoluir para um banco mais alargado, em articulação com outras juntas de freguesia, incluindo não só telhas, mas também geradores e lonas. O objetivo é preparar o território para futuras ocorrências e responder de forma mais eficaz a fenómenos extremos.

“Este tipo de catástrofe vem-nos ensinar que a prevenção tem que ser feita de uma forma diferente”, afirmou o autarca, reconhecendo que estes fenómenos colocam desafios de “outra dimensão” e exigem novas prioridades.

Nesse sentido, está também a ser pensada uma rede de apoio às associações locais, dotando-as de geradores e outros equipamentos, bem como a criação de kits com depósitos de água e motobombas, sobretudo para as áreas mais rurais.

A ideia é permitir uma resposta imediata por parte da própria população, reforçando o princípio de que “a Proteção Civil somos todos nós”, explica João Marques.

Paralelamente, tem-se registado uma forte onda de solidariedade. A Junta está a recolher bens para apoiar as populações afetadas no distrito de Leiria, em articulação com a Cáritas de Leiria. Apesar de mensagens iniciais, partilhadas nas redes sociais, a indicar que já não seriam necessários donativos, o presidente esclareceu que, após contacto direto, foi confirmada a necessidade de bens de primeira necessidade, dada a dimensão da população afetada.

Entre os produtos pedidos estão bens alimentares não perecíveis, como arroz, massa, farinha, enlatados, leite, bem como leite em pó, toalhitas e produtos de higiene. A recolha está a decorrer nos três polos da Junta – na sede, em Alferrarede e em São João – estando também assegurada a recolha ao domicílio para quem tenha dificuldades em deslocar-se.

Várias empresas da freguesia e do concelho têm igualmente disponibilizado transporte e materiais, levando-os diretamente para Leiria e Marinha Grande.

O presidente deixou ainda um apelo à segurança da população. “Na dúvida, não podemos arriscar. Temos que agir em segurança. Primeiro estão sempre as pessoas.”

João Marques apelou à calma e à responsabilidade dos moradores, lembrando que, apesar do impacto da tempestade, a população tem reagido de forma solidária e organizada.

“O nosso lema é ‘Juntos somos mais fortes’. A população já demonstrou e continua a demonstrar todos os dias que, quando é necessário, está unida e pronta a ajudar”, concluiu.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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