A “arte” em Portugal está mesmo a separar-se completamente. Uma, é a arte que o povo gosta, que inúmeros artistas recriam e desenvolvem com carinho e destemor, outra é a “Arte Institucional”. A arte que só alguns, poucos, muito poucos, gostam. Mas que “é fina”. Neste caso refiro-me à “Suspensão”, uma ideia pirosa e sem jeito da sempre presente Joana de Vasconcelos. A peça é feita de contas brancas, tem 26 metros e vai ser iluminada pela primeira vez na noite de 12 de Maio, quando o Papa Francisco entrar no santuário de Fátima.
Apesar de achar uma ideia muito pouco artística, que só pode estar em tom com aquela enorme catedral, aquele esquelético Cristo ferrugento e os volumosos montantes recebidos, não sei como se pode chamar escultura ou obra de arte, a uma “coisa destas”.
Mas lembro também que já existe uma “escultura” similar, um outro terço suspenso, criado em 1998 por Osmar Sales, um médico de 61 anos e cuja nova versão foi inaugurada a 5 de Abril em Vila Velha, no Estado brasileiro de Espírito Santo.
Naturalmente surgiram imediatamente acusações de plágio, que a artista portuguesa rebate com estas subtis palavras
“Há símbolos que são símbolos de todas as pessoas, como carros, sapatos, e que são tratados por vários artistas. As pessoas trabalham os símbolos conforme a sua perspectiva e conforme a sua maneira de ser. Os símbolos não são de ninguém”, argumenta Joana Vasconcelos, em declarações ao PÚBLICO, acrescentando que “símbolos incríveis como o terço são de uma cultura, são das pessoas em geral”.
E é aqui que a quero apanhar, o terço não é um símbolo católico, lembro que Muçulmanos, Hindus e Budista têm também “terços” para relembrar as repetitivas litânias do culto a que pertencem. Por esta razão também falhou o alvo.
Mais ainda é ofensiva porque diz, em relação à outra obra: ”Não é uma coisa pendurada entre duas palmeiras”. Se aquela brasileira é uma “coisa” também a sua é uma “coisa”.
É é isto que a considero, UMA COISA, não quero tocar a sensibilidade dos católicos, ou de outra ideia religiosa, que respeito profundamente, mas falo especificamente deste “absurdo visual” que as instituições, os críticos e infelizmente também os partidos obrigam a pagar ao povo “coisas” destas, sem pedir uma consensualidade ou debate público e espetam a torto e a direito “Coisas”.
Uma pergunta para os mais preparados por mim em escultura. Não havia um outro escultor, ou dois, a interpelar em Portugal para apresentar outro projeto?
