Foto: mediotejo.net

A freguesia de Troviscal, no concelho da Sertã, homenageou os seus pares cravando os seus nomes num memorial em honra aos participantes na Primeira Guerra Mundial, Guerra Colonial e aos falecidos nos incêndios florestais de 2003 e 2017. O momento integrou as comemorações do Dia da Freguesia e juntou a comunidade numa tarde de confraternização e reflexão.

O memorial, situado no largo da Junta de Freguesia, recorda três momentos da História caraterizados por Manuel Figueiredo, presidente de junta, como “episódios que cristalizam no tempo e no espaço e cuja memória não se apaga”.

O presidente de junta, depois de no seu discurso proferir algumas palavras sobre os portugueses que participaram nas duas guerras, os que padeceram e os que hoje ainda “são testemunhos vivos” destas, mencionou outra guerra que insistentemente assola a freguesia de Troviscal: os incêndios florestais.

O mesmo responsável referiu que nas últimas décadas este flagelo tem “reduzido a cinzas parte da freguesia”, o que leva a “sonhos desfeitos, vidas sem rumo, lutas inglórias e, pior que tudo, perda de vidas humanas”, frisou, lembrando as duas vítimas mortais dos incêndios de 2003 e de 2017 cujos nomes constam neste memorial: Olinda Farinha e Libânio Cardoso.

Manuel Figueiredo disse que os nomes dos cidadãos naturais de Troviscal que sucumbiram às chamas fica gravado para que ninguém esqueça as consequências trágicas que advêm dos incêndios e a necessidade de combater e inverter o panorama que se tem verificado ano após ano.

O presidente da JF Troviscal refletiu ainda sobre os impactos deste flagelo para a floresta, “um dos principais ativos económicos da freguesia”, acrescentando que muito ainda pode e deve ser feito para a proteger.

Manuel Figueiredo mostrou defender “uma estratégia para a floresta (…) com uma visão integradora do território” considerando que é “um bem comum e de todos” e que é elemento unificador de vários concelhos.

O presidente notou que a floresta tem que ser “rentável” e só assim poderá ser “apetecível”, apontando como solução criar escala, abandonando a “visão produtora de emparcelamento e caminhar para o novo paradigma da gestão e ordenamento florestal, atendendo às especificidades do território e da sua demografia”.

Também o património da freguesia e as potencialidades em termos turísticos, nomeadamente com a Praia Fluvial de Troviscal enquanto investimento de destaque, foram abordados na sessão, tendo sido sublinhada a importância de preservar o património histórico e natural e a identidade cultural das gentes”, definindo políticas que contribuam para “preservar as memórias e tradições” da freguesia.

Presente na mesma cerimónia esteve José Farinha Nunes, presidente da Câmara Municipal da Sertã, que não deixou de enunciar igualmente algumas reflexões e reconhecer o gesto “nobre” da Junta de freguesia ao “invocar aqueles que perderam a vida durante os incêndios” que assolaram toda a região.

Para o edil é “importante não perder o sentido destas homenagens que devem ser lições para o futuro, e acima de tudo, um exercício de introspeção para todos”,disse, saudando de seguida a comunidade troviscalense pelo “exemplo de trabalho e perseverança” e por “nunca ter virado a cara à luta nem nunca ter rejeitado as suas origens”, concluiu.

Por seu turno, Manuel Frexes (PSD), deputado da Assembleia da República eleito pelo círculo de Castelo Branco, marcou presença e focou no seu discurso outras batalhas com que estes territórios travam batalhas atualmente, referindo-se ao despovoamento, envelhecimento e empobrecimento das terras. O deputado social democrata lembrou que o distrito de Castelo Branco é o mais desertificado do país, mas que as suas populações merecem as mesmas condições que as populações de outros distritos “mais ricos”.

A fechar os discursos da tarde, Alfredo Dias, presidente da Assembleia Municipal da Sertã, mostrou-se honrado por estar presente nas comemorações do Dia da Freguesia e na inauguração deste memorial em honra aos troviscalenses que partiram.

Lembrando o seu avô Manuel Dias, natural da aldeia de Porto, cujo nome consta da lista de participantes na Primeira Guerra Mundial, disse ser importante esta homenagem, não esquecendo as pessoas que permitiram que se chegasse aos dias de hoje. Ainda assim, mencionou que apesar de estas guerras terem chegado ao fim, outra continua a ter de ser enfrentada pelas populações e é uma “guerra civil” que “é preciso ganhar”.

O presidente da AM Sertã concluiu esperando que dentro de 10 a 20 anos se possa “ganhar a guerra e trazer paz à floresta, acabando com o flagelo dos incêndios”, algo que crê depender essencialmente dos cidadãos, autoridades nacionais e autoridades locais.

Seguiu-se uma contextualização histórica pelo jornalista Rui Lopes, sendo que ao início da tarde houve ainda missa na Igreja Paroquial. O pavilhão acolheu atuações do coro infanto-juvenil da Paróquia da Sertã e do Grupo Instrumental do CCD do Pessoal da CM Sertã.

Associada ao evento esteve igualmente uma angariação de fundos para a conclusão da construção do lar do Troviscal, uma obra do Centro de Assistência Social da freguesia, iniciada em 2016 e orçada em cerca de 1 milhão de euros.

 

 

 

 

 

 

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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