Imagem ilustrativa. Créditos: Unsplash

Em denúncia enviada ao nosso jornal, confirmada posteriormente junto de diversas fontes, é referido que o CRIA “está a colocar uma senhora de 70 anos sob situação grave e constrangedora de ter que passar o dia com o seu filho nas instalações do CRIA porque os motoristas do CRIA, com o aval da direção, se recusam a deslocar a Belver para recolher o utente”.

A justificação que tem sido dada à família pela direção do CRIA é que a carrinha que faria este transporte está avariada, permanecendo em oficina para arranjo, situação que se arrasta desde agosto. Ao mediotejo.net, a direção mantém que “não é possível concretizar” ainda uma data para a reparação da viatura, nem para dar outras alternativas a esta família, que desespera por uma outra solução para o transporte contratualizado – e que não está a ser cumprido. O CRIA tem-se demitido dessa responsabilidade e chega a imputá-la à Câmara Municipal de Gavião, uma vez que o utente é residente na freguesia de Belver, que pertence a este município.

Na contratualização para entrada de Luís (para sua proteção será tratado ao longo do texto por este nome fictício) no CRIA, enquanto utente na sede na Quinta das Pinheiras, em Alferrarede, especifica-se que uma carrinha faria o transporte direto de Belver a Alferrarede, num veículo que seguiria de Mação, recolheria o utente e o deixaria nas atividades do CAO (agora Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão – CACI).

Após o ingresso do utente no CRIA, no final de abril deste ano, foi contratualizado que este teria direito a transporte, alimentação, atividades ocupacionais e terapia, conforme o regulamentado pela instituição para a entrada de um novo utente, também cliente. Assim foi indicado à família na altura, no final de um difícil processo de procura de vaga em Centro de Atividades Ocupacionais, depois de Luís, que tem 32 anos, ter deixado o Centro de Recuperação Infantil de Ponte de Sor (CRIPS), que só tinha vaga em contexto de formação, que não servia ao utente.

Chegado o mês de agosto, começaram os problemas. Luís acabou por ficar um mês de férias, e não os 15 dias previstos no calendário de atividades, apesar de os familiares terem tentado que o utente regressasse ao CRIA. Em causa estará um episódio de agressividade do utente para com uma vizinha, enquanto aguardava transporte, num momento de descompensação – episódios que não são inéditos em pessoas com deficiência mental.

Luís está a ser seguido para diagnóstico de despiste de patologias como Perturbação do espectro do autismo ou Perturbação de Personalidade Borderline, que resulta do acompanhamento psiquiátrico que vem sendo feito, e este tipo de patologias pode provocar episódios isolados de descompensação em reação a diversos estímulos, fatores externos ou desajuste de medicação.

Perturbação do espectro do Autismo: é uma perturbação do neurodesenvolvimento que se carateriza por dificuldades na comunicação e interação social, associadas a comportamentos repetitivos e/ou interesses marcados por objetos ou temas específicos. A designação de espectro foi atribuída pela variabilidade dos sintomas, desde as formas mais leves até às formas mais graves.

Perturbação de Personalidade Borderline: é caracterizada por um padrão global de instabilidade no relacionamento com os outros, na auto-imagem e afectos, apresentando uma impulsividade marcada, que tem normalmente o seu começo no início da idade adulta.

fontes:
https://www.cuf.pt/saude-a-z/perturbacao-do-espetro-do-autismo
https://www.psinove.com/perturbacao-de-personalidade-borderline

Acontece que, após este incidente, deixou de haver disponibilidade de transporte por parte da instituição, uma vez que o motorista habitual estaria de férias e nenhuma outra auxiliar se mostrou disponível para recolher o utente no local de residência, alegadamente por receio. A direção, segundo os familiares, quando confrontada com este problema, “desconversou e disse que quando o motorista regressasse o Luís teria novamente transporte” – o que acabou por não se verificar.

Após um período de internamento, de ajuste de medicação e tratamento e de renovação do diagnóstico, a médica especialista do Hospital de Portalegre que acompanha Luís emitiu um parecer dando conta da importância do seu regresso à rotina e atestando que estava apto a frequentar a instituição, já devidamente compensado.

“A médica entendeu que seria recomendável que retomasse as suas rotinas e atividades, para continuar estável. E no CRIA disseram que não havia carrinha, que continuavam com a mesma situação”, confirma a família.

Chegou setembro, e a família retomou o contacto com a instituição, mas nada feito, pois “a carrinha de nove lugares estava avariada”.

Fonte próxima da família afirma que haveria outra carrinha disponível, de cinco lugares, mas que o motorista não queria que o utente seguisse ao seu lado, no lugar da frente, mais espaçoso, uma vez que o utente é corpulento e que isso não garantia segurança por qualquer impulso que pudesse ter durante a viagem.

Família tem estado a acompanhar utente ao CRIA para garantir que possa continuar a frequentar as atividades. Foto ilustrativa: CRIA

Terá justificado então a direção que “era preciso que a carrinha de nove lugares estivesse arranjada, para que ele pudesse vir no banco de trás e o motorista pudesse conduzir sem nenhum utente ao seu lado, porque seria perigoso para a sua condução se assim não fosse”, conta a mesma fonte.

Neste ponto, a família não levantou objeções, mas crê que deveria seguir uma auxiliar no veículo, para salvaguardar e apoiar o motorista no circuito com os utentes, pois no transporte segue apenas o motorista, que não poderá socorrer alguém que se sinta mal ou tenha uma convulsão, por exemplo.

Ao longo dos últimos meses, confirma a família ao nosso jornal, o próprio presidente da direção foi garantindo que a carrinha seria arranjada “o mais rápido possível”, mas sem que apresentasse um prazo.

Numa reunião presencial com a direção, foi sugerido à família que o utente utilizasse transportes públicos por meios próprios para se deslocar a Alferrarede: seguiria de comboio, da estação de Belver (a 1 km de casa, e que implicaria grande esforço físico na descida e subida para a vila, seguindo por uma estrada pouco segura), ou no autocarro que segue para Abrantes fazendo o transporte de estudantes, a partir de Gavião, o que implicaria circuitos demorados e com muitos transbordos, que o levariam à exaustão.

Afirma a família ter chamado a atenção dos técnicos para os vários entraves que tornavam essas opções inviáveis à condição de Luís.

“A autonomia do Luís já não é o que era, há uns anos movia-se sozinho. Ele não pode ficar sozinho. Tem epilepsia, é comum ter convulsões, e podem acontecer um sem fim de situações, e com tantos transbordos, quando chegasse ao CRIA já iria esgotado. Não é viável ficar sozinho nem deslocar-se sozinho”, explica a família.

Entre as soluções apontadas, a direção do CRIA chegou a sugerir à família que contactasse a Câmara Municipal de Gavião, município de residência, porque esta “tem obrigação de conseguir o transporte através da ação social”. Aliás, na denúncia enviada ao nosso jornal consta inclusive a preocupação de que “o CRIA e os seus utentes estejam a ser utilizados para manobras políticas, dada a responsabilização que a direção da instituição quer imputar à Câmara de Gavião e à de Abrantes também”.

O certo é que consta dos serviços e atividades do Centro de Atividades Ocupacionais, conforme regulamento interno disponível no site da instituição, a prestação de serviços de transportes.

Excerto do Regulamento interno do Centro de Atividades Ocupacionais/CACI do CRIA. Fonte: http://cria.com.pt/

Para que o utente não perdesse as atividades e para que não ficasse em casa e descompensasse mentalmente, a mãe, septuagenária e debilitada por questões de saúde, passou a acompanhar Luís de transportes públicos, permanecendo no CRIA até terminar as suas atividades.

A certa altura, a irmã de Luís teve de ir em auxílio da família, ausentando-se do trabalho, chegando a permanecer na entrada do CRIA em teletrabalho com o seu computador portátil, substituindo a mãe no acompanhamento do irmão. Esgotou os dias em que poderia continuar em teletrabalho e já teve de regressar à Área Metropolitana de Lisboa.

As atividades de Luís decorrem entre as 11h45 e as 16h00, tempo de espera para a mãe e irmã, sendo que acrescem mais duas horas de espera pelo comboio de regresso a casa, que parte às 18h00 de Alferrarede para Belver. Quando tinha transporte da instituição, Luís dava entrada no CRIA entre as 9h45 e as 10h00, perdendo atualmente cerca de duas horas de atividades nesta lufa-lufa.

Apesar de tudo, a família reconhece que a direção tem estado disponível, acolhido pedidos de reuniões, e autorizado a presença da mãe e irmã (sentadas na entrada), enquanto aguardam por Luís, sem que circulem nas instalações.

Segundo a denúncia feita ao nosso jornal, a família não quis expor este caso publicamente por temer “represálias” no futuro, quando apenas se tem batido por uma solução célere de transporte com dignidade e respeito pela condição de Luís.

CRIA – Centro de Recuperação e Integração de Abrantes, em Alferrarede. Foto: mediotejo.net

Neste exercício diário, sempre com esperança que a situação se resolva “nos próximos dias”, a família vai-se desgastando, e ao mesmo tempo mantendo a fé perante o equilíbrio demonstrado por Luís, que apesar de todo o reboliço desta nova rotina que lhe foi imposta, se tem mantido à altura do desafio.

Como se não bastasse, a mesma fonte afirma que “há a ameaça constante de quererem mudar o Luís para o polo de Mação”, situação que os familiares apontam não ser benéfica, temendo que não se integre no grupo, por ser constituído de utentes mais dependentes e que seria incompatível com a sua condição e personalidade.

Ao longo de todo este tempo, sem nunca baixar os braços, a família pede apenas que seja devolvido o transporte ao utente, assegurando as condições contratualizadas, para que possa continuar a frequentar o CRIA em Alferrarede, instituição onde já se encontra integrado, onde já fez amigos e que, segundo a família, é a sua melhor opção para garantir o bem-estar, qualidade de vida e atividades necessárias, não sendo opção abandonar este CACI.

Perante a ausência de um desfecho positivo, sabe o mediotejo.net que a família já efetuou pedidos de auxílio e esclarecimentos junto da Segurança Social, junto do Município de Gavião e da Secretaria de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, além de continuar a interceder junto da direção do CRIA para que se encontre uma solução que sirva a todos.

CRIA justifica suspensão do transporte com episódios de agressividade do utente e carrinha em reparação mecânica

Após várias tentativas de contacto telefónico junto da direção do CRIA ao longo desta semana, o nosso jornal enviou um pedido de esclarecimento à instituição via e-mail, cuja resposta chegou na tarde desta sexta-feira, dia 14 de outubro.

Num documento assinado pelo presidente da direção, Vítor Moura, é confirmada a suspensão do transporte do utente, contratualizado entre a sua família e a instituição.

O CRIA refere que “o transporte foi suspenso a partir do momento em que a direção do CRIA e a direção técnica do CACI são conhecedores do último episódio de agressividade que inclui tentativa de agressão a outros utentes e de episódios anteriores que já constam do processo, nos escassos meses que o utente tem de frequência do CACI do CRIA e que culminaram com um período de internamento psiquiátrico”.

Mais acrescenta que “no período de descompensação, o condutor da viatura de transporte do CRIA presenciou junto à residência do utente, atos de agressividade para com uma vizinha e a própria mãe e que tiveram intervenção da GNR e assistência médica de urgência (112)”, situação que levou o motorista habitual e a auxiliar que o substitui em caso de férias a recusar efetuar o transporte do utente em causa “receando algo que possa colocar em risco a segurança, além do próprio, do condutor e dos restantes utentes ocupantes da viatura”. Perante a recusa dos condutores, aceite pela direção do CRIA e direção técnica do CACI, avançou a suspensão do transporte.

Confirma a instituição que, conforme transmitido em reunião à mãe e irmã do utente, “a única alternativa ao recomeço do transporte dependerá da disponibilidade de uma viatura de 9 lugares que a instituição tem em reparação mecânica e cuja data de entrada ao serviço até ao momento presente não foi possível concretizar”.

Por fim, afirma o CRIA que até à entrada da viatura de nove lugares ao serviço, que permitiria “transportar o utente no 3º banco (atrás) e acompanhado por uma auxiliar no 2º banco, de modo a garantir uma eventual contenção ao mesmo”, a solução apontada e conforme “foi acordado entre esta direção e a família (mãe e irmã), o utente seria transportado acompanhado pelas mesmas, alternadamente, de comboio até à estação de Alferrarede e daquela estação até à sede do CRIA, também em Alferrarede, em transporte exclusivo para o mesmo e a familiar acompanhante, em viatura do CRIA, que inclui o condutor e uma técnica”.

Mencionando que o transporte alternativo “está a ser efetuado até ao dia de hoje conforme acordado”, a instituição termina dizendo que “a alteração das condições, nomeadamente da situação clínica do utente, pode, conforme o contratualizado, ser motivo de denúncia do contrato por parte da instituição”.

Ou seja, poderá o utente vir a perder o lugar para frequência desta instituição, cujo propósito é efetivamente acolher e integrar pessoas com deficiência – entre os compromissos para com o cliente/utente, consta a “iniciativa, mobilização e organização dos recursos necessários para solucionar os problemas de cada cliente, no quadro das suas necessidades e expetativas, no prazo mais curto possível”, conforme se pode ler no site da instituição.

Órgãos Sociais do Centro de Recuperação e Integração de Abrantes – CRIA, para o quadriénio de 2021 a 2025. Créditos: DR

O CRIA trabalha com pessoas com deficiência de diferentes faixas etárias – desde crianças a pessoas idosas. Além da área educacional, tem ainda um lar residencial e centros de atividades ocupacionais (CACI), contando ainda com uma unidade em Mação, também com lar residencial e CACI. A instituição presidida por Vítor Moura assinalou a 23 de março 45 anos em atividade contínua ao serviço da comunidade – um projeto que cresce desde o ano de 1976, altura em que passou de uma ideia para corresponder às necessidades sociais do concelho de Abrantes, e depois toda uma região.

Hoje, o CRIA é uma “entidade de economia social, de âmbito regional, intervindo no domínio do desenvolvimento humano e social visando uma sociedade inclusiva, particularmente na área da deficiência”. Assumiu como missão “acolher, formar e apoiar a integração familiar e social das pessoas contribuindo para a satisfação das suas necessidades e expectativas numa perspetiva de equidade e promoção do desenvolvimento humano e social da comunidade”.

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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