Foto: mediotejo.net

As Jornadas de História Local foram palco do 20º aniversário do Centro de Estudos de História Local de Abrantes (CEHLA), do Cineclube Espalhafitas e da revista semestral Zahara, esta última tendo alcançado as 40 edições publicadas ininterruptamente, onde nunca faltaram temas para preencher as mais de cem páginas.

Numa missão voluntária em prol da memória coletiva e da preservação do património local não só do concelho de Abrantes como de outros concelhos da região, foram-se juntando contributos para um acervo cultural que eterniza as vozes e saberes do passado, de quem já não vai estando entre nós.

Uma viagem que já se faz longa, mas que se quer continuar a trilhar entre os desafios que se colocam a este projeto, que passam por conseguir rejuvenescer a equipa de colaboradores e que dirige o CEHLA e a Zahara, bem como conseguir divulgar de outro modo e fazer chegar mais longe a publicação, alcançando novos públicos e cada vez mais jovens.

Teresa Aparício, José Martinho Gaspar e Alves Jana, diretores da revista de História Local Zahara. Foto: mediotejo.net

Corria o ano 2002 quando, em outubro, José Martinho Gaspar, Alves Jana, Eduardo Campos e Carlos Vieira Dias apresentaram na Livraria Contracapa o Centro de Estudos de História Local de Abrantes à imprensa, de onde passaria a sair dois números anuais da revista de História Local, Zahara.

A equipa foi crescendo, e o núcleo duro passou a ser composto por Teresa Aparício, Carlos Grácio, Isilda Jana, Joaquim Candeias da Silva, Mário Jorge de Sousa e Francisco Esteves Valente, assinando estes artigos com temáticas, perfis e histórias alusivos aos concelhos de Abrantes, Gavião, Constância, Mação, Sardoal, Vila de Rei e Vila Nova da Barquinha.

Manteve a sua marca, amadureceu e tornou-se uma publicação local de encontro e convergência de personalidades, coletividades, tradições, usos e costumes, lendas, profissões de outrora, vivências nas aldeias, vilas e cidades, onde em cada página, o texto se faz acompanhar de fotografias, ilustrações, tabelas, amostras de dados resultado de recolha e investigação minuciosa e cuidada, debruçando-se os autores nos arquivos e bibliografia existente, mas também na entrevista e espólios privados.

Foto: mediotejo.net

Em 20 anos, nos 40 números da revista, mais de duzentas pessoas assinaram artigos e colaboraram para que a publicação semestral nunca quebrasse o seu propósito de guardiã da história local, saísse para as bancas e fosse parar às mãos de quem a aguardava com expetativa para outras leituras, mais viradas para os usos e costumes, os saberes e tradições, os mitos e lendas, as memórias e as histórias que os antepassados deixaram para que, mais tarde, alguém as pudesse contar. Para que não se desvaneçam, a revista serve enquanto ferramenta de resgate desse património que, de outro modo, poderia perder-se na correria dos tempos. Assegura-se assim que as gerações mais novas, querendo, possam consultar uma publicação impressa que lhe garante informação credível que possam utilizar e transmitir no futuro.

José Martinho Gaspar, professor e historiador responsável pela coordenação do CEHLA e diretor da Zahara, referiu-se a estes dois desafios em concreto, relevando que são precisos contributos mais jovens e que seria interessante que estes se envolvessem no projeto numa ótica de rejuvenescimento da equipa.

Entrevista ao historiador e docente José Martinho Gaspar, coordenador do CEHLA e da revista Zahara

“Nunca pensei que pudéssemos fazer este percurso. Mas aqui estamos, mais novos (riso) e mais cheios de determinação para continuar a trabalhar na área do património e da cultura local. E a nossa ideia desde o início foi que teríamos que ter uma perspetiva territorial, abrangente, para este território do concelho de Abrantes mas também dos territórios envolventes, e fazer um trabalho da História local. Mas nunca ficámos no sentido muito estrito de História local académica, e às vezes as pessoas até se afastam por esse motivo”, começou por frisar durante a abertura do último dia das Jornadas de História Local.

Foto: mediotejo.net

“A nossa ideia era recolher o máximo de materiais e divulgar o máximo de memórias, e é isso que creio que temos feito ao longo deste tempo. E a nossa atividade tem passado por esta revista, que tem mantido a periodicidade semestral ao longo de 20 anos. Nunca tivemos dificuldades no que diz respeito a encontrar artigos para a revista, estamos a falar de um trabalho completamente voluntário no que diz respeito a este fazer dos artigos, a um trabalho de distribuição e de a fazer chegar a alguns locais”, notou.

Porém, houve ainda tempo para um lamento, porque a revista Zahara mantém uma tiragem de 500 exemplares “e fica com exemplares em casa”, sendo que num território com mais de 100 mil pessoas, entende o coordenador, não deveria acontecer. “Mas acontece e é algo que me entristece”, assumiu.

José Martinho Gaspar relevou este que “é um trabalho meritório, louvável, importante sobretudo porque deixou registadas algumas coisas que de outro modo já se teriam perdido. Em cada número da revista que vai saindo nós vamos percebendo isso. Neste número é ainda por demais evidente, pois temos o José Alves Jana a fazer uma entrevista ao senhor Carlos Marchão, e um dia ou dois antes de a revista ser apresentada, ele faleceu. E aquelas memórias que ali nos conta não teriam ficado registadas de outra forma se ele não tem feito este trabalho. É em relação ao Sr. Marchão como é em relação a uma centena de outras pessoas que contaram coisas e que já não as contam neste momento. O nosso trabalho tem sido este”, afirmou.

Exibição de documentário realizado pela Palha de Abrantes sobre a vida e obra do Mestre José Pimenta, de Rio de Moinhos. Foto: mediotejo.net

O coordenador do CEHLA relevou ainda o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Cineclube Espalhafitas, focado não só no cinema de exibição, mas também no cinema de animação e no trabalho feito com crianças, e em alguns projetos e documentários produzidos, caso do que foi exibido na sessão, sobre a vida e obra do Mestre José Pimenta, que deliciou os presentes com os detalhes deste homem apaixonado pela arte e cujo trabalho está exposto por estes dias no MIAA, contendo o nº40 da revista um artigo sobre o mesmo.

Por seu turno, Alves Jana, um dos diretores adjuntos da revista Zahara a par com Teresa Aparício, reconheceu o empenho de José Martinho Gaspar, como o “homem do leme” responsável pelo projeto do CEHLA e da revista semestral, seguindo-se forte aplauso ao historiador e docente.

A revista Zahara nº40, do mês de dezembro, engloba 15 artigos, começando pelo dedicado a Carlos Marchão e a sua “vida cheia”.

O entrevistado viria a falecer dias antes do lançamento da revista que o retrata. Pela mão de Alves Jana, e por via de uma entrevista que foi interrompida pela pandemia, naquele texto homenageia-se a memória do “homem comprometido”, com forte sentido de compromisso social e cívico, que foi presidente de junta de São João, em Abrantes. “Foi um velho que morreu jovem e que até nisso nos deixou exemplo”, afirmou Jana.

O propósito de ferramenta de memória e do património e História local cumpre-se a cada número da revista, e exemplo disso é a publicação de artigo sobre Carlos Marchão, figura de relevo abrantina que falecera dias antes de a revista nº 40 ser lançada. Foto: mediotejo.net

Conta ainda com artigo sobre a “Barragem do Tejo, em Ortiga: conhecida como Barragem de Belver”, por Rui Moleiro, outro sobre “Belver, Terra Hospitaleira e Hospitalária” assinado por Carlos Grácio, e sobre os Casamentos do Antigamente de Queixoperra, por Lurdes Vicente e Vasco Marques.

Fernando Freire escreve sobre “A Fonte da Moita” de Vila Nova da Barquinha, e José Martinho Gaspar foca-se na “Malaria: Arte sardoalense”, enquanto Mário Jorge Sousa conta a história dos Leques de Palha do Sardoal e a forma como a artesã Célia Dias preserva a tradição.

Dulce Figueiredo e Susana Sousa relevam “As Asas Invisíveis de um Homem”, em homenagem à memória de Manuel Luís Arrais, ávido leitor, falecido em novembro deste ano, e que doou livros à Biblioteca Municipal de Sardoal que integram um espólio em seu nome.

Joaquim Candeias da Silva escreve sobre a História religiosa do concelho de Abrantes, especificamente das paróquias rurais de Aldeia do Mato e Martinchel; já José Rafael Nascimento conta a história do Comandante Conde Martins, “O Homem do Leme”, nascido em Abrantes e que foi o primeiro português a ser campeão do mundo de Vela.

Os órgãos de tubos de Abrantes foram mote do artigo escrito por José Manuel d’Oliveira Vieira, enquanto Manuel Batista Traquina escreveu sobre os Mendigos do Souto, em “Tempos Passados”.

As origens da fadista Severa foram exploradas por António da Graça Pereira, enquanto Teresa Aparício faz um levantamento das profissões em Abrantes no século XVIII.

O número 40 da Zahara, que dá destaque à marca nesta edição especial comemorativa, relevando os seus 20 anos de existência através do CEHLA, encerra com a história do Mestre José Pimenta, escrita por Joana Margarida Carvalho.

A revista Zahara está disponível no Sr. Chiado, sede da associação Palha de Abrantes, junto à Câmara Municipal, mas também pode ser adquirida junto de um dos colaboradores do CEHLA, podendo contactar através da página de Facebook ou do email ass.palhadeabrantes@gmail.com

As Jornadas de História Local encerraram no passado sábado, no auditório da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes, contando na abertura com Lurdes Martins, José Martinho Gaspar e Manuel Jorge Valamatos, presidente da Câmara de Abrantes, e ainda Miguel Borges, presidente da Câmara Municipal de Sardoal, Fernando Freire, presidente de Câmara de Vila Nova da Barquinha, e o vereadora com o pelouro da Cultura, Luís Dias, da Câmara Municipal de Abrantes.

Na ocasião, Lurdes Martins, presidente da Palha de Abrantes – Associação de Desenvolvimento Cultural, relevou os 20 anos de trabalho local e territorial, onde a revista “tem uma amplitude bastante alargada, desde Vila Nova da Barquinha a Vila de Rei” e explicando que esse foi o motivo para se descentralizarem os trabalhos das jornadas deste ano, comemorativas dos 20 anos do CEHLA, da Zahara e do Espalhafitas, aproveitando a ocasião para fazer um agradecimento aos municípios envolvidos.

Durante a manhã também houve lugar a duas comunicações em torno da importância da cultura para o desenvolvimento socioeconómico e o seu impacto nos territórios de baixa densidade.

José Ramos Pires Manso, professor catedrático da UBI. Foto: mediotejo.net

Começou-se por abordar a importância da arte, cultura e criatividade para o desenvolvimento económico e social, por José Ramos Pires Manso, professor catedrático no Departamento de Gestão e Economia da Universidade da Beira Interior.

Referiu que os setores culturais e criativos são fonte significativa de empregos e rendimento, responsáveis por impactos sociais, nomeadamente na saúde, bem-estar e promoção da inclusão social. Relevou que no pós-covid, dependerá da adaptação dos modelos governativos o crescimento com maior resiliência da economia nestes setores.

Destacou ainda que o peso do setor cultural é mais elevado nas capitais e cidades, dando destaque a países como a Coreia do Sul, França, Reino Unido, Japão, México, Itália, Canadá.

Mencionou ainda que antes da covid-19 o setor cultural/criativo estava a crescer bastante, mas que “os benefícios de um setor cultural forte vão muito além dos impactos económicos”, defendendo que “a cultura torna as nossas sociedades mais saudáveis, mais felizes e mais inclusivas”, sendo que “o envolvimento cultural pode ser importante para melhorar a autoestima e a motivação das pessoas para investir na sua curiosidade intelectual e na vontade de aprender”.

Falou no caso de Belmonte como um dos exemplos de boas práticas nesta área, nomeadamente com a sua rede de seis museus e ainda na importância das associações/coletividades locais na promoção da arte, cultura e tradições

Foto: mediotejo.net

Deixando orientações futuras para o setor das artes e cultura, frisou que as estruturas políticas permanecem subdesenvolvidas e que é necessário considerar-se “a cultura como um investimento económico e social, e não apenas um custo”.

Crê que é necessária “aprovação de um conjunto de políticas para a criação de condições equitativas para profissionais e empresas criativas em termos de acesso ao emprego, inovação e medidas de apoio às empresas” e a “integração da cultura em agendas políticas mais amplas, como a coesão social, inovação, saúde e bem-estar, ambiente e desenvolvimento local sustentável”.

Para Pires Manso os “governos nacionais e locais devem integrar a cultura em estratégias mais amplas de desenvolvimento económico e social, de acordo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável do milénio da ONU”.

Manifestando ser “um grande defensor da intervenção do setor privado, independente, na cultura e nas artes”, sublinhou que as iniciativas da sociedade civil são “cada vez mais valorizadas particularmente nas zonas do interior onde elas são muito escassas”, sendo por isso “fundamental disponibilizar apoio e suporte a projetos independentes quando existem, em particular no Interior de Portugal”.

Pegando no exemplo de Abrantes, e do trabalho prestado pelo CEHLA, disse que “quer o cineclube, quer a revista de história local, já com uma longevidade invejável, prestam ótimos serviços culturais à comunidade e só existem graças à vontade de prestar um verdadeiro serviço público independente”.

“Vigente há 48 anos, o regime democrático exige uma sociedade civil cada vez mais ativa, se assim não for há que incentivá-la, há que apoiá-la de todas as formas para que ela cumpra esse objetivo democrático”, concluiu o académico.

A segunda comunicação coube a Luiz Oosterbeek, investigador e docente do IPT, cuja intervenção incidiu sobre os “Territórios de baixa densidade demográfica (TBDD): a rede onde se constrói o século XXII”.

Luiz Oosterbeek fez a segunda conferência incidindo sobre a importância dos territórios de baixa densidade para o desenvolvimento da sociedade futura. Foto: mediotejo.net

O investigador referiu que “pelo menos 25% da população mundial viverá em 2100 fora dos grandes aglomerados urbanos”, mas alertou que não existe nenhum Objetivo de Desenvolvimento Sustentável dedicado exclusivamente aos TBDD”.

Oosterbeek trouxe exemplos de projetos de base local, territorial e comunitária, nomeadamente o que sucede em Mação, no Médio Tejo, bem como noutros países e cidades com parcerias e acordos de geminação, caso de Fuentes de León.

Apesar das desigualdades crescentes, crê-se que será a partir dos territórios de baixa densidade que se poderá construir a sociedade do futuro, com reflexos e impactos nas próximas gerações.

A nível de intervenção, destacou quatro pilares que vão desde a educação, matriz sociocultural e intergeracionalidade, à comunicação e interlocução.

Falou da importância da participação em projetos de base comunitária, que incluem a rede escolar e contam com apoio social, além da articulação Museus-Investigação-Bibliotecas e a dinamização de programas de mestrado e doutoramento.

A intervenção terminou com uma convite para uma das iniciativas dinamizadas a partir da Mação, através do Instituto Terra e Memória e do Museu, com o APHELEIA 2023 a realizar-se de 22 a 31 de março, e onde se darão 50 exemplos de como as coisas estão a mudar no mundo, sob o tema “Adaptation and Transformation practices”.

Oosterbeek deixou ainda opinião, pegando no exemplo da Rede de Museus do Médio Tejo, defendendo uma estratégia integrada entre municípios que tenham alguma proximidade geográfica, histórica e patrimonial, para que trabalhem além da rede de museus regional, em iniciativas paralelas e com isso possam criar novas dinâmicas sem beliscar a programação da rede da região, mas que com isso possam acrescentar valor.

Foto: mediotejo.net

Como comentário a estas comunicações interveio Miguel Borges, edil da Câmara Municipal de Sardoal, desde logo referindo-se à importância do acesso à cultura na sociedade, mas também defendendo que “temos andado a vender muito mal o Interior”. Segundo o autarca deve-se “vender não como um território deprimido, mas como de grande qualidade”, onde “há tempo”.

“Temos perdido oportunidades”, relevou o autarca, numa altura em que se podem e devem criar novas centralidades no país, deslocando projetos para a zona centro, desviando-os da centralização do litoral e da capital, contribuindo para um desenvolvimento diferente das regiões do Interior do país.

“Interioridade não é sinónimo de inferioridade, mas sim, de qualidade”, concluiu, com uma expressão que é já sua imagem de marca.

Por fim, Lurdes Martins, presidente da associação Palha de Abrantes, referiu que a programação das Jornadas de História Local é feita sem pensar que se está no Interior, havendo abstração da localização onde se realizam, e que por isso une pessoas de fora mas também contando com pessoas da região. Crê que falta alguma avaliação do que é feito, olhar para os projetos.

Mas por outro lado, o projeto do CEHLA, Cineclube Espalhafitas, e revista Zahara, não é de todo concelhio, pois abrange toda a região, respeitando um interesse alargado sobre o património regional.

O último dia ficou completo com a apresentação de trabalhos e memórias, recordando o percurso feito até aqui e as pessoas que colaboraram, certos de que ainda há muito a fazer em prol do resgate e preservação da memória e Histórial local.

FOTOGALERIA

Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *