Num concelho cujo território é constituído sobretudo por uma extensa floresta, o verde saudável dos campos e da serra foi substituído pelo castanho pardo e o negro das chamas. Aldeias cercadas, desertas, onde ardeu tudo menos a igreja e as casas de habitação. As chamas consumiram até à porta, ao muro, ao altar de um qualquer santo dos muitos que parecem proteger a serra, sempre em locais estratégicos de prometido zelo pelas populações. Ao fogo acode o povo, o pequeno autarca, depois os bombeiros. Num ato contínuo que não dá vazão às grandes frentes e aos muitos reacendimentos.
A aldeia de Louriceira, Mação, foi evacuada na quarta-feira, 16 de agosto. Mas Ernesto Lopes não partiu. “Foram oito, ficaram oito”, sintetiza. O idoso de olhos brilhantes preferiu permanecer na aldeia e combater as chamas. Eram cerca de 19 horas e a poucos metros a fronteira fluvial com o concelho de Vila de Rei. Era lá que ardia, recorda. “Em dois minutos saltou de um sítio para o outro”, várias centenas de metros, e as chamas começaram a consumir a Louriceira.

Ernesto Lopes foi despejando garrafas de água sobre a cabeça para não intoxicar. Na aldeia arderam alguns barracões e velhas moradias, mas nenhuma casa de habitação. Pela tarde de quinta-feira os poucos habitantes da aldeia já tinham regressado. Luz nas casas não havia, a água continuava a correr. Sentado na rua, junto à fonte, num banco de jardim, o idoso não se mostrava preocupado com os reacendimentos. “Aqui já está tudo ardido”.
O cenário é semelhante aldeia após aldeia, passando por Serra e Casalinho. As ruas estão desertas, a terra queimada até à entrada e aos terrenos limítrofes da povoação. As populações estão refugiadas em casa ou a combater os incêndios. Mação é um concelho aparentemente inabitado, uma ilha fantasma cercada pelo fogo há quase um mês. Para Filomena Vicente têm valido os “Magalhães”, jovens que percorrem o concelho com enormes bidões de plástico cheios de água apagando as chamas, chegando onde muitas vezes os bombeiros não conseguem chegar.

Dentro da vila de Mação arderam terrenos junto ao Tribunal e às escolas. As chamas já ali não entravam desde 2003. Alguns populares apontam o dedo aos proprietários das parcelas de terrenos vazias, para venda, junto a urbanizações, sem limpeza e cheias de mato. Outro problema, constata-se, é a desertificação. “Quem vai cuidar das coisas?”, interrogam-se os que teimam em ficar e a não partir como tantos outros da sua geração.
O cheiro a fumo intoxica as narinas e imiscui-se na garganta. As estradas cortadas obrigam a percorrer quilómetros e quilómetros de terra queimada, alimentada ainda por pequenos fogaréus que consomem os postes de eletricidade. As comunicações falham continuamente, a rede de telemóvel é péssima. Muito cobre espalhado pela mata.

Em Mação dizer que só ficaram as casas é pouco para descrever a aflição dos que há um mês combatem as chamas. Em Chão de Codes, Deolinda Simões tem no fogo um adversário enigmático. De noite, comenta, as chamas não se mexiam. Não dormiu tentando salvar a propriedade. Todas as aldeias em redor foram evacuadas, as pessoas estão exaustas, os adolescentes arriscam-se a tentar apagar pequenos reacendimentos. As vinhas queimadas, as culturas perdidas. Os animais fugiram.
“Só ficaram as casas…”, constata.
*com Elsa Ribeiro Gonçalves
