Um ano depois dos grandes incêndios que marcaram a fogo e cinza as paisagens da nossa região, já será possível dar um mergulho nos nossos paraísos fluviais? Como está o Penedo Furado? E a praia do Lago Azul? Ou a Aldeia do Mato? Fomos esta semana a todas as zonas balneares para lhe revelar as cores atuais de cada recanto.
Reportagem de Joana Rita Santos (em Mação, Sertã e Vila de Rei), Cláudia Gameiro (em Ferreira do Zêzere) e Paula Mourato (em Abrantes e Gavião)
A cortina cerrada de pinheiro bravo, com certas manchas de eucalipto pelo meio, tão característica do concelho da Sertã, já não acompanha as linhas de água como antes. A sombra surge agora tímida e parca, lá do alto da colina, onde ainda se mantêm de vigia os esqueletos das árvores massacradas pelos fogos de 2017.

O caminho para o Troviscal faz-se entre as memórias dos fogos que ali passaram e o verde que as chuvas entretanto ajudaram a surgir. Na praia fluvial de Troviscal a zona do bar de apoio, do parque de merendas e do estacionamento permanece intacta. É como se nada fosse. Algumas espécies de árvores e arbustos mantiveram-se, caso dos chorões, de raízes mergulhadas na ribeira da Sertã, cuja água das cheias ajudou a apressar um renascer que nos leva a refletir sobre o poder da natureza, que se regenera tão rapidamente, depois de um ataque desigual. Ainda assim, parando para olhar em volta, falta o característico verde, quase idílico, de outros anos.
A viagem, quer à chegada, quer à saída, não deixa esquecer o sufoco que a freguesia viveu há quase um ano cercada por chamas. Um verão que, como o deste ano, se fez tardio, entrando outono dentro, e trazendo fogos devastadores em outubro.

Em Vila de Rei, ali ao lado, o Penedo Furado, outro ex-libris da região, mostra o verdadeiro sentido da “força” da natureza. Apesar de sentirmos, à chegada ao Miradouro, que as colinas estão despidas, faltam as acácias que ali faziam uma fortaleza a acompanhar a envolvente, e mesmo a descida, já com pinheiros e eucaliptos pelo meio. A vegetação, ainda que em quantidade substancialmente menor, ainda está muito presente. O verde, junto das piscinas e das cascatas, mantém-se. Valeram uma vez mais as águas do inverno, que apesar de tudo, vieram ajudar a limpar o que o fogo carbonizou. As imagens desoladoras pintaram de negro todo aquele quadro que fazia o postal de verão de muitas famílias do país e do mundo.
Junto ao bar tudo se mantém, mas no alto, os esqueletos de carvão mantém-se. E os cortes, para impedir a queda de árvores, também se verificam. As rochas ainda estão mascaradas de negro, como se de fuligem se tratasse.
Já o caminho para as cascatas, ainda deixa ver alguns pedaços de troncos carbonizados no chão. E as árvores que guiavam o caminho, servindo percursos e rotas pedestres, umas cortadas, outras ainda permanecem, valentes, de pé. Também chamuscadas, e fragilizadas, e ao sabor do vento marcam compasso: “crack, crack.”
Nas cascatas, pouco depois da sinalização das rotas e percursos pedestres o verde manteve-se. O coberto vegetal está intacto, pelo menos cá em baixo, muito graças às nascentes e quedas de água. As estatuetas do santuário do Rabadão mantêm-se brancas, e agora que a vegetação é menor e não as acompanha, a via sacra parece ganhar protagonismo vista de baixo.

Outro caso é Carvoeiro, a freguesia massacrada do concelho de Mação. A envolvência da praia, tal como no Penedo Furado, tem bem visíveis as marcas dos incêndios que assolaram o concelho. Apesar de tudo, as infraestruturas estão intactas, e a floresta ordenada nas imediações. Árvores, como pinheiros e choupos, combinam com o relvado, e é praticamente impossível imaginar que ali, bem ao lado, passaram as chamas.
A verdade é que o queimado é impossível esconder. A vegetação já se faz notar à passagem, mas ali jaz a floresta que foi outrora a marca de Carvoeiro e todo o concelho de Mação. Aqui, os amontoados de madeira queimada que vê aqui e ali, não deixa esquecer as feridas abertas do passado.
Mas para acalmar a alma, o aconchego do bar, das piscinas e das sombras e espreguiçadeiras no areal, parecem ser suficientes. Isso, e o mergulho nas águas límpidas e frescas, naquela que é praia de “ouro sobre azul”, com Bandeira Azul hasteada pelo 12º ano consecutivo e reconhecida como Qualidade de Ouro pela Quercus.

Em Ferreira do Zêzere, um ano depois do fogo que levou toda a beleza da vegetação ribeirinha, entre 12 e 15 de agosto, a praia fluvial da Castanheira/Lago Azul encontra-se a funcionar em pleno e obteve inclusive a Bandeira de Qualidade de Ouro da Quercus, o que significa que obteve “Excelente” nas análises da água pelo menos nos últimos cinco anos, de forma consecutiva.

Também em Dornes, num pequeno espaço de veraneio não controlado, ninguém tem receio de tomar banhos de sol e dar um salto ao rio. As estradas foram arranjadas, as árvores queimadas cortadas, houve alguma reflorestação e os eucaliptos tornam a rebentar um pouco por todo o lado.
Só a paisagem envolvente, uma das grandes mais valias das praias fluviais destas paragens, ainda que já pintalgada de algum verde, demorará a voltar ao normal. Quem chega sente ainda o impacto do sofrimento da natureza.
“Dia 12 de agosto foi fechada a estrada de acesso”, recorda Natasha Costa, responsável do bar Maven Café, no Lago Azul, tendo-se retirado logo as pessoas que se encontravam na praia fluvial. O fogo chegou e saltou de margem, não tendo chegado a provocar estragos na praia. Continuou a arder dias 13 e 14, só a 15 as chamas abrandaram.
Logo de imediato se sentiu o impacto, com uma queda abrupta de veraneantes nos tempos que se seguiram. “As pessoas vinham, olhavam e iam embora”, recorda Natasha, lembrando o medo geral que sentia que os incêndios regressassem.
Esse medo ainda se sente este ano, constata, com muita gente a evitar a praia ou a lamentar o que aconteceu à bela paisagem verdejante que envolvia o Lago Azul. Mas o que está mesmo a afetar o negócio não são tanto os receios de novos incêndios, mas as condições meteorológicas instáveis. “O tempo não tem ajudado”, afirma, referindo que de resto a praia está operacional, tendo todos os estragos sido arranjados no decorrer no inverno.
Para quem já conhecia o espaço, fora o impacto visual, a praia continua a mesma. A água obteve Qualidade de Ouro pela Quercus. Há nadadores salvadores, um bar de apoio e até um mini biblioteca, com livros disponíveis para os veraneantes.
Em Dornes não há oficialmente uma praia fluvial, mas junto aos barcos e canoas para aluguer é habitual encontrar, num pequena parcela de terra e areia, pessoas a fazer veraneio. O ano passado, comenta ao mediotejo.net António Castelão, responsável pela empresa local promotora de desportos radicais aquáticos e passeios de barco no rio Zêzere, “Alventura”, o turismo caiu a pique após o grande incêndio de 12 de agosto, que encheu de negro a margem paralela à península.
As chamas não atingiram a aldeia, mas destruíram a paisagem verdejante. As coisas só tornaram a melhorar em setembro, refere o responsável, depois da vitória nas 7 Maravilhas.
A paisagem de Dornes entretanto recuperou um pouco, retomando os tons de verde, o que permitiu recuperar a atratividade do espaço. Este ano o problema, refere, têm sido sobretudo as temperaturas, que afastam o turismo.
Segundo o vereador Hélio Antunes, apesar dos incêndios o fluxo turístico tem-se mantido e a praia da Castanheira está a funcionar dentro da normalidade. “Recuperámos 100%”, afirma.
Apostar na Bandeira Azul nesta praia ou em estruturas que permitissem criar um espaço de veraneio adequado em Dornes está entre as ambições do município, porém qualquer intervenção encontra-se condicionada pelas exigências do Plano da Albufeira de Castelo de Bode. Neste momento, explicou o autarca, esta é a oferta possível.

O arvoredo que circunda a praia fluvial de Aldeia do Mato, a caminho da zona norte do concelho de Abrantes, fortemente fustigado pelo fogo em agosto de 2017, renasceu durante o chuvoso inverno e volta a colorir em tons de verde aquela zona balnear da Albufeira de Castelo de Bode.
Ainda que o cenário se tenha alterado, a paisagem recompõe-se. Ao que a vista alcança, quer do miradouro da aldeia quer do areal da praia, para as encostas rasgadas pelo rio Zêzere, o rasto do fogo passa despercebido ao banhista mais preocupado em assapar por entre as toalhas na ânsia do mergulho, do que descobrir pontos negros no horizonte.
A Albufeira de Castelo de Bode é rica em biodiversidade, tendo uma vegetação variada apesar da elevada pressão antropogénica de que é alvo (excessivo povoamento florestal com eucalipto, sobretudo, e pinheiro). Após o fogo, começa a ser possível observar diversas espécies arbustivas, como as estevas, o tojo-menor e o rosmaninho.
Para dinamizar a Albufeira de Castelo de Bode, a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, em parceria com a Associação Portuguesa de Wakeboard e Wakeskate e a Associação de Empresários de Turismo do Castelo de Bode, está a promover uma agenda de eventos de animação para este verão, com atividades náuticas gratuitas.
Aos menos afoitos, a quem basta o mergulho, a praia fluvial de Aldeia do Mato mantém a sua qualidade, tendo recebido em 2018, pela 8ª vez, a Bandeira Azul.

Com os incêndios de agosto de 2017, também a paisagem verdejante na envolvente da praia fluvial do Alamal se transformou, tornando-a num local “diferente” – não pelas razões prometidas nos anúncios de promoção turística, mas por um pedaço de paraíso perdido. Praticamente um ano passado sobre os fogos, as altas colinas graníticas permanecem no mesmo local, o rio desce tranquilo e as paisagens perderam o negrume deixado pelo fogo dando lugar ao verde. O Município de Gavião avançou para a reflorestação e para a reconstrução do passadiço que liga o Alamal à ponte de Belver.
Situada na margem esquerda do rio Tejo, a calma das águas da praia fluvial do Alamal, apenas possível graças à localização entre duas barragens — a de Belver a jusante e a de Fratel a montante – convidam ao repouso e a tirar o máximo partido do sol. Reserva fluvial de tranquilidade para muitos que, mesmo depois dos incêndios, elegem aquele local de lazer do concelho de Gavião. O inverno chuvoso ajudou a apagar o rasto dos incêndios, que ainda permanece teimoso na paisagem do outro lado no Tejo, junto à linha ferroviária da Beira Baixa.
Nada que demova os amante de caminhadas com vários percursos pedestres em que podem descobrir a extensão envolvente à praia fluvial. O passadiço de madeira que liga a zona balnear à ponte de Belver, com 1 800 metros encontra-se na fase final de reparação. O fogo consumiu cerca de 1 300 metros do passadiço, em agosto de 2017.
Um ano depois, o passadiço renovado, uma obra no valor de 300 mil euros, voltará a oferecer passeios à beira rio, ligando o Alamal à ponte de Belver. Um percurso que não necessita de preparação física nem de equipamentos especiais.
E se a praia fluvial do Alamal é o ex-libris estival do concelho, de lá vê-se no topo de um escarpado penhasco sobre o Tejo, o ex-libris anual: o velho castelo medieval, mandado construir no início do século XIII pelo rei D. Sancho I.
Na antiga Quinta do Alamal, transformada em centro balnear, existem várias zonas de descanso e tranquilidade para os períodos de maior calor – além da fonte do Lagarto, uma fonte com água de nascente, trilhos para pequenas caminhadas, dois tanques de água e uma zona relvada para piqueniques.
Após o fogo, a natureza encontrou o caminho da renovação, o longo e chuvoso inverno permitiu que o verde desponte por entre as rochas, nomeadamente do medronheiro, a árvore predominante. Os sapadores florestais também ajudaram a minimizarar as consequência do incêndio, plantando novas árvores e cortando a vegetação queimada.
