Almoço do 25 de Abril juntou autarcas e refugiados ucranianos em Ourém. Foto arquivo: mediotejo.net

Nos primeiros contactos, a barreira da língua mostra-se intransponível. Tenta-se o inglês, mas também não entendem. Os mais novos mostram o telemóvel e dizem “Translate”, ou seja, utilizam o seu smartphone para traduzir de português para ucraniano e vice-versa.

Finalmente encontrámos o interlocutor ideal. Vladyslav e Olena já estão em Portugal há 22 anos. Exploram com a família um posto de combustíveis com estação de lavagem e snack-bar na estrada para Castelos. Os filhos, já nascidos em Portugal, frequentam a escola e estão bem integrados.

Vladyslav Ryezanov e a sua mulher Olena têm sido os interlocutores da comunidade ucraniana. Foto: mediotejo.net

Desde que começou a guerra na Ucrânia o seu telemóvel não tem parado e o seu estabelecimento funciona como uma base de apoio. Todos os dias recebe mantimentos e donativos que consegue enviar para a Ucrânia ou distribui pelas famílias que vão chegando.

Pelas contas do Município há 230 refugiados sinalizados, mas poderão ser cerca de 300, conforme referiu o presidente da Câmara de Ourém no seu discurso. Ou sejam 300 que se vieram juntar aos cerca de 400 que já estavam instalados em Ourém há vários anos.

“As pessoas ajudam bastante. Temos conseguido enviar muita ajuda humanitária”, realça Vladyslav Ryezanov. Com a sua mulher Olena, tem sido o porto de abrigo para muitos que chegam da Ucrânia. O facto de dominar a língua, já estar em Portugal há 22 anos e ser empresário, fazem dele uma base de apoio para quem chega.

Ainda hoje, o telefone de Vladyslav não para de tocar com pedidos de ajuda, seja de familiares, amigos e até de embaixadas. Ao seu lado está a cunhada, mulher do irmão que ficou na Ucrânia a ajudar as tropas.

Os olhos e o rosto de Natalia escondem um drama familiar. Foto: mediotejo.net

Natalia Trush, 42 anos, professora de língua ucraniana, veio sozinha, apenas com uma mochila às costas. No seu rosto é possível ler os traumas de guerra e a angústia de quem viu a família dividir-se. Para trás deixou o marido e uma filha na Ucrânia e um filho de 16 anos na Hungria.

Está há cerca de um mês em Ourém onde a família a acolheu e o Município cedeu um apartamento. Contente e surpreendida positivamente com o apoio e acolhimento, Natalia não esconde que o seu coração está na Ucrânia. Por vezes, a emoção toma conta de si e chora.

Os seus olhos azuis brilhantes escondem a dor que lhe vai na alma. Sente o dilema de estar segura e apoiada em Portugal e o querer regressar para junto da família.

Para chegar a Ourém foram 14 dias de viagem. O filho de 16 anos estuda e é jogador de futebol na Hungria. A filha de 22 anos é enfermeira parteira. Acompanhou a mãe até à fronteira com a Polónia mas, como conta Vladyslav, “meteu-se-lhe na cabeça que tinha de ajudar a Ucrânia e voltou para trás”.

A jovem continua a trabalhar no hospital de Zaporija, cidade cobiçada pela Rússia por ocupar uma posição estratégica de ligação ao Mar Negro.

Se no centro da cidade ainda é possível quase todos os dias fazer uma vida normal, nos arredores a destruição é total. Vladyslav conta-nos a história de uma família amiga que esteve num bunker uma semana e quando saíram deram com a sua casa totalmente destruída.

Enquanto isso mostra-nos no seu telemóvel vídeos arrepiantes onde se vê soldados ucranianos feridos e deitados no chão, a serem mortos a sangue frio.

Vladyslav é o exemplo de como a guerra está a agravar as divisões nas famílias. O seu pai é russo e a mãe é ucraniana. Quando telefona para a sua tia que está na Rússia percebe o quanto são diferentes as versões sobre a guerra e como Putin controla e manipula toda a informação.

Até na escola é incutido nas crianças o ódio aos ucranianos, à Europa e aos Estados Unidos, garante. Considera que também em Portugal não se publica a informação nua e crua como a realidade é.

A conversa ao longo do almoço do 25 de abril flui e é entrecortada pelos discursos alusivos aos 48 anos da revolução.

Discurso do Presidente da Assembleia Municipal, João Moura

Da parte da comunidade ucraniana, ali representada por cerca de 30 pessoas, falou Olena Ryezanov que agradeceu a “ajuda inesquecível e muito valiosa” dos seus compatriotas.

O Presidente da Assembleia Municipal, órgão que promoveu a iniciativa, destacou as conquistas de Abril e criticou a Rússia pela invasão da Ucrânia, num discurso que ia sendo traduzido por Olena.

João Moura explicou a importância do “dia muito especial” que representa o 25 de Abril no que respeita à conquista da liberdade, relacionando com o que se está a passar na Ucrânia, país que “se viu privado dessa liberdade” desde há dois meses. Deixou ainda palavras de esperança e de conforto aos refugiados ucranianos presentes em Ourém.

Discurso do Presidente da Câmara Municipal, Luís Albuquerque

No final do almoço, interveio também o Presidente da Câmara que começou por saudar a iniciativa da Assembleia Municipal “num dia muito importante para Portugal”. Luís Albuquerque aproveitou para agradecer a todas as instituições e entidades que têm colaborado no acolhimento dos refugiados ucranianos, esperando que estes “se sintam em casa”.

A autarquia tem colaborado “a nível de alimentação, cuidados de saúde, nas questões administrativas e em tudo aquilo que é necessário para que se sintam o melhor possível no Concelho”.

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

Deixe um comentário

Leave a Reply