O proTEJO defendeu hoje limites legais ao consumo de água e energia dos centros de dados e uma avaliação ambiental conjunta dos dois projetos previstos para Abrantes, alertando para a pressão sobre a bacia hidrográfica.
Em comunicado, o Movimento pelo Tejo – proTEJO, com sede em Vila Nova da Barquinha, exige que a autorização dos projetos Hyperion, em Alvega, e EDC One, junto ao Pego, ambos no concelho de Abrantes, seja precedida de um Estudo de Impacte Ambiental (EIA) cumulativo.
“O Tejo já não tem margem para ser a torre de arrefecimento da inteligência artificial europeia. Quem quiser instalar-se na sua bacia tem de provar, primeiro, que não vai precisar da sua água”, sustenta o movimento numa tomada de posição hoje divulgada.
O proTEJO defende ainda que os promotores revelem a tecnologia de arrefecimento e o consumo de água previsto, que sejam fixados limites máximos vinculativos de eficiência hídrica e energética e publicados os dados de desempenho de cada centro de dados.
Segundo estimativas do movimento, os dois projetos poderão consumir, em plena capacidade, entre 3,6 e 22,2 milhões de litros de água por dia, consoante a tecnologia de arrefecimento adotada, informação que, segundo o proTEJO, ainda não foi divulgada pelos promotores.
De acordo com o movimento, esta procura de água surge numa altura em que a Agência Portuguesa do Ambiente prevê um agravamento da escassez na bacia do Tejo entre 2028 e 2033, período que coincide com a entrada em funcionamento prevista dos projetos, estando já parte significativa das massas de água superficiais e subterrâneas abaixo do “Bom Estado”.
Em matéria energética, o proTEJO estima um consumo conjunto máximo de 4.380 gigawatts-hora (GWh) por ano, tendo por referência uma capacidade conjunta de 500 megawatts (MW), quase 29 vezes o consumo anual de eletricidade do concelho de Abrantes.
O movimento reconhece “o valor da modernização digital e da atração de investimento para o Médio Tejo”, mas considera que os projetos devem ser avaliados juntamente com outras pressões presentes ou previstas sobre o Tejo, entre barragens, açudes, regadio e transferências de água entre bacias.
O proTEJO reclama ainda sessões públicas de esclarecimento em Alvega e na Concavada, uma reavaliação do enquadramento dos projetos na Zona Livre Tecnológica do Pego e que uma futura legislação nacional salvaguarde a possibilidade de os municípios imporem condições ambientais mais exigentes.
Portugal dispõe desde 2024 de legislação que obriga os centros de dados com uma procura de potência instalada de pelo menos 500 quilowatts a divulgar informação sobre desempenho energético, incluindo consumo de energia e água, mas o diploma não estabelece limites máximos vinculativos para esses consumos.
O Governo aprovou em abril o Plano Nacional de Centros de Dados, que considera estas infraestruturas estratégicas para a economia e soberania digital e prevê medidas para facilitar e coordenar o investimento, determinando simultaneamente o cumprimento das regras ambientais aplicáveis.
Em Abrantes estão anunciados dois projetos de grande dimensão. A EDC One prevê investir 7 mil milhões de euros junto ao Pego, numa primeira fase com 300 MW e entrada em funcionamento apontada para 2028.
O segundo projeto, da Hyperion II Renewables Services, recebeu em maio parecer municipal favorável a um Pedido de Informação Prévia para uma área próxima de Alvega e do Pego, com 200 MVA de potência de ligação à rede, estando a entrada em operação prevista para 2029.
Os promotores dos dois centros de dados solicitaram entretanto mais capacidade de ligação à rede elétrica, estando os pedidos em análise, disse à Lusa a ministra do Ambiente e Energia.
c/Lusa

Daquilo que procurei apurar, a água do Tejo entra no canal do transvase através da albufeira de Bolarque, na província de Guadalajara, em Espanha. Esta albufeira é alimentada pelas águas armazenadas e reguladas a montante nas barragens de Entrepeñas e Buendía, conhecidas como a “cabeceira do Tejo”. É a partir de Bolarque que a água é captada e encaminhada para sul através do sistema de transvase Tejo-Segura.
Não sei se alguma vez estiveram no sul de Espanha, na região de Múrcia, nomeadamente na zona de Sucina, por onde passa a água proveniente deste transvase. Mas para se perceber verdadeiramente a dimensão do problema não basta ler relatórios ou ver mapas: é preciso ir lá. Eu estive nessa região este verão e o que encontrei foi uma realidade impressionante. São hectares e hectares de agricultura intensiva, estufas sem fim e regadios que se estendem até ao horizonte. E, apesar de toda a água que recebem do Tejo, continuam a queixar-se da escassez de recursos hídricos.
Em Portugal, e infelizmente também ao nível dos sucessivos governos, não existe uma verdadeira perceção da quantidade de água que é desviada da bacia do Tejo. Discute-se a instalação de novos empreendimentos que dependem fortemente de água, como centros de dados para arrefecimento de equipamentos, mas parece faltar vontade política para enfrentar aquilo que constitui o verdadeiro problema estrutural do rio: a insuficiência de caudais que chegam a território português.
Antes de pensar em novas utilizações para a água do Tejo, o Governo português deveria assumir uma posição firme junto de Bruxelas e de Madrid e exigir não apenas o cumprimento, mas a efetiva reposição dos caudais ecológicos que permitam a recuperação do rio. Mas para isso seriam necessários coragem política, determinação e capacidade de enfrentar interesses instalados. Até hoje, nenhum governo português demonstrou ter essa vontade.
Vivi nas margens do Tejo, em Abrantes, durante a infância e a juventude. Recordo-me de um rio com corrente, volume de água, biodiversidade e vida. Um rio que era verdadeiramente o eixo da região. Hoje vejo um curso de água muito mais pobre, mais artificializado e cada vez mais dependente de decisões tomadas longe das suas margens.
Vale a pena recordar que, durante séculos, o Tejo foi uma importante via de comunicação e transporte. Em tempos, a navegação entre Abrantes e Lisboa era uma realidade e o rio desempenhava um papel económico fundamental no interior do país. Hoje, em muitos períodos do ano, a situação degradou-se a tal ponto que até a ligação em canoa entre Abrantes e Lisboa se torna difícil em diversos troços, devido aos baixos caudais, aos assoreamentos e à fragmentação provocada pelas barragens. A comparação é reveladora da transformação profunda que o rio sofreu em poucas décadas.
O mais revoltante é que este processo decorre há anos à vista de todos. Portugal foi assistindo à degradação gradual do rio sem conseguir, ou sem querer, impor as suas legítimas preocupações. O resultado está hoje à vista: um Tejo mais pobre, mais vulnerável e incapaz de desempenhar plenamente as funções ambientais, económicas e sociais que durante séculos assegurou.
É difícil não sentir indignação perante aquilo que aconteceu ao maior rio da Península Ibérica. Quem conheceu o Tejo de outros tempos percebe que não estamos perante uma simples alteração da paisagem. Estamos a assistir ao declínio de um património natural, histórico e cultural que pertence a todos. E o mais grave é que este declínio não é inevitável; resulta de opções políticas, de falta de visão estratégica e da incapacidade de defender um recurso vital para as gerações futuras.
Leta (Carlos Dias)
Rossio ao Sul do Tejo, Abrantes