A Praça de Touros de Vila Nova da Barquinha, inaugurada em meados do século XIX e considerada a mais antiga do país a manter a traça original, foi recuperada num investimento superior a 40 mil euros e reabre dia 11 com uma corrida internacional, continuando a acolher, além de espetáculos taurinos, iniciativas culturais e desportivas.
As obras, hoje apresentadas numa visita ao recinto promovida pela Câmara Municipal e pela Santa Casa da Misericórdia de Vila Nova da Barquinha, proprietária do imóvel, incidiram sobretudo na reconstrução integral dos curros, recuperação das bancadas, pinturas, barreiras, instalações sanitárias e outras infraestruturas.
António Costa, mesário, tesoureiro e responsável pelos edifícios da Santa Casa da Misericórdia, disse ao mediotejo.net que o valor final da intervenção ainda não está totalmente apurado, mas estimou que possa situar-se “na casa dos 40 mil euros”.
“O custo total ainda não está bem fechado, porque há algumas coisas por contabilizar”, explicou, adiantando que os curros ficaram “totalmente novos” e que foram também intervencionadas bancadas, pinturas, barreiras, casas de banho e outras estruturas degradadas.
Segundo o responsável, a situação dos curros era o problema mais urgente. “Já estavam impraticáveis. Já não havia condições nenhumas para ter lá os animais”, afirmou, acrescentando que existiam também necessidades ao nível das bancadas, sinalização e segurança.




A intervenção terá decorrido ao longo de seis a sete meses, embora com algumas interrupções, tendo os antigos curros sido integralmente demolidos e reconstruídos.
A Câmara Municipal tinha aprovado em junho de 2025 um protocolo com a Santa Casa da Misericórdia que previa um apoio financeiro de 25 mil euros para obras de conservação e valorização da praça, dividido por diferentes fases da intervenção. A autarquia assumiu também a fiscalização técnica da empreitada.
O presidente da Câmara afirmou hoje que o investimento efetivo acabou por superar aquele apoio.
“O valor foi cerca de 25 mil euros, foi esse o protocolo que estabelecemos, embora se tenha superado, porque houve aqui muitos custos que não foram contabilizados neste protocolo”, disse Manuel Mourato.
Segundo o autarca, houve também envolvimento da Junta de Freguesia e de outros meios municipais, pelo que “os investimentos ultrapassaram seguramente os 25 mil euros”.

O apoio previsto no protocolo está a ser integralmente executado, faltando apenas, segundo explicou, processar o último pagamento, correspondente à fase final dos trabalhos.
Para o presidente da Câmara, a recuperação permite preservar um equipamento com importância histórica e, simultaneamente, criar novas possibilidades de utilização.
“Vai ter um impacto não só histórico, porque se trata de uma praça histórica”, afirmou, destacando igualmente a vertente “cultural e desportiva” do espaço.
A intenção passa por permitir que o recinto acolha outros eventos para além dos taurinos, uma possibilidade também defendida pela Misericórdia.
António Costa confirmou que estão a ser estudadas outras utilizações para a praça e que essa possibilidade foi já abordada com o empresário responsável pela exploração do recinto.
“Estamos a tentar que tenha mais uma utilização também para outros eventos”, afirmou.




A Misericórdia considera que, com esta intervenção, ficou resolvida a parte essencial das necessidades do imóvel, embora admita que nos próximos anos sejam necessários trabalhos pontuais de manutenção.
A praça continuará concessionada para exploração, opção que, segundo António Costa, permite assegurar a conservação sem desviar verbas da principal missão social da instituição.
“A Santa Casa não deve desviar verbas da função principal, que é cuidar dos idosos e das crianças”, disse.
A receita da concessão, acrescentou, é praticamente reinvestida na manutenção da própria praça.
Pombeiro propõe arena multiúsos
O empresário taurino Luís Pombeiro, que iniciou precisamente na Barquinha, em 1989, a sua atividade empresarial ligada à tauromaquia, lançou durante a visita um desafio mais ambicioso: cobrir o recinto e transformá-lo numa arena multiúsos.
“Esperemos que um dia tenham a coragem de pôr uma cobertura para ser um espaço multiúso para todos poderem utilizar”, afirmou.
Pombeiro considera que uma intervenção dessa natureza permitiria usar a praça durante todo o ano para concertos, eventos empresariais, espetáculos e outras iniciativas.

“Deixava de ser apenas praça de touros e passava a ser uma arena multiúso”, afirmou, apontando exemplos como Évora, Elvas e Lisboa.
O empresário chegou mesmo a defender uma solução de cedência de longo prazo do equipamento pela Misericórdia ao município, permitindo, no seu entender, captar financiamento para uma intervenção de maior dimensão.
“Podiam fazer aqui um investimento bonito que não há na região”, afirmou. Pombeiro salientou igualmente o valor histórico da praça, que mantém a localização e a traça original desde o século XIX.

Segundo o empresário, algumas zonas do recinto praticamente não tinham sofrido intervenções estruturais ao longo da sua história, tendo os curros sido agora reconstruídos pela primeira vez.
Recordou ainda a ligação histórica da praça à ferrovia, explicando que, antigamente, os touros chegavam de comboio e eram descarregados diretamente para os curros, existindo ainda no exterior vestígios dessas antigas entradas.
Praça renovada estreia-se com corrida no dia 11
A primeira corrida após as obras realiza-se na sexta-feira, 11 de setembro, às 22:00, numa noite anunciada como de apresentação dos novos curros e das obras de beneficiação da praça.
O cartel reúne os cavaleiros Ana Batista, João Moura Caetano, Emiliano Gamero e Andrés Romero, além dos jovens Mariana Avó e Vasco Veiga, com seis touros da ganadaria José Luís Cochicho.
Nas pegas participam os grupos de Forcados Amadores de Tomar, do Clube Taurino Alenquerense e de Arruda dos Vinhos.
Luís Pombeiro disse esperar uma boa adesão à corrida, que deverá ter uma lotação disponível próxima dos 3.300 lugares, e admitiu que a programação possa ganhar maior regularidade, apontando para três ou quatro corridas por ano e não excluindo outro espetáculo já em outubro.
Entre os grupos que regressam à renovada Praça de Touros da Barquinha estão os Forcados Amadores de Tomar, cujo cabo, Paulo Josué, destacou o momento de renovação da formação tomarense e a presença de muitos elementos jovens.

“Estamos com muita juventude. Somos quase 30 elementos, o que é muito bom para um grupo de forcados”, afirmou, acrescentando que o objetivo passa por “honrar a nossa jaqueta e a nossa cidade”.
Sobre o regresso à praça da Barquinha depois das obras, deixou também um apelo ao público: “É vir aqui à Barquinha, estar aqui com força, ver esta bonita obra e apoiar os Forcados Amadores de Tomar”.
