A Portugal AVC, que assinala 10 anos, no sábado, com um encontro nacional em Abrantes, alertou para dificuldades persistentes no acesso célere a uma reabilitação multidisciplinar e continuada dos sobreviventes e para a sobrecarga dos cuidadores.
“Na reabilitação, há muitas queixas de falta destes cuidados de saúde, tão essenciais, do seu início tão precoce quanto possível, multidisciplinar, com continuidade e sem tempos pré-estabelecidos”, disse à Lusa o presidente e fundador da Portugal AVC – União de Sobreviventes, Familiares e Amigos, António Conceição.
O responsável defendeu uma maior aposta nesta área, considerando que uma reabilitação adequada pode fazer a diferença na autonomia, integração social e profissional dos sobreviventes e reduzir encargos futuros para as famílias, sociedade e Estado.
Direta ou indiretamente, acrescentou, as falhas atingem também os cuidadores, que “tantas vezes ‘substituem’ o Estado, 24 horas por dia e sete dias por semana, quase sem nenhum auxílio”.
A associação assinala uma década de atividade no sábado, dia 26, em Abrantes, num encontro com cerca de 420 pessoas inscritas, sobretudo sobreviventes de AVC, mas também familiares, cuidadores e profissionais de saúde provenientes de todo o país, incluindo dos arquipélagos dos Açores e da Madeira.

António Conceição explicou que a iniciativa terá um caráter diferente dos habituais encontros “Juntos para Superar!”, juntando a vertente celebrativa dos 10 anos à partilha de experiências, informação e atividades dirigidas aos sobreviventes e famílias.
A Portugal AVC realizou em uma década 20 encontros em diferentes regiões e conta atualmente com 25 Grupos de Ajuda Mútua (GAM) ativos, um dos quais ‘online’ destinado a pessoas até aos 35 anos.


Sem um levantamento exato dos participantes, devido ao caráter livre e gratuito dos grupos, a associação estima que pelo menos mil pessoas tenham frequentado regularmente ou passado pelos GAM no último ano.
“Os GAM podem ajudar a viver o após AVC, podem ser como que uma ‘terapia’ complementar”, afirmou António Conceição, descrevendo-os como espaços de partilha, diálogo, informação, convívio e amizade que ajudam a combater o isolamento e favorecem a integração pessoal, familiar, social e profissional.
O presidente da associação sofreu também um AVC e explicou que a criação da Portugal AVC nasceu da experiência pessoal de procurar informação, representação e apoio depois da doença e não encontrar respostas dirigidas especificamente aos sobreviventes.
“Olhava-se à volta e não se via nada que nos representasse”, recordou, acrescentando que, apesar de manter sequelas significativas, foi “um privilegiado” pela possibilidade de apostar na reabilitação e ter entendido que deveria ajudar a construir uma resposta para outras pessoas.

Dados da Direção-Geral da Saúde (DGS) apontam para cerca de 25 mil internamentos anuais por AVC isquémico ou hemorrágico. Entre 2017 e 2023, mais de 80% dos 198.927 internamentos por doenças cerebrovasculares corresponderam a AVC agudo, segundo o mais recente relatório nacional sobre doenças cérebro-cardiovasculares.
A DGS identifica progressos na última década, com redução da mortalidade hospitalar associada ao AVC e aumento do acesso a tratamentos de reperfusão, mas mantém entre os desafios a necessidade de reforçar a reabilitação e a integração de cuidados.
O encontro de Abrantes começa às 10:00 e inclui momentos institucionais, apresentações de GAM, música e, durante a tarde, 17 espaços com atividades formativas, informação, atividade física, musicoterapia, tertúlias, ioga, iniciativas de caráter terapêutico e outras.
c/Lusa
