1.º brasão de armas do concelho – no centro de dois ramos de carvalho e de oliveira, atados pela parte inferior com uma fita de azul, onde poderá escrever-se em letras de prata a legenda “Vila Nova da Barquinha”.

A presente crónica parte da consulta de documentação do Arquivo Municipal António Roldão dos séculos XIX, e acompanha a transformação da paisagem florestal e agrícola da Barquinha.

A investigação mostra que, em meados do século XIX, a oliveira era a árvore dominante, acompanhada pela laranjeira, uma surpresa, pois era a 2.ª árvore mais presente no concelho. Existiam ainda nogueiras, figueiras, amendoeiras, avelaneiras, pereiras, macieiras, amoreiras, castanheiros, sobreiros e outras espécies.

Na agricultura relevância para a produção de arroz, milho, batata, trigo, cevada e centeio, A produção de vinha abrangia 255 hectares de vinhedos. Porém, foram todos infetados pela filoxera indiciando que na Barquinha, após a devastação desta doença, os lavradores terão abandonado a vinha e trocaram-na por outras culturas, pois a plantação passou a ser residual, logo em 1894 só já existiam 20 hectares.

São igualmente abordadas a presença das valas no Tejo e a importância da valadagem, a introdução e expansão do pinheiro, o desaparecimento do carvalho da simbologia municipal, a cultura da amoreira e da seda e, por fim, a importância do azeite e dos seus depósitos para a atividade comercial do porto da Barquinha.

Em síntese, uma reconstituição, através de fontes históricas, de uma paisagem muito diferente daquela que hoje é dominada pelo eucalipto.

O arvoredo que hoje possuímos na Barquinha, onde há predominância esmagadora do eucalipto, não exibe a floresta de há 170 anos nem a realidade de antanho.

Em 1854 afirma-se que a árvore dominante no concelho é a oliveira e nessa narrativa afirma-se que a “funda da azeitona é de acordo com as moléstias e com o rigor do Inverno”(1), tal e qual como na atualidade.

Interessante é saber que são as laranjeiras as segundas árvores dominantes no concelho. Como a paisagem mudou em tão pouco tempo!

Depois, em menor quantidade aparecem as nogueiras, com a produção de 2 moios = 1600 litros, figueiras, amendoeiras, com 450 litros, avelaneiras com 450 litros, pereiras, macieiras, sobreiros, amoreiras, castanheiros e vinha. Há, ainda, a registar a produção de 15 moios e 6 alqueires de arroz, cerca de 12.090 litros.

No ano seguinte, em 1855, temos inventariados 910 litros de amêndoas, 600 litros de castanhas e não houve avelãs. (2)

Em 1857 a existência de cereais era de 55.680 litros de trigo, 7.077 litros de milho, 1.044 litros de cevada, 221 litros de centeio, o que demonstra algum peso das searas de trigo no nosso concelho (3) sendo a cultura, essencialmente, realizada no vale de Tancos. 

A batata, o tubérculo mais popular do mundo, oriundo doa Andes, teria sido inicialmente cultivada em Portugal, em meados do século XVIII, nas regiões de Trás-os-Montes, Minho e Beiras. Sabemos que no inicio do século seguinte, com as invasões franceses, os soldados trouxeram batatas nas suas provisões pelo que, certamente, ajudaram a divulgar este alimento oriundo das américas. 

A comercialização da batata para a capital, via marítima, começa a correr no ano de 1830 sendo levada pelos barcos de além do Tejo, ou rio abaixo, e transportadas por via fluvial até à capital. De resto, se este fosse o meio de transporte utilizado ficavam isentas da taxa de 10% (4) valor de incentivo e de significativo para este negócio. 

É no ano de 1857 que aparece em registos administrativos a palavra “batata”, para o concelho da Barquinha, isto nos livros de atas que consultei até este momento. (5)

A partir desta data tem sido um alimento perene para as famílias barquinhenses.

Em resposta ao Governador Civil (6) questionado sobre a existência de madeiras para o fabrico de pólvora, o Administrador do Concelho vem dizer que, no concelho da Barquinha, há pouca plantação de salgueiros, amieiros e sanguinhos nas margens das valas, dos ribeiros e do Tejo, e que estas madeiras são utilizadas para segurança dos terrenos da borda de água ou maracha do Tejo para impedir a erosão das margens pelo escorrimento das águas.

Notável é a referência à existência de valas que, após o desvio do Tejo, são responsáveis pela origem da Barquinha. A valadagem é uma atividade secular: “essa luta de, por um lado, domar os terrenos alagados pelas águas, e por outro, levar as águas aos terrenos onde ela escasseava. Sendo vulgarmente reconhecidos pelo seu grande valor, destemor, mestria e sabedoria, os valadores desempenhavam o que era, ao mesmo tempo, um trabalho, uma missão e um ofício … terrenos alagados onde se cultivavam os campos do arroz, do milho, do cânhamo e outras culturas às quais a presença permanente e abundante de água era essencial, não teriam tido fecundidade nem produção; sem eles, os terrenos secos de bairros e charnecas não seriam irrigados nem dariam produção; sem eles, nem mesmo as cidades originárias de seculares urbes teriam tido condições para nelas se viver e asseguradas as necessárias fortificações de segurança”. (7) Esta atividade contribuiu para a riqueza da agricultura e engrandecimento, sobremaneira, dos nossos anteriores.  

Diz-nos (CHAGAS,1878) aquilo que já sabíamos e que constava do primeiro brasão da Barquinha: “grande parte de território é ocupado por olivedos que produzem azeite finíssimo muito acreditado nos mercados, possui também pinhais, laranjais, terras de trigo, milho e centeio, amendoeiras, figueiras, alguns sobreiros, e mais árvores de fruto”.

Oliveiras na Quinta da Lameira

Desde o século XII, aquando da génese da nacionalidade, até ao séc. XVIII o carvalho seria uma árvore preponderante no nosso território.

Mas porque desapareceu o carvalho do brasão barquinhense?

– Pergunto.

Recordo que o brasão de armas mais antigo da Barquinha, de 1839, era constituído por um escudo sem coroa, partido em pala, na primeira, em campo azul uma bateira de ouro em mar de prata azul e, na segunda, em campo de prata uma oliveira de sua cor entre duas vasilhas de tanoa negra, ficando o escudo no centro um ramo de oliveira e outro ramo de carvalho. Desconhece-se o que levou os nossos ancestrais a retirar o ramo de carvalho, no segundo brasão, mas não andarei longe da verdade ou dito de outro modo, tudo indicia, que é devido à sua substituição por outra árvore. A falta de elementos de referência nas fontes que pesquisei e na correspondência trocada entre a administração local e a administração central leva-me a uma conclusão. O carvalho elemento primitivo presente no nosso território ligado à Ordem do Templo foi substituído pelo pinheiro.

 O pinheiro talvez fosse introduzido na Barquinha no início do séc. XVIII.

O primeiro registo nacional da preocupação pela falta de madeira para as naus portuguesas data de 1565, ano da promulgação por D. Sebastião da Lei da Árvores. Este documento é renovado em 1604 nas Ordenações Filipinas que ordena aos meirinhos, alcaides e mais ministros, que mandem plantar árvores para madeira. Todavia, o uso indiscriminado do seu plantio é limitado pela Carta de Lei, de 30 de março de 1623. Aconteceu no século seguinte nova carência de madeira. Assim, os homens práticos e inteligentes no ano de 1789 defendem que em “Cantarinho, Ponte de Sor, Monte-Argil, Tancos, Vendas Novas […} deve-se semear pinhões bravos, que nelle hão de fructificar muito bem, e por este modo se evitará a grande extracção de dinheiro que os Estrangeiros nos levão, com a introducção das suas madeiras, das quaes abundão os seus paizes, e o nosso necessita.” (8)

Nascidos os primeiros pinheiros estes espalham-se facilmente através do penisco que percorre grande distância, levado pelas asas, de que a natureza o proveio. Logo, apressadamente, surgiram pinhais que substituíram os carvalhos aqui então presentes o que será razão do sumiço desta árvore do brasão da vila da Barquinha.

Também, há evidência de elevado número de sobreiros. Esta árvore atualmente protegida, é evidenciada pela sentença de 9 de fevereiro de 1886 num processo litigioso entre particulares e a Câmara da Barquinha, conflito quanto à propriedade e posse de 423 sobreiros. (9)

A presença de amoreiras era escassa no concelho. No tempo de El Rei D Afonso V, em 1438, lançou-se a “moda” de obrigar a plantação de 20 pés de amoreira por vizinho. O propósito é repetido por D. Manuel I, nas cortes de 1495. O rei D. José, por Lei de 20 de fevereiro de 1752, catalisando os ideais visionários de Sebastião Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, promoveu um regime de incentivos ímpar para a plantação desta árvore.  Estávamos perante incentivos fiscais e prerrogativas sedutoras para o povo e para aqueles que se dedicassem à plantação de amoreiras e criação do bicho da seda.

Com forte acolhimento popular, após a publicação desta lei, a produção veio a desfalecer em consequência do desleixo das populações, das invasões francesas e das guerras liberais que finaram na batalha da Asseiceira.

Este sucesso da plantação das amoreiras e criação do bicho da seda teve, portanto, naquele período, escassa longevidade.

Porém, no reinado de D. Maria II, voltou-se a incentivar esta cultura através da circular de 21 de setembro de 1836, com a formação de “viveiros e plantas de amoreiras próprias para a criação do bicho da seda”. Tal, pela Portaria de 23 de setembro de 1836 e Portaria de 12 de dezembro de 1842, se providenciaram “o bem da conservação das amoreiras” tendo como móbil o desiderato real, a generalização do bicho da seda e produção de fio para a manufatura nacional em expansão. Todavia, só o Nordeste e as Beiras continuaram a produzir em escala a seda, isto até meados do séc. XIX.

A ambição dos produtores deu origem ao advento de várias doenças no sirgo e com ela o fim desta atividade. Só em alguns lugares, longe das culturas intensivas e desapropriadas a doenças, as produções sobreviveram, como aconteceu na minha terra natal, Oleiros, e que daria origem aos célebres bordados de Castelo Branco.

Esta cultura da seda apresenta características que a tornam uma produção artesanal única, fruto de materiais, sensibilidades e saberes enraizados. “É, no entanto, o concelho de Oleiros que nos surpreende. Nas palavras do próprio relator do Congresso, em Castelo Branco [IV Congresso e Exposição Regional das Beiras, ano de 1929], este concelho “Quási fora do mundo (…) apresentou-nos (…) a sua seda natural: em casulos, em meadas e em tecidos. Único concelho do distrito e um dos poucos do país onde ainda se faz a criação do bicho da seda em larga escala, ainda ali são conhecidas e praticadas todas as operações do fabrico e da coloração”. (10)

Também no concelho da Barquinha a cultura da amoreira ou da seda é tema no final do Séc. XIX. Em resposta do administrador do concelho ao governador civil (11), no ano de 1885, este informa que há poucas árvores de amoreiras, e precisa a sua localização: “ … só nalguns quintais e nalgumas vinhas”.

Acrescento que a Rua Direita de Santarém, atual Patriarca D. José, na Atalaia, ainda conserva resquícios destas árvores. A rua esteve completamente coberta de folhas de amoreiras, ainda hoje perenes desde a Casa do Patriarca até à Igreja Matriz de Atalaia.

Também há testemunhos da existência de amoreiras junto da Fonte da Moita.

Outrossim, em 1886, na vila da Barquinha, tínhamos uma Alameda de amoreiras, no Largo das Amoreiras, junto da Praça do Comércio, atual Praça da República.

Em 1863 o administrador do concelho vem informar o Governador Civil que não há qualquer produção de seda, nem de arroz, mas existe produção de nozes, amêndoas, cera, mel, vinho, aguardante, laranjas e limões. (12)

Já vimos que a árvore dominante era a oliveira e que a mesma faz parte do brasão da Vila.

A evidência do domínio desta árvore também se faz pelos relatos dos tanques de depósitos de azeite aqui presentes.

Sobre o grande número de tanques de depósito para armazenamento de azeite para depois ser carregado no porto da Barquinha e transportado por barco pelo rio Tejo até Lisboa posso afirmar que o movimento era enorme. Nas transações comercias revela-se a abundância de tanques de azeite que ainda hoje aqui se encontram, “a Barquinha era á borda do Tejo a povoação que mais depósitos possuía para aquele género.” Conforme defende este autor, (CHAGAS, 1878). Em 1816 há um aviso no Diário do Governo que “José Lopes Sampaio, no lugar da Barquinha, está autorizado para mostrar umas casas com armazém de azeites, e tanques de pedra, celeiro para pães e mais acomodações, sitas no mesmo lugar, as quais vende Bento Gonçalves Branco, em Lisboa, na calçada do Marquês de Abrantes, n.º 30 …”(13) Há outros exemplos retirados do mesmo Diário do Governo. (14) Uma arrematação de “duas propriedades urbanas na Vila da Barquinha, sendo uma delas uma casa nobre, com grandes armazéns contendo muitos tanques de pedra para um avultado depósito de azeite” e outra arrematação de “uma propriedade de casas pequenas com quatro tanques para azeite, sita na travessa do Neves, na Vila da Barquinha, livre de foro”.

Estes exemplos são a prova da dinâmica comercial que o azeite tinha no porto da Barquinha.

Não é por acaso que em 1959, seria aqui construído o armazém regulador n.º 3, do Instituto Nacional de Intervenção e Garantia Agrícola (INGA), com capacidade para 6. 000.000 litros, junto da estação de caminho de ferro desta Vila da Barquinha e frente à Praça de Toiros. (15)

Conta-se que em 1961 a rede de armazéns de azeite em Portugal era constituída por 4 unidades territoriais situadas em Lisboa (3 milhões de litros), Évora (5 milhões de litros), Vila Nova da Barquinha (6 milhões de litros) e Porto (3 milhões de litros). (16)

FONTES

(1) Ofício n. 4, de 7/1/1854, 102 de 29/12/1854 e 6 de 15/1/1855  –  Livro de atas da Correspondência enviada ao Governado Civil. 1854 a 1857

(2) Ofício n. 112, de 17/11/1855. Livro de atas da Correspondência enviada ao Governado Civil. 1854 a 1857

(3) Ofício n.º 27, de 7/3/1858. Livro de atas da Correspondência ao Governador Civil. 1854 a 1857

(4) Edital, 14 de abril de 1831. CONSELHO DA FAZENDA, Livro 1831 – 1ºSem

(5) Ofício n. 75, de 18/11/1857. Livro de atas da Correspondência enviada ao Governado Civil. 1854 a 1857

(6) Ofício n.º 30, de 16/6/1857. Livro de atas da Correspondência ao Governador Civil. 1854 a 1857

(7) MARTINS, José Manuel Pereira. Os valadores de Riachos. Núcleo de Estudos do Museu Agrícola de Riachos (NEstMAR). 2022

(8)  VALENTE, Adelina – Apontamentos sobre o uso das madeiras em Portugal no século XVIII. Revista de Artes Decorativas, n.º 1 (2007), p. 231

(9) FREITAS, José Maria. Questões praticas de direito civil e commercial ou Collecção de casos julgados. 1894

(10) CLARA, Vaz Pinto, MONTEIRO, João Pedro. Colchas de Castelo Branco. Ed. Silvip, ociedade Gestora do Fundo de Valores e Investimentos Prediais. 1993

(11) Oficio n.º 78 de 3/8/1855. Livro de atas da Correspondência enviada ao Governador Civil. 1854 a 1857

(12) Ofício de 13/5/1863 e 30/7/1863 – Livro de actas da Correspondência enviada ao Governador Civil, 1857 a 1863

(13) Gazeta de Lisboa, n.º 154, 1 de julho de 1816

(14)  Diário do Governo, n.º 271, de 15/11/1848 e Diário do Governo, n.º 157, de 7/7/1859

(15)  Plano de Fomento para 1959-1964 – Presidência do Conselho · 1959

(16)  L’effort de développement économique portugais : (le deuxième plan de mise en valeur). Secretariado Nacional da Informação. Lisboa. 1961

Fernando Freire, advogado de formação, é investigador da História Local e presidiu à Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha entre 2013 e 2025.

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1 Comment

  1. Mais uma maravilha de crónica sobre o concelho de Vila Nova da Barquinha ,na minha opinião, há uma curiosidade bastante interessante:
    A produção de arroz no concelho!

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