Entre batas e corredores, o Natal volta a sorrir no Hospital de Abrantes. Foto: Bi-Dom Academia Criativa

Na véspera de Natal, quando os corredores do Hospital de Abrantes costumam mergulhar num silêncio pesado, um riso inesperado ecoa por portas entreabertas. É o Pai Natal, seguido por duendes, figuras coloridas e corações de balão, que chega para lembrar que, mesmo ali, a magia não fica à porta. É assim, há mais de uma década, que o “Projeto no Hospital”, Bi-Dom – Academia Criativa, transforma a tarde de 24 de dezembro num momento de luz para quem passa a quadra internado.

A iniciativa nasceu em 2013, não como plano, mas como impulso do coração. Naquele ano, a recém-criada Academia Bi-Dom animava as ruas do centro histórico. O grupo, ligado às artes e habituado a criar personagens festivas, dinamizava ações de animação em pleno centro histórico da cidade. Entre fatos improvisados, decidiu visitar a Santa Casa da Misericórdia. A experiência marcou-os profundamente.

“Quando viemos fazer a visita à Misericórdia, que nos tocou muito, pensámos em ir ao hospital no dia 24, que é o dia que ninguém quer ir ao hospital”, recorda Mauro Moura, rosto da iniciativa. Perceberam então que, para muitos doentes, aquele seria um dia passado sem visitas e foi exatamente esse silêncio e vazio que os levou a agir em espírito solidário e de amor ao próximo.

Foto: Bi-Dom Academia Criativa

Ainda que sem um autorização prévia, deslocaram-se até ao Hospital de Abrantes. “Ao início nem nos queriam deixar entrar, mas como nós já lá estávamos e perceberam que ia ser benéfico, abriram-nos as portas”, diz, entre risos. No ano seguinte, o hospital pediu apenas uma carta para avisar os seguranças. Estava criada a tradição.

O projeto foi ganhando dimensão: mais voluntários, fatos mais detalhados, maior organização. Hoje, a Bi-Dom mantém oito fatos de Pai Natal e personagens diversas, embora todos se lembrem dos primeiros anos, feitos de “sweats e fatos de palhaço”.

ÁUDIO | Mauro Moura, da Academia Bi-Dom

As participações variam, mas nunca faltam braços abertos e vontade de ajudar o próximo. “As pessoas que vão são voluntárias. Às vezes amigos, conhecidos, pessoas que nos dizem na rua: ‘Gostava um dia de fazer essa visita’. É assim que tem funcionado”, explica Mauro.

“Eu vou à visita do hospital e não sei se mais alguém já me confirmou. Todas as pessoas que trabalham comigo têm família, têm filhos. Mas normalmente conseguimos ir quatro, cinco ou seis”, acrescentou.

Foto: Bi-Dom Academia Criativa

O impacto nos doentes é imediato. “A maior parte das pessoas mais velhas só conhecia o Menino Jesus, mas adoram o Pai Natal. Fazem piadas, querem tirar fotos, quase que agem como se não estivessem no hospital”, descreve Mauro.

O grupo percorre corredores, entra em quartos, distribui alegria, música e presença e sobretudo balões em forma de coração, que se tornaram um dos símbolos mais fortes da visita.

“Um balão é uma coisa quase que não tem valor… mas ali não é apenas um balão”, sublinha Mauro. “Vemos pessoas agarradas a um balão como se fosse um familiar. Falam com o balão. É tudo aquilo que lhes falta naquele momento. É bastante tocante.”

A academia conta também com o apoio de empresas e de particulares, que cedem pequenos brindes para depois serem distribuídos pelos doentes durante a visita. Na quadra natalícia, aquilo que parece simples ganha especial importância dentro das paredes do hospital.

Mauro Moura. Foto: mediotejo.net

O grupo vive estes episódios com intensidade. Entre quartos, há quem tenha de se recompor, respirar fundo, limpar lágrimas e seguir. Porque a emoção toca os doentes, mas também quem leva a animação. “Às vezes é tocante… há muitas pessoas que choram. Não é fácil, mas alguém tem de fazer esse trabalho”, afirma.

Ao longo do ano, a Academia Bi-Dom realiza diversas animações em escolas, empresas, eventos e festas. Todas são remuneradas, menos esta. Trata-se do único projeto totalmente voluntário da associação e é também aquele para o qual nunca faltam mãos.

Foto: Bi-Dom Academia Criativa

Porque, como admite Mauro, o retorno não se mede em “cachets”: mede-se nos sorrisos que se abrem onde se espera dor, na alegria inesperada, na mão que aperta um balão como quem segura companhia.

Depois de mais de dez anos, o “Projeto no Hospital” é mais do que uma visita: é um ritual que Abrantes reconhece, um momento aguardado no hospital e um exemplo do valor da presença humana em contextos de fragilidade.

Esta terça-feira, dia 24 de dezembro, quando quase ninguém quer estar no hospital, há quem repita a tradição e vá por escolha levar cor, alegria e afeto. Porque a magia do Natal, ali, é tão necessária quanto rara e porque basta um balão em forma de coração para que tudo mude, nem que seja por uns minutos.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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