Encontro de pais reuniu mais de meia centena de encarregados de educação, Câmara e junta de freguesia. A iniciativa é independente dos colégios Foto: mediotejo.net

Cerca de meia centena de pais dos alunos dos três colégios de Fátima reuniram-se na segunda-feira, 16 de julho, na junta de freguesia de Fátima para discutir o futuro da luta pelo aumento de vagas nas escolas com contrato de associação da cidade. A convocatória partiu da Associação de Pais dos alunos do Colégio de São Miguel, mas foi independente da instituição e quer manter-se afastada desta, criando-se um grupo de pais para continuar a lutar pela sobrevivência do modelo de ensino que há 40 anos vigora na localidade.

Há 100 anos a Cova da Iria não era mais que mato e pedra, terrenos perto da aldeia de Fátima por onde se pastavam rebanhos. Com o fenómeno religioso que aí surgiu, rapidamente apareceram hospedagens, lojas, instalaram-se instituições religiosas de raiz católica e foi construído um Santuário. Mas a sede do concelho permaneceu em Ourém, assim com as instituições de ensino públicas.

Na posterior vila e atual cidade de Fátima surgiu um ensino privado ligado aos seminários, a um instituto francês dedicado ao ensino de raparigas e à própria diocese de Leiria, que a dado momento, face ao crescimento acelerado da localidade, chegariam a acordo com o Governo para abrir as portas, de forma gratuita, à generalidade da população. Em síntese, assim se explica o surgimento do Centro de Estudos de Fátima, do Colégio do Sagrado Coração de Maria, e do Colégio de São Miguel, e a ausência de ensino público em Fátima para além do 1º ciclo.

Encontro contou também com a Câmara de Ourém e a Junta de Freguesia de Fátima Foto: mediotejo.net

Com grande popularidade no concelho de Ourém, atraindo inclusive alunos dos concelhos limítrofes de Leiria, Batalha ou Alcanena, as escolas foram crescendo com a própria cidade. Nos últimos anos porém, a diminuição geral de crianças e as novas políticas educativas têm vindo a cortar as vagas nestas escolas. No rescaldo do polémico debate entre ensino cooperativo e ensino público, a sociedade civil e a comunidade política continuam a alertar para o caso específico de Fátima, uma cidade em crescimento que não possui alternativa e cuja oferta pública se encontra a mais de 10 quilómetros, em Ourém.

Depois de manifestações, de apelos escritos, de reuniões no Ministério da Educação, de moções políticas e outras tentativas legais do movimento das escolas privadas, os critérios para o ano 2018/2019 vieram concretizar nova redução de turmas.

Segundo explicou a presidente da Associação de Pais dos alunos do Colégio de São Miguel, Paula Abreu, quando a equipa se formou em outubro de 2017 tornou a abordar o Governo sobre o caso específico de Fátima, mantendo sempre uma atitude discreta e de diálogo, entregando um documento com argumentos e testemunhos.

Depois da mediatização de outros anos, optou-se por uma abordagem nos bastidores. “Falámos diretamente com o Presidente da República numa das duas deslocações a Fátima”, adiantou, para além do contacto com os deputados do distrito e outras entidades. “Estamos aqui porque o nosso trabalho saiu gorado. Estamos impotentes”, afirmou.

A proposta da associação aos pais presentes foi criar um grupo independente, composto por pais de alunos dos três colégios, por forma a avançar-se com nova estratégia para reivindicar mais vagas nos colégios. Os novos critérios de acesso dão prioridade aos alunos com necessidades especiais e à ação social e só depois a residentes e filhos de pessoas que trabalhem em Fátima.

Conforme seria frisado, o problema não são os critérios mas o facto de não haver vagas suficientes para os próprios residentes de Fátima, com a ironia de se aceitarem estudantes de fora e até das freguesias anexas, já de Leiria. As três escolas terão sete turmas de 5º ano, seis turmas de 7º ano e cinco turmas de 10º ano.

O grupo de pais acabaria por constituir-se com três pais, havendo representação dos três colégios. O debate no entanto não gerou consenso quanto à estratégia a adotar, uma vez que já foi tentado um pouco de tudo pela causa e esta parece embater inevitavelmente, constatou-se, ou no preconceito ideológico ou na retirada de liberdade de escolha aos pais quanto à escola onde querem os filhos.

“A opinião pública não aceita a nossa posição. A opinião pública está contra nós”, comentaria um dos pais presentes.

Secretária de Estado pediu lista nominal dos alunos sem vaga

O executivo municipal de Ourém reuniu entretanto com a Secretária de Estado da Educação, que solicitou uma lista nominal dos alunos de Fátima que ficam sem vaga. Presente na reunião de pais, o vice-presidente da Câmara, Natálio Reis, reconheceu que o encontro com a governante “não correu muito bem, não foi muito sensível aos problemas que lhe comunicámos”, mas que haverá novos encontros.

O autarca deixaria assim um apelo a que se criassem associações de pais nos restantes colégios. “As associações têm força e temos que tirar partido dessa força”, defendeu, “temos que ser pais indignados”. “Temos direito à educação pública, seja ela ensino público ou com contrato de associação”.

Da parte da junta de freguesia de Fátima, o presidente Humberto Silva apoiou a ideia deixada de se criar uma petição para enviar ao Governo, disponibilizando também os meios para se avançar com os serviços de um advogado caso se opte pela via legal.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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