Montagem do tapete começa na madruga do domingo das festas de São João e estende-se até cerca do meio dia Foto: mediotejo.net

Na madrugada do domingo em que se realiza a procissão das festas a São João Batista, a comunidade de Lomba d’Égua, um bairro da cidade de Fátima, reúne-se para criar um elemento original, único entre os eventos similares no concelho de Ourém, frente à capela local. Há cerca de 15 anos que as festas populares desta data são acompanhadas pela elaboração de um grande tapete floral, uma ideia que partiu de um adolescente e que ganhou tradição. Hoje já ninguém imagina o fim de semana sem o ponto alto do tapete de flores.

Perto da meia-noite de sábado, dia 23, o calor trazia o povo à rua e a música e convívio prolongavam-se nas festas de São João de Lomba d’Égua. A capela já estava devidamente enfeitada, as pétalas de flores (apanhadas no campo ou compradas) preparadas e aguardava-se apenas alguma dispersão para começar o trabalho maior no adro. Primeiro fez-se o desenho do tapete, diretamente na calçada, e cerca das 03h00 começou a montar-se o quadro florido.

Tapete floral faz-se madrugada dentro com a ajuda de vários voluntários Foto: mediotejo.net

Pelas 08h00 de domingo, dia 24, o grupo de uma dezena de voluntários não escondia o cansaço da direta. “Está bonito, está muito bonito”, comentava quem passava. “Está é atrasado”, lamentava quem colocava, cuidadosamente, as pétalas de flores, seguindo as linhas paralelas desenhadas no chão.

No centro, uma boca aberta em cartão dava o mote a este “grito de São João Batista” multicolor, que se espalhava em círculos, gradualmente, pelo adro da capela e seguia, por meio de um tapete de relva, até ao altar. Não foi esquecida ainda uma homenagem aos 450 anos da paróquia de Fátima.

Os tapetes florais começaram há cerca de 15 anos pela mente criativa de um, então, adolescente: Filipe Pereira. Inspirado pelos tapetes florais de Vila do Conde e um apaixonado pelas festas populares locais, propôs realizar em Lomba d’Égua esse desafio. A ideia, recordou ao mediotejo.net, foi recebida inicialmente com ceticismo, mas o jovem conseguiu concretizar o projeto. Nos primeiros anos com flores em papel e num formato mais pequeno, depois o ambicionado salto para as flores reais que cativou para sempre a população.

Recordaram-se também os 450 anos da Paróquia de Fátima Foto: mediotejo.net

Desde então que, todos os anos, o tapete se concretiza. Começando pela ripagem inicial, alguns dias antes das festas, passando por uma primeira noite em que se enfeita a capela e terminando na madrugada seguinte, entre sábado e domingo, em que se monta o tapete floral. O desenho e a coordenação continuam a ser de Filipe Pereira, hoje com 32 anos, mas o projeto já move um grande número de voluntários, que ajudam na preparação de flores e montagem.

“Duas mil gilberas, duas mil rosas, muitos pampilhos”, Filipe Pereira não conseguia contabilizar a quantidade de flores envolvidas. A temática do tapete envolve sempre o São João ou o ano pastoral. Este ano o “grito de São João Batista” pretendeu lembrar a voz que dizia “Preparai o caminho do Senhor”, explicou.”É um símbolo, ele é a voz para chegarmos a Cristo, daí também o caminho de relva até ao altar”.

Filipe é quem coordena, mas salienta o trabalho de todos os que, ano após ano, se envolvem noite dentro na construção do tapete. Auzenda Prazeres participa há 12 anos, desde o dia em que foi convidada a ajudar no projeto, explicando que gosta de fazer este trabalho. “As pessoas vêm de propósito ver, acham bonito”, constata, comentando que por ali haviam passado inclusive turistas, atraídos pela música das festas. “É algo diferente e que não existe nas festas desta região”, afirma.

Tapete floral de Lomba d’Égua concluído Foto: Lomba d’Égua – Comunidade São João Batista

“As festas sem o tapete de flores, dizem, já não são as mesmas”, comenta por seu lado Pedro Crespim, que participa na montagem há cinco anos. Para o morador, o tapete floral tornou-se um “marco” em Lomba d’Égua. Participa “por carolice, por amor à camisola”, referindo que a madrugada se vive entre brincadeiras e café.

Juntamente com o tapete floral, a equipa deste ano montou ainda uma homenagem aos 450 anos da Paróquia de Fátima.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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