O tema da prisão dos pastorinhos de Fátima na antiga cadeia de Ourém, situada no edifício clássico dos Paços do Concelho, tornou a levantar celeuma na reunião camarária de 5 de maio, sexta-feira. Para o historiador e vereador da coligação PSD-CDS, José Poças das Neves, não há dúvidas: “não há uma única menção à prisão dos pastorinhos. Uma única”.
A Câmara Municipal de Ourém pretende inaugurar em setembro um espaço museológico que retrata a estadia dos pastorinhos na cidade sede do concelho. Mas os factos não parecem ser assim tão claros, apesar das memórias da Irmã Lúcia o atestarem: estiveram na prisão ou na Casa do Administrador?
“Não há uma única menção à prisão dos pastorinhos. Uma única”, defendeu o historiador e investigador José Poças das Neves durante a reunião. O fatimense eleito nas listas das Coligação Ourém Sempre (PPD/PSD-CDS-PP) recusa a ideia de que terá havido “prisão dos pastorinhos” e, a propósito da sinalética do futuro museu, trouxe o assunto a reunião de Câmara. “Não aceito é que haja uma sinalética lá dentro a dizer que «estiveram presos aqui»”.
O vereador da oposição, cuja dissertação de mestrado teve como tema “A situação político-religiosa de Ourém durante a 1ª República” assinalou que ” entre todos os dados, escritos e interrogatórios de 1917, não há nenhum que diga que elas estiveram presas”. Poças das Neves socorreu-se de bibliografia vária como a “Documentação Crítica de Fátima”, bem como o testemunho do próprio “irmão do Francisco e da Jacinta que foi falar com eles em casa do Administrador onde estiveram” para garantir que não houve privação de liberdade.
No entender do investigador, que apresentará uma conferência no colóquio comemorativo dos 100 anos das Aparições de Fátima “Fátima, História e Memória” (que decorrerá em Lisboa a 26 de Maio, e em Fátima no dia seguinte), as indicações existentes referem que as três crianças estiveram na casa do Administrador. “Se quisermos considerar prisão, elas estiveram efectivamente fechadas dois dias num quarto sem janelas”. Ali “a diversão delas era andar aos saltos no colchão com molas”.
Poças das Neves foi mais longe e lembrou que “foi o próprio administrador que veio trazer as crianças a Fátima”. Entre os argumentos apontou que “é impossível estarem presas numa prisão homens e mulheres” e “nessa altura, a prisão estava em obras. Os presos eram sete e nem sequer cá estavam, estavam na Velha Ourém”.
O historiador reforçou ainda a ideia de que “não se brinca com coisas científicas”, considerando que “aquilo que se passou em Fátima é demasiado importante para, com as rectificações que estão a ser feitas, se precisar de se acrescentar coisas que não existiram”.
O presidente da Câmara de Ourém, Paulo Fonseca (PS) disse não compreender a celeuma e reivindicou para si um contributo para reabilitar a imagem do administrador Artur de Oliveira Santos, já no seu mandato, “a propósito do Centenário da República, em 5 de Outubro de 2010”.
Além da inauguração de uma estátua em frente à Casa do Administrador, do artista Roberto Chichorro, houve uma exposição fotográfica alusiva. A família – recorda o edil – “ficou contente com a atitude e doou uma boa parte do espólio ao Município”.
