Tocheiro é o local mais crítico em termos de ajuntamento de pessoas no Santuário de Fátima. Foto arquivo: mediotejo.net

Os últimas dias de feriado foram de forte afluência ao Santuário de Fátima (Ourém) com pequenos grupos a chegar a pé à Cova da Iria e a fila do tocheiro a atingir vários metros, contornando o recinto. Na sexta-feira à noite e este sábado, dias 12 e 13, celebra-se mais uma peregrinação aniversária, este ano com o centenário da escultura original de Nossa Senhora. Não obstante a data, o Santuário de Fátima não espera uma enchente significativa. O Reitor, Padre Carlos Cabecinhas, avisa que, se o número de peregrinos não permitir o distanciamento social, o recinto poderá ser encerrado.

Os coletes amarelos denunciam-nos: são peregrinos. Dois homens caminham lado a lado, em passo acelerado, com velas nas mãos e máscara no rosto, até à fila do tocheiro. Acabam de chegar de Aveiro, de onde saíram na quarta-feira. Estão cansados, as pernas pesam, e preferem não dar entrevistas. Vieram ao santuário colocar as suas velas, dar por cumpridas as respetivas promessas, e querem ir rapidamente para o hotel tomar duche e descansar. Esta noite decorre a primeira parte da celebração aniversária de junho e a noite será longa.

Este 13 de junho celebra-se o centenário da chegada da escultura original de Nossa Senhora. 12 de junho de 2020 Foto: mediotejo.net

Na sexta-feira, dia 12, o recinto está mais vazio que nos dias anteriores, ambos feriados, mas o tocheiro torna a formar uma longa fila. As medidas de distanciamento social não permitem que estejam mais que algumas pessoas junto das velas, o que facilmente se traduz em largas de dezenas de pessoas em espera. Nem mesmo a chuva parece desmobilizar os crentes.

Maria da Conceição, chegada da Lixa, Felgueiras, traz um ramo de rosas brancas. De máscara, afirma não temer ali o contágio. “Vim ontem e ficamos até domingo. Não vim em maio, pelo que decidimos vir agora. Viemos cumprir uma promessa, para que Nossa Senhora nos livre deste vírus”, refere, explicando que várias pessoas na família sofrem de problemas pulmonares, pelo que a pandemia tem sido uma fonte de preocupações. Serenamente, vai aguardando a sua vez, mesmo quando cai uma forte chuvada. “Vale tudo a pena” para poder estar junto de Nossa Senhora, afirma.

Com várias velas de metro e meio, Heloísa Sousa, de Vila Nova de Gaia, também aguardava a sua vez para aceder ao tocheiro. De máscara, admite que o ajuntamento a aflige. “Viemos cumprir uma promessa de antes da pandemia”, adianta, regressando a casa ainda na sexta-feira. Sabe que será possível ver a escultura de Nossa Senhora de perto no sábado, dia 13, iniciativa que visa celebrar este centenário, mas não vai ficar para o fim de semana.

Pelo Santuário vêem-se muitas famílias e imensas crianças. Nos caminhos de acesso os peregrinos voltaram a calcorrear a pé as bermas nacionais até a Fátima, mas em números muito mais reduzidos, de duas a três pessoas. Em princípio, não se vai verificar em junho o 13 de maio que este ano não ocorreu devido à pandemia de Covid-19.

O ponto crítico tem sido junto ao tocheiro. As regras limitam o acesso e a fila facilmente tem atingindo largos metros. “Preocupamo-nos porque os peregrinos têm de esperar muito tempo para acender as suas velas, mas não temos solução. Por outro lado, revela-nos a enorme responsabilidade dos peregrinos, que esperam pacientemente não cortando os espaços de distanciamento que têm de observar”, comentou a respeito o Padre Carlos Cabecinhas à comunicação social.

Mesmo o 13 de junho ocorrendo a um sábado, o Reitor não se mostrou preocupado. “Não me parece expectável uma grande enchente. Parece-nos expectável que esteja um grupo relativamente grande de peregrinos”, disse.

Segundo o padre, o recinto de oração é um espaço “amplo” e por isso não está definido um máximo de lotação, nem está prevista a utilização de qualquer utilização de instrumentos de contagem de pessoas, à semelhança do que sucede nas praias.

“Não temos instrumentos desse género nem pretendemos implementá-los. Aquilo que procuramos fazer é ir verificando a afluência de peregrinos. Caso tenhamos, em algum momento, a perceção de que o Santuário começa a estar no limite da sua capacidade no respeito pelo distanciamento teremos necessariamente de isolar e fechar o recinto”, alertou Carlos Cabecinhas.

O reitor sublinhou que o Santuário tem a situação “organizada e articulada” para avançar com essa medida, caso seja necessário. “Até ao momento não foi necessário, pois ficámos sempre aquém da capacidade daquilo que é a capacidade de um espaço tão vasto como é esta larga esplanada do recinto de oração.”

Carlos Cabecinhas admitiu que, num primeiro momento, após a reabertura das missas presenciais, esperava mais peregrinos. “Notámos que havia alguma prudência e receio nesse desconfinamento. Mas, progressivamente fomos notando que as pessoas começaram a vir e com mais confiança. Neste momento, o número de pessoas que tem vindo está de acordo com as nossas expectativas”, constatou.

O reitor lembrou ainda que “esta peregrinação de junho é sempre uma peregrinação com poucos peregrinos”.

“Aqui temos uma conjugação do 12 e 13, que correspondem a uma sexta à noite e a um sábado de manhã, o que pode trazer mais peregrinos do que é habitual. Temos, por outro lado, o facto de muitas pessoas que não puderam vir em maio, virem agora”, referiu ainda.

Carlos Cabecinhas insistiu na necessidade de garantir o distanciamento físico e aplaude a atitude dos peregrinos, que têm mostrado responsabilidade ao usarem máscara para sua proteção e dos outros.

O uso de máscara só é obrigatório em espaços fechados, mas peregrinos e turistas usam-na na mesma no recinto. Foto: mediotejo.net

“Apesar da insistência para o uso de máscara ser nos espaços fechados, de acordo com as diretrizes da Direção-Geral da Saúde, de um modo generalizado, os peregrinos usam máscara mesmo no espaço aberto. O peregrino de Fátima vem com confiança e sente-se corresponsável por si e pelos outros. O uso de máscara e o respeito pelo distanciamento mostra a responsabilidade do peregrino”, destacou também.

Sobre a peregrinação de agosto, aquela que mais gente costuma levar ao Santuário de Fátima, a seguir ao 12 e 13 de maio, Carlos Cabecinhas considerou ainda ser “prematuro projetar já essa peregrinação”.

“Não podemos ter a peregrinação de agosto que habitualmente tínhamos e creio que todos temos consciência disso. Por um lado, porque muitos dos potenciais peregrinos evitarão vir, tendo em conta esta necessidade de algum distanciamento e esta prudência de evitar ajuntamentos, por outro lado, é uma incógnita em relação aquilo que é a evolução da própria situação sanitária. Gostaríamos já de poder contar com o programa habitual da peregrinação de agosto, mas nem isso neste momento é certo”, lamentou o padre.

c/LUSA

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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