Domingos Viegas, coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, que elaborou o relatório sobre o incêndio de Pedrógão Grande, esteve em Fátima na quarta-feira, dia 21, para uma conferência sobre “Os Incêndios Florestais – um problema de cidadania”. Um misto de desleixo das populações e desorganização das instituições terão ditado, segundo o especialista, os desastres florestais de junho e outubro de 2017.
As mudanças na natureza e na sociedade estão a contribuir para agravar a problemática dos incêndios, começou por explicar Domingos Viegas, constatando de seguida que “2017 foi uma tragédia em dois atos”.
Num ano em que quase todas as ocorrências registadas foram de incêndios, o dispositivo de emergência chegou a um ponto que entrou em colapso. Houve dias, salientou o especialista, que se registaram entre 500 a 800 ocorrências. Mesmo com o melhoramento do sistema de proteção civil ao longo das décadas, evidenciou, se os incêndios atingirem determinada intensidade não há meios de combate que os consigam controlar.
“Falta o pilar da população”, defendeu Domingos Viegas. Não obstante existir um Sistema Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios (ICNF, ANPC e GNR), “é preciso colocar as pessoas no centro da solução”. “É tudo o resto que não seja Estado”, defendeu, desde empresas, autarquias, escolas, comunidade científica e mesmo as Igrejas.
2017 foi um ano muito seco, continuou a fazer calor depois do fim do verão, sendo que o dia que registou o valor mais alto de índice de perigo de incêndio foi precisamente o 15 de outubro. A 17 de junho, naquele que ficou conhecido como o incêndio de Pedrógão Grande, ocorreram na prática cinco incêndios. “Começaram com poucos minutos de diferença e as forças de combate dispersaram”, explicou Domingos Viegas.
Em concreto, o incêndio que ocorreu de Pedrógão Grande teve duas origens diferentes no terreno. “Em princípio pensou-se em trovoada”, admitiu o especialista, mas posteriormente concluiu-se que o fogo iniciara mais cedo. “A origem terá sido uma linha elétrica” que se encontrava a roçar o arvoredo, frisando que existem sinais evidentes desta situação.
“O foco de incêndio inicial encontrou-se às 18h00 com a trovoada e tornou-se incontrolável”, sendo que a dado instante os dois focos de incêndio chocaram.
“Fizeram um autêntico inferno”, com as pessoas a encontrarem chamas para onde quer que fugissem. Com as forças de combate dispersas devido ao número simultâneo de ocorrências, não houve a força de intervenção inicial necessária para evitar que o fogo atingisse aquela intensidade, matando 64 pessoas em poucos quilómetros.
Domingos Viegas esteve na “Estrada da Morte” logo no dia 18 de junho e acompanhou o levantamento dos corpos. A sua equipa percorreu a região nos meses seguintes. O arvoredo alto junto à estrada, com árvores a caírem com a força do vento para as vias, cortando o trânsito, esteve na causa dos acidentes. A falta de limpeza de terrenos, ou uma limpeza apenas parcial, foi o que permitiu que casas ardessem.
Chegados a outubro, os novos grandes incêndios “puseram em evidência muitas falhas no sistema de proteção, mas também da incúria das pessoas”, concluiu.
Posteriormente, já no debate, o especialista constataria que “houve muitas condições adversas e muitas coisas que falharam”: demasiados incêndios ao mesmo tempo, meios insuficientes e nem sempre pessoas qualificadas a chefiar. “Faltou capacidade de organização” nas instituições.
O responsável admitira também que “alguns fenómenos que ocorreram não os compreendemos”, nomeadamente as chamas que percorriam quilómetros pelo ar e que foram narradas pelas testemunhas. “Se calhar pode haver coisas mais terríveis que estas” no futuro.
Presente também na sessão, o Comandante dos Bombeiros de Fátima, Gaspar Reis, narrou a sua experiência com os incêndios do ano passado, lembrando que quando deflagrou o incêndio em Pedrógão Grande a corporação já estava há mais de 24 horas num incêndio em Ferreira do Zêzere. “Foi um nunca mais parar. Não havia concelho nenhum que não tivesse incêndios florestais”, com a viatura de combate a permanecer 12 dias fora de Fátima.
Em outubro, um incêndio entrou na freguesia e chegou a assustar os Bombeiros. “Nesse incêndio tinha quatro viaturas dos Bombeiros de Fátima em Tomar, inclusive o veículo de combate, porque me ligaram em desespero que estavam casas em perigo”, recordou. A situação acabaria por resolver-se, com a rápida reorganização dos meios. “Só com muito conhecimento, muito voluntariado, as coisas se vão resolvendo”, constatou.
Da parte da Cáritas Diocesana, Júlio Martins lembrou a onda de solidariedade que se gerou após os incêndios, ao ponto de já não haver sítio para guardar os bens oferecidos. A população chegou a entregar mobília e eletrodomésticos. A mesma observação foi feita por Tiago Ribeiro, dirigente do agrupamento de escuteiros de Fátima.
Esta iniciativa teve organização da Paróquia de Fátima e da Cáritas Paroquial de Fátima.
