Em 1878 o povoado localizado no extremo oriental da Barquinha continuava a ser denominado “a Barca”. Este pequeno lugar conservava as suas pretensões de povoação em separado da fluorescente Barquinha.
Conta-se que “um fio de água que corria no inverno, mas que no verão se enxuga ou seca, dois ou três pés de oliveira, e algumas piteiras que se desenvolvem entre as fendas dos pedregulhos graníticos sobre que se empoleiram as pobres, mas poéticas habitações da Barca, eis o que divide este bairro da restante Barquinha. Foram-se encaminhando uma para outra até se unirem e constituírem uma única povoação, onde ficou dominando o nome da Barquinha, por esta haver vencido em desenvolvimento e expansão urbanística a povoação da Barca, a sua irmã primogénita”.1
Foi neste local que brotou a Ermida de Santo António, já desaparecida, e onde estiveram presentes os primordiais cemitérios da Barquinha, também já extintos.
A ermida de Santo António.
Em 1624 os moradores de Barquinha alcançaram licença do Arcebispo de Lisboa para levantarem um altar na Ermida de Santo António, a nascente da vila, no local denominado “Barca”, podendo nele celebrar missa sem prejuízo do Prior de Atalaia, então concelho, e dos seus direitos paroquiais, sinal presuntivo de crescimento do novo aglomerado populacional em pessoas e em fé.
A ermida foi aberta ao culto, provavelmente, no dia 13 de junho de 1631, depois de ter recebido licença do Cabido da Sé Vacante, dada em 27 de maio desse ano. Isto alguns meses antes de ser eleito Arcebispo de Lisboa Dom João Manoel de Ataíde, filho do senhor das vilas da Atalaia, de Tancos (conforme podemos vislumbrar no seu brasão) e alcaide-mor de Marvão, que não chegará a tomar posse.2
A Ermida também é referida por Xavier da Cunha em 1878,3 referindo a existência da sacristia da Ermida onde, em 6 de dezembro de 1829, reuniram os irmãos da irmandade de S. Miguel e das Almas,4 que escolheram o chão da Ermida para servir de cemitério. Em 1830 achavam-se feitas 75 sepulturas na ermida de St. º António. Em 1831, eram sepultados 5 fora da ermida (adro) e em 1835 deixam de se sepultar corpos dentro da Ermida ex-vi do Decreto de 21 de setembro de 1835 que proibia os enterramentos dentro de igrejas e nos seus adros, por ser muito prejudicial à saúde pública. Reiteradamente o Administrador do Concelho era alertado pelo Governador Civil para este problema sanitário. Existiam os cemitérios das 4 freguesias, havia que estar vigilante! Os mortos só podiam ser sepultados após 24 horas, com exceção dos que estivessem em putrefação. Através de oficio o Administrador do Concelho informa que os Regedores e Párocos já estão bem-avisados.5
Onde se localizava a velha Ermida de Santo António?
Numa planta de expropriação dos caminhos de ferro de 1861,6 podemos vislumbrar a relação dos proprietários expropriados bem como o mapa e locais para onde se encontrava projetada a linha de caminho de ferro do Leste e a localização precisa da Ermida de Santo António. Esta encontrava-se implementada no sentido sul norte, com a sacristia na lateral poente, e confinante com caminhos públicos e com o denominado caminho da Roda. Era um edifício muito similar à capela de NS Remédios da Moita. Mais a nascente, e confinante com a Ermida, tínhamos um cemitério, quase o dobro de outro que estava mais abaixo da Ermida e que quase circunscrevia com a estrada real que corria de Barquinha a Abrantes.
A Ermida de S. António arruinada seria atravessada, em 1960, pela Estrada Nacional n.º 3 que eliminou todos os vestígios presentes no solo.
À data do relatório (CUNHA, 1878) ficamos a saber que a “Ermida está por pouco a desabar”. Os atos litúrgicos, em consequência da eminência da sua derrocada, foram deslocalizados para a novel Igreja Matriz da Barquinha, no centro da vila, que teve vários obstáculos ou contrariedades até ficar apta a receber o culto religioso e o conforto dos crentes.
A Igreja Matriz de Santo António.
A Igreja Matriz foi construída por subscrição dos paroquianos e auxílio do Reino. A Barquinha em meados do Séc. XIX estava em franca expansão, quer comercial quer populacional pelo que importava edificar uma Igreja que pudesse acolher condignamente todos os fiéis.
Antes da construção da Igreja Matriz só existiam a Capela de Santo António, junto da Barca, e a Capela do Reclamador, no termo da vila.
Ermida de NS do Reclamador
Orçamentada a obra da Igreja Matriz de Santo António em 500$00 réis, naquele tempo, decidiram os crentes pôr-se a caminho através de uma petição ao príncipe Regente D. João, por impedimento da provisório da Rainha D. Maria I, que se encontrava enferma. O pedido continha os seguintes fundamentos: “Só temos duas pequenas e antigas Ermidas, uma no fim do lugar em sítio bastante eminente, e outra fora dele; as quais sendo talvez bastantes para os moradores da primitiva povoação pudessem ouvir missa, não são hoje suficientes nem para esse fim, nem para as festividades que, atraem maior concurso de gente, e que estado atualmente e em grande aumento a povoação, se faz indispensável edificar uma Igreja, no centro do mesmo lugar, e no sítio mais oportuno, para evitar que muitas pessoas por moléstias, e outros por velhice, deixarem de ir à missa, em razão de não poderem vencer as distâncias da situação daquelas Ermidas, sem contemplação destas circunstâncias”.7
A petição foi deferida em 16 de junho de 1801 e iniciou-se um longo caminho, de 73 anos (!) até à sua conclusão.
Primeiro vieram as invasões francesas, a vila e o país destruído e a consertar de todo o estrago material e espiritual superveniente.
Em 1819 achavam-se as obras quietas. Não andavam nem desandavam. Nova petição do povo da Barquinha a D. João VI, com os seguintes argumentos “Acham-se orçados em dois contos setecentos e oitenta réis, as obras da Igreja, na parte que só respeita à conclusão da Capela Mor, com os suplicantes por ora se contentam, reconhecendo não haver no cofre atualmente dinheiro para maior despesa”.
Então, por provisão de 11 de outubro de 1819 o Rei suspende a remessa dos sobejos das sisas das Vila de Tancos, Atalaia e anexas, à data entregues ao Cofre da Ponte de Coimbra, para serem desviadas para a dita Capela mor da Igreja Matriz da Barquinha.
Migalhas também são pão …
A nova Igreja vai crescendo em obras e crentes entre os anos de 1842 a 1850.
Em 1856 é pedida a madeira de castanho e de carvalho das matas nacionais de Ferreira do Zêzere para empregar na Igreja Matriz com os fundamentos, reiterados, que urge concluir a obra no centro da vila pelo aumento da população da Barquinha.8
Em 1859 a Igreja Matriz é assaltada.9 Para além do furto das velas, tochas, tiraram à imagem da NS da Saúde um manto de cetim azul claro bordado com renda dourada por meias luas, brincos de prata no valor de 6000 réis, na imagem do Senhor Jesus tiraram o resplendor de prata, o mesmo para o Santo António e NS Soledade. Ou seja, prejuízos significativos para uma comunidade já paupérrima e com dificuldades de receber fundos da Fazenda do Reino.
Só no ano de 1873 surge a torre, a escadaria de acesso à igreja, os rebocos exteriores e os remates do telhado. Obras que se computaram em 600$919 réis.
Para recordar a obra nova os nossos antepassados colocaram à entrada da igreja uma inscrição com o ano de 1874, em pedra rolada da época, com um perfeito traçado que deverá ser a data da sua abertura aos crentes embora nessa data ainda não se encontrasse completamente concluída, pois (CUNHA, 1878), refere na sua obra, que é objetivo do povo da Barquinha concluir a igreja matriz.
António Roldão10 defendia que antes de 1874 já se praticavam atos litúrgicos ainda antes da sua inauguração, data precisa que nunca conseguiu apurar. Porém, seguramente, pela leitura da comunicação ao Governado Civil ficamos cientes que a data de abertura ao culto deverá ser num domingo, ou dia 12 ou 19 de novembro de 1854, pois havendo eleições municipais haveria que acertar um domingo concreto para estas eleições na Barquinha, uma vez que “… é preciso procurar um domingo que não tenha afazeres … há a mudança da Igreja velha para a Igreja nova …”11
A Igreja matriz, mais recentemente, sofreu obras de manutenção no ano de 1987, conservação do seu forro (teto) e pinturas de madeiras e interiores.12
Arrolamento dos bens culturais da paróquia de S. António e sua devolução.
Com a implantação da República aprovou-se a Lei da separação da Igreja e do Estado. Proibiu-se o ensino religioso nas escolas públicas. Foram expulsas as ordens religiosas e procedeu-se à nacionalização dos bens da Igreja e mais tarde repristinou-se tudo isto.
Eis um breve resumo da nacionalização dos bens da Igreja e da sua reversão para a paróquia da Barquinha
No dia 25 de agosto de 1911 foi feito o auto arrolamento de todos os bens móveis, imóveis, paramentos, alfaias e objetos de culto.13 Para além de ficarmos a saber que a Igreja possuía pequeno número de oliveiras no Outeiro Redondo, Cardal, Cerrado, Quinta da Lameira, Lameira, Feiteira, Vale de Marcos, junto da linha férrea do Leste, Entroncamento, Paul, Colmeiro, Roque Amador, Vale, aterro da Estrada da Roda, dentro do Cemitério velho e na Vila da Barquinha, ficamos a saber que os paramentos em uso, as alfaias e objetos de culto em madeira, pano ou tecido e metais nobres que existiam.
Vislumbramos 8 coroas de prata de pequena dimensão, e as imagens que faziam parte da Igreja eram: São Miguel, S. António, NS do Carmo, NS do Loreto, S. Sebastião, NS Saúde, Senhor Jesus dos Navegantes (Jesus na coluna), e um quadro de S. António. Na capela de NS. Do Reclamador uma imagem de NS da Conceição, existindo algumas dissemelhanças com as imagens que constam do auto de 1938.
Um edifício construído de pedra e cal destinado a Igreja Matriz com as suas dependências, sacristia e adro, a confrontar a sul com a estrada distrital n.º 129 que passava em frente da Igreja Matriz. A estrada nacional EN3, só foi construída mais tarde, em 1960.
Todos os bens seriam devolvidos à corporação encarregada do culto católico na freguesia de Vila Nova da Barquinha, em 1928, conforme Portaria n.º 5247.14
A imagem de NS Loreto foi referenciada em 1860. Há um pedido a El Rei, a construção de um Hospital público com a invocação de NS do Loreto, imagem que se acha na Ermida de Santo António pois as duas misericórdias, a da Atalaia e da Tancos, não tem recursos financeiros pelo que os pobres e os enfermos possam ser assistidos deslocam-se a Torres Novas ou a Lisboa.15
A ausência de clero para as celebrações na paróquia de S. António, desde a implementação da República, é confirmada com o pedido, em 31 de agosto de 1916, da reabertura ao culto da igreja paroquial da freguesia de Barquinha, concelho de Vila Nova da Barquinha, com informação do pároco respetivo ter abandonado a freguesia desde 10 de novembro de 1911 e, desde então, o arquivo daquela paróquia se encontrar na Repartição Registo Civil daquele concelho, bem como o arquivo.16
Em 1927 é feito um novo arrolamento e entrega de bens à corporação encarregada do culto católico, ao abrigo do Decreto-lei n.º 11887, de 6 de julho de 1926, nomeadamente a Igreja Paroquial (matriz) e a Capela de NS Reclamador, com suas dependências, móveis, paramentos, alfaias, vasos sagrados e imagens.
Em 7 de fevereiro de 1928 há um auto de inventário adicional com as imagens de Menino Jesus (novo), S. Miguel, S. António, Senhor dos Navegantes, NS Boa Viagem, NS Loreto e, outro Menino Jesus.
Pelo auto de inventário de 19 de novembro 1938 ficamos a saber que existiam entre outros, os seguintes bens: na capela-mor no lado do evangelho há uma imagem Santo António, orago da freguesia, depois estão presentes as imagens de: S. Sebastião, de Nossa Sr.ª do Loreto, Senhora da Boa Viagem, São Miguel, Senhora das Dores, Senhor Jesus dos Navegantes, Senhora da Soledade e Nossa Senhora dos Anjos e num auto de arrolamento de 21 novembro de 1942 é incluído um terreno de olival em volta da capela de Roque Amador
Imagem de N. Sr. Dos Navegantes.
A lenda transmitida de geração em geração refere que os marítimos do rio Tejo recorriam frequentemente a N. Sr. Dos Navegantes pedindo proteção dos perigos do rio e agradecendo os seus milagres. É uma imagem em madeira, com a altura: 1,55 m, provavelmente do séc. XVIII e representa Cristo amarrado à coluna, ou a flagelação de Jesus, um episódio bíblico inserido na Paixão de Cristo. Esta cena aparece frequentemente na arte cristã como um dos grandes temas nos ciclos da vida de Cristo.
É uma imagem muito pesada pelo que não saía em procissões pois era difícil a colocação e o seu transporte em andor.
Recordo que a iconografia do Senhor dos Navegadores em Paço de Arcos, e em Ílhavo, é uma imagem do Senhor Crucificado, como acontece na Barquinha
Diz a tradição popular que sendo uma imagem de grande porte esta escultura estaria, originalmente, ao culto no Convento de Nossa Senhora do Loreto, localizada junto ao castelo de Almourol. Certo que é uma imagem da paixão, com Cristo atado à coluna, pelo que devia ser um bom ouvinte dos marítimos do rio nos pedidos de proteção ou momentos de aflição ou naufrágios. Junto ao seu altar, há um quadro pequenino com uma pintura naïf de um registo de milagre e agradecimento.
Pintura existente
De registar uma pintura existente no lado direito da Igreja Matriz, lado do Epistola que é de Francisco António Marques, pintor surdo-mudo e barquinhense. Segundo Vítor Serrão,17 é uma réplica de Willen van Herp (1614-1677), pintura feita em Antuérpia, em meados do século XVII, da qual existe uma versão autografada em cobre, nos acervos do Mosteiro dos Jerónimos, que podia ter servido de modelo ao pintor.
Este era natural e morador nesta vila da Barquinha tendo efetuado, e autenticado, esta tela de S. António, no ano de 1856. O seu nome não é referido no Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses, de Fernando Pamplona.
Conclusão.
O instinto criativo barquinhense não se esgotou no comércio, nas encostas alcantiladas e na margem do rio, mas despertou, também, nas obras religiosas terminando na magnificência da sua Igreja Matriz.
FONTES / BIBLIOGRAFIA
1. CHAGAS, Manoel Pinheiro, Diccionario Popular, 3.º volume, 1878
2. Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa (AHPL), Liv.º 6º do Registo Geral (ms. 702), Fl. 197v. agradecimento a Rui Manuel Mesquita Mendes e Bispos e Arcebispos de Lisboa / Centro de Estudos de História Religiosa; Dir. João Luís Inglês Fontes; coord. António Camões Gouveia, Maria Filomena Andrade, Mário Farelo. – Lisboa: Livros Horizonte, cop. 2018
3. CUNHA, Xavier. O Cemitério de Vila Nova da Barquinha e as modificações que urgentemente cumpre imprimir-lhe: relatório apresentado à camara municipal do respetivo concelho em agosto de 1870, Lisboa, Imp. Nacional, 1878
4. Irmandades existentes na Barquinha e referidas no livro de atas da Correspondência enviada ao Governado Civil, Ofício.º 36, de 1854
5. Ofício n.º 59 de 31/7/1856. Livro de atas da correspondência enviada ao Governado Civil. 1854 a 1857
6. POITOUT, Manuela. Planta de Expropriações da construção do caminho de ferro do concelho da Barquinha – IP Património, Lisboa. Nas Jornadas de História Local de 28/3/2026, “A construção do caminho de ferro no concelho da Barquinha: expropriações, alterações territoriais, e reação das populações”.
7. ROLDÃO, António. Jornal Novo Almourol, nº 50, janeiro de 1985
8. Oficio n.º 64, de 25/8/1856. Livro de Atas da Correspondência para o Governador Civil. 1854 a 1857
9. Oficio n.º 24, de 11/3/1859. Livro de Atas da Correspondência para o Governador Civil. 1854 a 1857
10. ROLDÃO, António Luís – Barquinha, Crónicas Históricas II, Vila Nova da Barquinha, Câmara Municipal, 2020
11. Ata n.º 98, da correspondência para o Governador Civil. Livro 1857 a 1863
12. Novo Almourol, n.º 75, fevereiro de 1987
13. Arquivo e Biblioteca Digital da Secretaria Geral do Ministério das Finanças
14. Diário do Governo n.º 58/1928, Série I, de 12/3/1928 e Diário do Governo n.º 1/1928, Série I de 3/1/1928
15. Ata de 9 de março de 1860. Correspondência enviada ao Governador Civil. Livro de 1857 a 1863
16. Arquivo e Biblioteca Digital da Secretaria Geral do Ministério das Finanças
17. BISPO, Maria; COUTO, André; CLARA, Maria do Céu & CLARA, Luís (coord.). O Gesto e a Palavra I. Antologia de Textos Sobre a Surdez Ed. Editorial Caminho, 2006




