Nos Valhascos ou em qualquer outra aldeia do Médio Tejo vivem muitas pessoas que não têm carro. Nunca tiveram e já não esperam vir a ter. Porque já têm alguma idade e tirar a carta e ter um carro nunca foi opção. Ou porque, mesmo tendo menos idade, a vida não o permitiu. Alguns têm umas motoretas, que dão para as viagens mais curtas. Outros vão muitas vezes a pé, por longos caminhos, esperando que, com sorte, apareça uma boleia.
Foram-se habituando a viver na sua aldeia. Nuns casos há mercearias, noutros as compras têm que ser feitas naquelas carrinhas do peixe e da fruta que lá vão uma vez por semana. Provavelmente, com produtos mais caros, porque a deslocação também se paga. As idas aos médicos, às farmácias, aos bancos ou a serviços para tratar de papeladas são uma tarefa que quem vive nas grandes cidades nem imagina.
Sim, quem vive em grandes cidades pode levar uma ou duas horas a chegar a um determinado sítio, até para trabalhar. É certo! E ficam tempos infinitos no trânsito, seja em transporte público ou privado. É certo! E gastavam muito dinheiro nisso. Já não é tão certo assim! A generalidade das pessoas que usa os transportes públicos vai passar a pagar menos, graças a novíssima política de passes sociais para citadinos de primeira. Nada contra. Tudo a favor.
Entretanto, lá no interior, alguém falta a uma consulta no hospital, marcada há seis meses, porque os autocarros quase não existem, os familiares estão a trabalhar e não podem faltar, os vizinhos que dão boleia não estão disponíveis e os táxis custam 30 euros. A reforma não estica e a tal consulta, de que tanto precisava aquela pessoa, não se realiza. O que pensará esta pessoa quando vê na televisão a alegria dos citadinos de primeira com as poupanças que vão fazer com os novos passes?
Há os citadinos de primeira e os rurais de quinta categoria. Por muito que os autarcas das regiões tenham tentado implementar serviços como o transporte a pedido e circuitos de autocarros entre as três unidades hospitalares do Médio Tejo, os cidadãos desta região estão muito longe de ter as mesmas condições de acesso a assistência médica – tão só por questões de transporte – quanto têm os cidadãos que vivem em centros urbanos.
Como se criou o cheque dentista para que todos possam ter os mesmos cuidados básicos de higiene oral, também de deveria criar qualquer coisa como um cheque transporte que permitisse que estas pessoas pudessem deslocar-se aos sítios onde estão os seus cuidados primários de saúde. Mas estas pessoas são, quase sempre, velhas e pouco interessadas nas coisas da política. Sobretudo, são pessoas que se habituaram a resignar-se. Não fazem barulho.
Um passe para circular em todos os transportes, durante um mês, num concelho da grande Lisboa custa 30 euros. Recorde-se, o mesmo valor que alguém tem que dispor para ir a uma consulta. Poderia interessar fazer contas aos votos de uns e de outros. Mas talvez fosse mais interessante fazer contas às receitas e despesas de uns e de outros para se ver como fica a justiça social.
