Foto: CCCD Alferrarede-Velha

Há projetos que nascem para competir e outros que nascem para reunir pessoas. Em Alferrarede-Velha, o regresso do futebol sénior representa sobretudo a vontade de recuperar o convívio, fortalecer a identidade da comunidade e devolver ao Centro Cívico, Cultural e Desportivo de Alferrarede-Velha muito mais do que uma equipa: um motivo para voltar a juntar pessoas.

À frente deste regresso está Diogo Rosado. Aos 39 anos, é um nome bem conhecido do futebol distrital, mas apresenta-se, antes de tudo, como alguém profundamente ligado à terra que escolheu como sua. Nasceu em Guimarães, numa altura em que o pai representava o Vizela, mas a infância foi marcada pelas mudanças constantes impostas pela carreira de futebolista profissional do progenitor.

Viveu em Barcelos durante os anos em que o pai jogou no Gil Vicente e acabou por chegar a Alferrarede-Velha aos nove anos. Nunca mais saiu. “Estou aqui desde os meus nove anos, já são 30 anos e aqui estou. Acho que já faço parte desta família, desta terra”, afirma, deixando claro que foi aqui que construiu as suas raízes.

A ligação ao desporto começou ainda antes de aprender a perceber a dimensão que o futebol teria na sua vida. “Já jogo à bola desde que me lembro de ser jovem, desde os meus seis anos. Tenho uma vida desde sempre ligada ao desporto”, conta.

Diogo Rosado. Foto: mediotejo.net

Hoje trabalha no CRIA – Centro de Recuperação e Integração de Abrantes, é técnico de desporto e continua a conciliar a profissão com a paixão que o acompanha desde criança. Ao longo do percurso passou por praticamente todos os clubes do concelho e das redondezas, construindo uma carreira feita de muitas camisolas, muitos balneários e inúmeras amizades.

Jogou nos Dragões de Alferrarede, Benfica de Abrantes, Os Patos, UD Abrantina, Elétrico (Ponte de Sor), passou por concelhos como Mação e Gavião, tendo ainda uma passagem pelo futsal ao serviço do Fundão. Quando lhe perguntam se ficou algum clube por representar, responde entre risos: “Só o Tramagal é que eu nunca joguei. Foi o único do concelho onde nunca joguei a nível distrital.”

Depois de tantos anos a percorrer campos de futebol, regressar a Alferrarede-Velha tem um significado diferente. Não se trata apenas de voltar a vestir uma camisola, é regressar ao lugar onde mais gostou de jogar e onde acredita que faz sentido fechar um ciclo. Mas este projeto não nasceu apenas da vontade de competir. Nasceu, sobretudo, da vontade de voltar a dar vida à terra.

Foto arquivo: desportoemabrantes

O Centro Cívico, Cultural e Desportivo de Alferrarede-Velha teve uma equipa de futebol sénior durante quatro épocas, entre 2011 e 2015. O projeto terminou mais tarde, numa altura em que, como explica Diogo Rosado, “o futebol também é como a vida, é feito de ciclos e o ciclo tinha terminado”.

Durante cerca de onze anos, a ideia ficou suspensa. O futebol desapareceu, mas nunca deixou de fazer parte das conversas daquele grupo de amigos. Com o passar do tempo, muitos perceberam que as carreiras de jogador se aproximavam inevitavelmente do fim e começaram a sentir que talvez estivesse na altura de voltar a reunir esforços.

“Lembro-me perfeitamente. Estávamos ali às duas, três da manhã, o nosso grupo de amigos aqui de Alferrarede-Velha, e alguém perguntou: ‘Porque não fazemos aqui uma equipa?'” recorda.

Campeões da InCup 2013/2014. Foto arquivo: desportoemabrantes

“Já estamos todos numa reta final. Seria o momento certo de fazermos, como costumam dizer os ingleses, a ‘last dance'”, diz. O regresso não foi pensado para satisfazer uma nostalgia pessoal. Foi pensado porque todos acreditavam que Alferrarede-Velha precisava novamente de um motivo para juntar pessoas.

“A nossa terra infelizmente está muito parada. As pessoas não estão muito ligadas à terra e o futebol trazia isso, acho que pode voltar a dar essa vida”.

Curiosamente, o projeto até esteve perto de regressar um ano antes. A intenção existia, mas vários imprevistos acabaram por adiar os planos, nomeadamente o facto de muitos jogadores já terem assumido compromissos com outras equipas. Foi apenas no início deste ano, entre fevereiro e março, que tudo começou finalmente a ganhar forma.

“Juntámos aquele grupo e achámos que seria o momento certo. Estamos a falar de há três ou quatro meses”, explica. A partir daí, o processo acelerou rapidamente. Diogo Rosado assumiu a liderança da componente desportiva, começou a contactar antigos companheiros, amigos de infância e jogadores que conheceu ao longo de décadas ligadas ao futebol.

“Consegui que os meus amigos de infância voltassem, que os meninos da terra façam parte do projeto e que eles sejam o futuro. Depois, um grupo de amigos que o futebol me deu também vem ajudar a nossa terra.”

Mais do que formar um plantel, a prioridade passou por reconstruir uma identidade. A equipa representa oficialmente o Centro Cívico, Cultural e Desportivo de Alferrarede-Velha, coletividade oficialmente fundada a 17 de abril de 1994, que ao longo da sua história dinamizou diferentes secções, como o rancho folclórico, grupos de danças, pesca, cicloturismo, atletismo e futebol.

Agora, é precisamente essa secção que regressa, mantendo intactas as cores verde e branca que sempre identificaram a coletividade.

Foto: mediotejo.net

Ao ouvir Diogo Rosado falar, percebe-se rapidamente que o futebol é apenas o ponto de partida. Em quase todas as respostas, a conversa acaba inevitavelmente por regressar às pessoas. Aos amigos que voltaram a encontrar um projeto comum, aos jovens que se juntaram pela primeira vez, à população que há muito deixara de ter uma equipa para apoiar.

O objetivo nunca foi apenas ganhar jogos, foi devolver uma rotina à localidade, criar um espaço de convívio e recuperar um sentimento de pertença que, acredita, se foi perdendo ao longo dos anos.

“Mais importante do que ganhar é saber que vai haver futebol em Alferrarede-Velha. As pessoas da terra vão poder ir ao sábado ou ao domingo ver o futebol, vão voltar a encontrar pessoas que já não veem com tanta frequência. Isso é o mais importante”, resume.

Foto: CMA

Porque, no fundo, há muito que este projeto deixou de ser apenas sobre futebol. É sobre uma terra que procura voltar a encontrar-se à volta de um campo, de uma camisola e de um emblema que nunca deixou verdadeiramente de lhe pertencer.

O entusiasmo com que o projeto começou a ganhar forma depressa esbarrou, no entanto, na realidade de quem decide criar praticamente do zero uma equipa de futebol amador. Encontrar jogadores acabou por não ser o maior desafio, esse surgiu quando foi preciso começar a fazer contas.

Equipamentos, inscrições, material de treino, deslocações, seguros e toda a logística associada obrigaram a procurar apoios antes mesmo de a bola começar a rolar.

“Os maiores obstáculos foi voltarmos a começar do zero, nomeadamente a parte financeira”, admite Diogo Rosado. Ainda assim, confessa que a resposta da comunidade superou todas as expectativas. “As empresas e as pessoas têm-nos ajudado mais do que nós esperávamos.”

Foto: desportoemabrantes

Quem conhece o futebol distrital, neste caso a Liga Inatel, sabe que projetos desta dimensão vivem, quase sempre, da disponibilidade de quem lhes dedica tempo sem esperar nada em troca. Em Alferrarede-Velha não é diferente. “Andamos nisto por carolice… É mais pelo gosto”.

Para além dos apoios financeiros, a dificuldade passou também por encontrar pessoas disponíveis para assumir funções fora das quatro linhas, uma realidade comum nas coletividades de menor dimensão, onde cada elemento acaba por acumular várias tarefas.

Apesar disso, o projeto rapidamente começou a ganhar dimensão. A estrutura da direção do futebol é composta por um grupo de cinco elementos que trabalham em conjunto, sem uma distribuição rígida de cargos: Diogo Rosado, Bruno Bernardino, Fernando Rosado, Hugo Silva e Nuno Santos.

Paralelamente, existe toda uma equipa que assegura áreas como o bar, a cozinha, o marketing ou a publicidade, enquanto a direção da coletividade continua a ser liderada por Margarida Santos, presidente do Centro Cívico, Cultural e Desportivo de Alferrarede-Velha.

Dentro das quatro linhas, a resposta também foi imediata. Em poucos meses conseguiram reunir 28 atletas, um número que ultrapassou as expectativas iniciais.

“Já é um número bastante elevado, mas sabemos que nestas coisas começam 28 e nunca acabam 28”, comenta, entre a experiência de quem conhece bem a realidade do futebol distrital e a confiança de quem acredita que existe matéria-prima suficiente para construir uma época competitiva.

Foto arquivo: desportoemabrantes

Também a escolha da equipa técnica procurou respeitar a identidade do projeto. O treinador será Ivo Gil, alguém da terra e amigo de infância dos responsáveis pela iniciativa.

“Queríamos que fosse alguém da terra. É alguém que nos conhece e que tem as suas raízes aqui”, explica Diogo Rosado. Será acompanhado por dois treinadores-adjuntos, enquanto a procura por um massagista continua, precisamente porque nem sempre é possível remunerar quem desempenha essas funções.

Antes mesmo de começarem os treinos, houve uma preocupação considerada essencial: fazer com que todos se conhecessem. Embora cerca de 70% do plantel seja constituído por jogadores de Alferrarede-Velha, há também atletas provenientes de outras localidades, pelo que no dia 18 de julho realizaram um convívio de apresentação, pensado para criar laços entre quem vai partilhar o balneário durante toda a época.

“Acho que é importante todas as pessoas se conhecerem”, afirma. Os treinos arrancam oficialmente a 22 de agosto, seguindo-se um almoço de grupo, porque, para Diogo, o convívio continua a ser uma parte indissociável do desporto.

“Depois vamos a algum lado, fazemos uma atividade… Acho que uma parte importante do desporto é haver convívio.”

A estreia acontecerá apenas uma semana depois, a 29 de agosto, mas terá um significado que ultrapassa largamente o resultado. Nesse dia disputa-se um torneio de homenagem a Adelino Ferreira, conhecido por Adelino Pinga, antigo dirigente da coletividade, falecido entretanto, e que, garante Diogo Rosado, teria “todo o gosto” em assistir a este regresso.

“Será o nosso primeiro jogo, que não é oficial, mas será o regresso do futebol a Alferrarede-Velha”, afirma.

Sem campo próprio e perante a impossibilidade de utilizar o recinto dos Dragões de Alferrarede, devido à elevada utilização pela equipa e pelos escalões de formação, os jogos em casa serão disputados no campo de Rossio ao Sul do Tejo, propriedade da Câmara Municipal de Abrantes.

A intenção passa por jogar aos sábados à tarde, uma estratégia pensada para atrair mais público e gerar alguma receita para sustentar o projeto. “Queremos jogar aos sábados porque a maior parte das equipas joga ao domingo. Assim teremos mais gente a ver e conseguimos fazer mais receita”, explica.

Conciliar a responsabilidade de liderar o projeto com a vida profissional e a continuidade como jogador não parece preocupar Diogo Rosado. Depois de mais de três décadas ligadas ao futebol, garante que aprendeu a gerir o tempo e acredita que a paixão continua a ser a melhor forma de encontrar disponibilidade.

“Onde se gosta arranja-se sempre tempinho para fazer tudo”, diz, com naturalidade.

Se a organização lhe transmite confiança, é no momento em que fala da população que o entusiasmo se torna mais evidente. Desde que o projeto foi anunciado, as abordagens multiplicam-se. Em festas, nos cafés ou simplesmente na rua, há sempre alguém que pergunta onde será o primeiro jogo ou quando poderá voltar a ver uma equipa de Alferrarede-Velha entrar em campo.

Foto: mediotejo.net

Diogo acredita que parte desse entusiasmo se explica pela memória ainda viva da primeira passagem do clube pelo futebol sénior.

Apesar de nunca terem conquistado o campeonato da Inatel de Santarém, recorda que terminaram em segundo lugar e venceram todas as edições da INATEL Cup em que participaram, criando uma identidade competitiva que continua presente na memória de muitos adeptos. Mas faz questão de travar qualquer euforia antes de a bola começar a rolar.

Reconhece que foi reunido um plantel forte, mas lembra que “o futebol tem uma coisa bonita: nem sempre a melhor equipa ganha”. O objetivo passa por vencer, sem esconder essa ambição, mas nunca colocando os resultados acima daquilo que considera verdadeiramente importante: as pessoas.

Quando lhe perguntam onde gostaria de ver o projeto dentro de cinco anos, a resposta revela, talvez, a verdadeira dimensão deste regresso. Não fala primeiro de vitórias ou de troféus. Fala dos jovens da terra, dos rapazes que hoje têm pouco mais de 20 anos e que começaram agora a integrar a equipa. Gostava que fossem eles, daqui a alguns anos, a assumir o lugar que hoje pertence à sua geração.

“Nós iremos deixar de jogar, é a lei da vida, mas gostava que eles daqui a cinco anos aqui estivessem. A terra precisa deles. A terra precisa do futebol, porque o futebol tem essa capacidade de unir as pessoas e de mostrar os bons valores.”

Só depois deixa escapar um desejo que qualquer jogador compreenderá. Que, quando esse dia chegar, haja também uma taça de primeiro lugar para celebrar. Mas, nessa altura, talvez o troféu mais importante já tenha sido conquistado muito antes: devolver à comunidade um pedaço daquilo que julgava perdido.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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