As eleições presidenciais tiveram o seu desfecho logo à primeira volta. Marcelo Rebelo de Sousa concretizou o seu objetivo, cuidadosamente traçado há muito tempo e meticulosamente concretizado ao longo de anos, na televisão, todas as semanas, onde criou uma empatia com os diversos eleitorados e onde, sem contraditório, tornava a tarefa de demonstrar as contradições do “comentador” uma tarefa quase impossível.
De registar o grande resultado de Marisa Matias. Uma campanha que conseguiu marcar e segurar um espaço político na sociedade portuguesa. Este espaço político, à esquerda tem ainda muito para dar e para crescer. Marisa Matias foi frontal nas suas posições políticas e com isso marcou desde o início o ritmo da campanha. Foi a única com uma posição clara sobre o orçamento retificativo do BANIF, foi a única que condenou sem peias as subvenções vitalícias. Esta frontalidade e a “nova forma de fazer política” com que se apresentou ao eleitorado deu os seus frutos e foi recompensada, não há como negá-lo.
Maria de Belém esgotou-se pelas suas próprias mãos, não trazia alternativa, apenas trazia a divisão do seu partido e o facto de ter subscrito, sem divulgar, o pedido de fiscalização ao Tribunal Constitucional sobre as subvenções vitalícias, foi fatal. Edgar Silva não convenceu nem sequer o seu partido e eleitorado. Faltou-lhe clareza e futuro.
Não concordo com a ideia de que um só candidato da esquerda teria feito frente a Marcelo Rebelo de Sousa. O honroso resultado de Sampaio da Nóvoa mostra isso mesmo. Todos tinham o seu papel ao chamar todo o eleitorado, incluindo aquele que se abstém, de modo a forçar uma segunda volta. Marisa Matias cumpriu o seu papel.
Marcelo foi eleito à primeira vota, com uma abstenção record numa primeira eleição. É uma derrota para a esquerda, cuja análise, ainda vai fazer correr água por debaixo de muita pontes.
Mas o dia seguinte a estas eleições é marcado por outro facto: os vetos de Cavaco Silva. Cavaco é passado, é verdade, mas mesmo antes de passar a ombreira da porta, com níveis de popularidade negativos, não resiste a deixar a sua marca, o seu rancor vingativo em relação aos tempos que se vivem. Não aceita a nova realidade, o novo governo e a nova maioria. Não tolera as suas ideias e não aceita as decisões da nova maioria no Parlamento, por isso veta a revogação das alterações à Lei do Aborto (lembremos que foram aprovadas no último dia da anterior legislatura e cujo objetivo era introduzir a humilhação e menorização das mulheres que decidem abortar) e veta a possibilidade de adoção por casais do mesmo sexo. Cavaco esteve sempre contra as mulheres e vetou todas as leis que significaram um avanço democrático e de direitos – Paridade, divórcio, uniões de facto. Cavaco foi do princípio ao fim defensor do modelo de família hipócrita, de aparências, onde a felicidade conta pouco. E fez questão de deixar isso bem claro, no último dia.
Oxalá a Assembleia da República reconfirme estas Leis rapidamente e Cavaco seja obrigado a colocar a sua assinatura nelas. É que o tempo não pára e as pessoas não podem esperar.
