Na fábrica da Renova, Igor Jesus transforma uma residência artística num laboratório de criação. Foto: mediotejo.net

O artista chegou à Renova com um “guia”, um conjunto de ideias para um projeto que apresentará em outubro na Cordoaria Nacional, em Lisboa. Mas aquilo que estava desenhado no início de junho, quando começou a trabalhar na fábrica da Zibreira, já não é exatamente aquilo que está agora a construir.

“Eu vim com um guia, mas esse guia é só um enunciado e eu estou permeável a essas mutações”, explica. A fábrica introduziu novas variáveis, da escala ao peso, e uma das peças que trazia pensada “já não vai ocorrer de todo”. Nasceu outra, precisamente a partir desse processo de transformação.

“Existe uma exposição final todos os dias nova”, diria mais tarde o artista, embora garanta que a visão global da exposição permanece definida na sua cabeça. As duas ideias não são contraditórias. Para Igor Jesus, a obra está viva enquanto é feita.

Há uma exposição que, na cabeça de Igor Jesus, já existe. Só que todos os dias é uma exposição diferente.

É essa condição de permanente mudança que ajuda a explicar a presença do artista há vários meses dentro de um enorme espaço industrial da Renova, na Zibreira, onde o passado e o presente da empresa convivem com o trabalho de criação.

A própria história do lugar ajuda a perceber a dimensão dessa experiência. A atividade papeleira junto à nascente do rio Almonda remonta a 1818 e, já no século XX, a Renova instalou ali a primeira máquina de papel verdadeiramente industrial, que iniciou a produção em 1951.

Foto: mediotejo.net

Para quem vem da escultura, como Igor Jesus, é difícil permanecer indiferente àquele cenário.

“Todo o edifício é escultórico, a máquina é escultórica, os pilares são escultóricos”, diz. O que mais lhe interessa não é necessariamente a matéria-prima produzida pela Renova, mas “a fisicalidade do edifício”, os cilindros das máquinas, as caixas de transporte e os objetos industriais que encontrou no espaço.

É aí que a fábrica começa, discretamente, a deixar a sua impressão digital no trabalho.

Não há, garante o artista, uma relação conceptual direta entre as esculturas e o papel produzido pela Renova. Mas a escala do edifício e dos equipamentos influenciou o tamanho das peças: “Eu estou a produzir com o corpo e o espaço influencia essa relação do corpo com as peças.”

E a própria estrutura encontrada na fábrica acabou por entrar no método de construção. As caixas utilizadas para transporte deram-lhe uma solução para criar os esqueletos das esculturas de forma mais prática, rápida e económica, permitindo também desmontá-las e transportá-las depois para Lisboa.

Cinco ou seis esculturas e toneladas de barro

O resultado é uma série de esculturas de barro de grande escala, que cruzam escultura e arquitetura. As formas obedecem a uma geometria arquitetónica, mas mantêm a maleabilidade do barro, uma matéria clássica da escultura. A exposição terá ainda componentes de fotografia, vídeo, instalação e som.

Estão previstas cinco ou seis esculturas. Mas também aqui o número não é inteiramente fechado.

Cada nova peça pode abrir um caminho para outra, explica Igor Jesus. Se surgir uma proposta que faça sentido, poderá ser integrada, desde que haja tempo e dinheiro para a concretizar.

A escala ajuda a perceber a ambição do projeto. Cada escultura chegou a estar pensada para pesar cerca de 59 toneladas. O artista conseguiu reduzir esse peso para aproximadamente duas toneladas e meia e ainda procura retirar mais, embora admita estar perto do limite.

A própria logística da exposição está a ser pensada desde a fábrica. As peças serão desmontadas, transportadas em estruturas próprias e montadas novamente na Cordoaria Nacional, onde terão a sua forma final.

A exposição está prevista para inaugurar a 14 de outubro, em princípio, num projeto desenvolvido a convite de Sara Antónia Matos, diretora da [DGA-GA] e com curadoria de Adolfo Insarte, segundo o artista.

Sair da zona de conforto para continuar a criar

A experiência na Renova encaixa, afinal, numa característica mais profunda do trabalho de Igor Jesus.

O artista evita definir a sua prática por uma única disciplina. Passou pela pintura, escultura, fotografia, vídeo e instalação e explica essa aparente dispersão pela necessidade de se colocar continuamente perante aquilo que ainda não domina.

Na fábrica da Renova, Igor Jesus transforma uma residência artística num laboratório de criação. Foto: mediotejo.net

Quando começa a sentir que uma matéria ou técnica se tornou demasiado fácil, perde o entusiasmo e procura outra zona de desconforto. Pode mudar a escala, a matéria ou a técnica. É nesse intervalo entre aquilo que sabe fazer e aquilo que quer fazer que procura os erros, as experiências e as possibilidades que alimentam o trabalho.

A residência na Renova oferece-lhe precisamente uma dessas zonas de risco, mas também algo que é particularmente escasso para um artista português: espaço para concretizar uma obra ambiciosa.

“Eu não poderia fazer isto num outro espaço, nem com esta ambição. É a Renova que permite que eu consiga fazer isso”, afirma.

O espaço cedido pela empresa é, por isso, uma parte essencial do projeto. Igor tem um ateliê de cerca de 400 metros quadrados em Lisboa, mas trabalha desde os tempos da faculdade com peças de grande dimensão. Recorda que a primeira tinha oito metros de comprimento por quatro de altura. Já então procurava espaços onde pudesse concretizar aquilo que queria fazer.

A residência começou no final de maio/início de junho e prolonga-se até meados de setembro.

Da distância ao café com os trabalhadores

Há outra consequência da residência que não estava necessariamente desenhada no projeto artístico: a aproximação entre o artista e as pessoas que trabalham na fábrica.

Nos primeiros tempos, conta Igor Jesus, alguns trabalhadores observavam-no à distância e pareciam ter receio de se aproximar. Um trabalhador que também desenha acabou por ir falar com ele e perguntar pelo trabalho. A barreira foi-se desfazendo.

As pessoas começaram a entrar no espaço, a perguntar como estava a correr o trabalho, a observar o processo e até a dar sugestões. Os cafés passaram a fazer parte da rotina e o artista chegou a ser convidado para festas de uma aldeia por algumas das trabalhadoras da limpeza.

“Agora já somos todos amigos, já vamos beber café”, conta, numa relação que passou da curiosidade e distância inicial para uma convivência quotidiana.

Na fábrica da Renova, Igor Jesus transforma uma residência artística num laboratório de criação. Foto: mediotejo.net

A influência não é, necessariamente, direta na criação. Mas há uma troca que a Renova também considera parte importante da experiência.

Uma fábrica que abre as portas à arte

Para Paulo Pereira da Silva, presidente do conselho de administração e CEO da Renova, a residência de Igor Jesus representa uma evolução na relação que a empresa mantém há anos com a criação artística.

A Renova tem utilizado projetos artísticos como parte da sua comunicação, através de encomendas a artistas de diferentes áreas, incluindo fotografia e dança. No caso de Igor, a lógica foi diferente: não houve uma obra encomendada pela empresa.

A ideia foi proporcionar a um artista as condições para desenvolver livremente o seu trabalho.

“O que eu gostava era de nós podermos ter contribuído para ele fazer uma obra que seja o melhor possível e que ele esteja satisfeito”, afirma Paulo Pereira da Silva.

Uma fábrica que abre as portas à arte. Foto: mediotejo.net

A empresa tem uma relação continuada com a arte através do programa Renova Art Commissions, que reúne trabalhos de disciplinas como arquitetura, dança, fotografia, instalação, joalharia, mobiliário, música e vídeo. A própria Renova define estas iniciativas como espaços de diálogo e criação capazes de confrontar a empresa com pontos de vista originais.

A fábrica já foi também espaço de criação do Bailado Renova, cujos ensaios e gravações decorreram nas instalações da empresa e deram origem a um tríptico apresentado em 2022.

No caso de Igor, contudo, Paulo Pereira da Silva sublinha a diferença: não é uma encomenda.

A expectativa é que o artista use “a sua criatividade e o seu talento ao máximo, na sua liberdade”.

“A nossa alma está aqui”

Essa disponibilidade para abrir a fábrica à criação está também relacionada com a forma como Paulo Pereira da Silva olha para a própria Renova.

Físico e engenheiro de formação, chegou à empresa vindo da Suíça e começou a trabalhar na produção há 42 anos. Desde 1995 lidera a empresa, que entretanto construiu uma marca internacional assente na inovação, design e diferenciação. O grupo tem hoje presença internacional em 70 países e cerca de 60% do volume de negócios era já proveniente da exportação em 2023.

Mas, ao falar da relação entre a Renova e a criação, Pereira da Silva regressa sempre à Zibreira.

“Não estamos em São Francisco, nem em Berlim. Mas podemos ter tudo o que os outros têm”, afirma, defendendo a possibilidade de criar valor internacional a partir de Torres Novas.

É também por isso que atribui importância ao espaço histórico da empresa. “O centro nevrálgico da Renova é aqui”, diz, referindo-se ao complexo onde a empresa nasceu e que continua a concentrar a sua atividade e identidade.

Foto: mediotejo.net

O edifício mãe foi sendo reabilitado sem apagar completamente as marcas da antiga fábrica. O chão mantém-se, as paredes foram pintadas, mas outros elementos foram preservados, numa opção que o CEO associa a uma ideia de reutilização e respeito pelo que já existe.

“A nossa alma está aqui”, resume. É nesse lugar carregado de memória industrial que um artista está agora a construir esculturas que, apesar de não serem obras sobre a Renova, dificilmente poderiam nascer exatamente da mesma forma noutro lugar.

Uma porta que pode ficar aberta

Paulo Pereira da Silva diz esperar que, no final, fique na empresa o orgulho de ter participado num processo de criação artística válido e de ter ajudado o artista a desenvolver o seu trabalho. Igor Jesus vai mais longe.

Para ele, o valor da residência não estará apenas nas obras que chegarem à Cordoaria Nacional. Está também nas relações que entretanto se criaram e na possibilidade de a experiência abrir as portas da Renova a outros artistas e projetos.

“Se isso possibilitar, por exemplo, abrir as portas da Renova para outros colegas meus, para outros projetos, eu já fico satisfeito de ter sido essa ponte”, afirma.

Fala de um “ecossistema” feito de pessoas, relações e possibilidades, num país onde, diz, os meios para criar são muitas vezes escassos.

Na fábrica da Renova, Igor Jesus transforma uma residência artística num laboratório de criação. Foto: mediotejo.net

Quando a exposição chegar à Cordoaria Nacional, em outubro, levará consigo as esculturas, fotografias, vídeo, instalação e som concebidos para esse espaço. Mas levará também, inevitavelmente, alguma coisa daquele enorme pavilhão industrial da Zibreira.

Não necessariamente o papel produzido pela Renova, nem uma imagem explícita da marca. Talvez algo mais difícil de medir: a escala do edifício, a memória das máquinas, a matéria, o espaço e as relações criadas durante meses de trabalho.

Porque Igor Jesus entrou na fábrica com um projeto na cabeça. Só que, como o próprio reconhece, a exposição final muda todos os dias.

E talvez essa seja precisamente a natureza da residência: a fábrica não recebeu apenas uma obra em construção. Durante alguns meses, tornou-se parte do processo que a está a criar.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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