Novo armazém em Almaraz vai receber resíduos nucleares de quatro centrais espanholas. Foto arquivo: DR

O Movimento Ibérico Antinuclear exige que o Governo português tenha uma posição firme em relação ao encerramento da central nuclear de Almaraz e vai transmitir esta posição na concentração agendada para quinta-feira, em Lisboa.

“O Governo português tem de colocar na agenda o encerramento de Almaraz e isso é o que exigimos e é fundamental”, disse hoje à agência Lusa António Eloy, daquele movimento que junta associações dos dois países ibéricos.

“Não podemos permitir isso [o prolongamento da central], o nosso Governo tem de ter uma voz firme”, alertou.

Aproveitando a reunião entre os ministros do Ambiente de Portugal e Espanha, marcada para quinta-feira, em Madrid, mas ainda não confirmada pelo governante português, o movimento vai realizar uma concentração frente ao consulado espanhol, em Lisboa.

Um dos temas do encontro ministerial seria a construção de um armazém para resíduos nucleares em Almaraz, a cerca de 100 quilómetros da fronteira, já decidida por Espanha, sem realização do estudo de impacto ambiental exigido pelas diretivas comunitárias.

Para António Eloy, “a questão do ATI (Armazém Temporário Individualizado) sem ser articulada com o fecho da central não faz qualquer sentido”.

“Havendo uma posição firme do Governo português isso pode mudar a situação em Espanha”, frisou.

“Neste momento, no parlamento espanhol há várias forças políticas, e alguns setores cidadãos, o que acaba por constituir uma maioria, que são a favor do estabelecimento de um calendário para o encerramento da central de Almaraz e também das outras” centrais nucleares, acrescentou António Eloy.

O ambientalista explicou que os licenciamentos das centrais em Espanha estão a chegar ao fim e “há duas hipóteses: ou são fechadas e desmanteladas ou continuam em funcionamento com os riscos associados a centrais velhas degradadas”.

Almaraz, continuou, “é uma central com um reator que tem tido um historial de problemas tremendo, tem tido paragens sucessivas, acidentes e incidentes, inclusivamente na escala internacional que define os acidentes nucleares”.

Se a reunião entre os dois ministros do Ambiente vier a realizar-se, o movimento pretende juntar algumas pessoas perto do local do encontro.

“Como vimos dizendo, inclusivamente ao ministro, desde meados do ano, desde abril, no parlamento, desde setembro que lhe pedimos uma audiência, a questão do ATI é a questão do prolongamento da vida da central de Almaraz”, salientou ainda.

Para os ambientalistas, a central coloca em risco não só o território espanhol mas também o português através da dispersão de radioatividade pela atmosfera e pelo Tejo, em caso de fuga radioativa ou de qualquer incidente.

O núcleo em Portugal da associação Marea Granate, que reúne espanhóis a viver em Lisboa, vai juntar-se aos defensores do encerramento de Almaraz, como refere uma informação enviada à Lusa.

“As decisões do governo espanhol nesta matéria vão contra as normativas vigentes pondo em risco a saúde pública de toda a população, colocando os interesses do setor elétrico acima do interesse geral, infringindo o direito internacional e gerando um conflito diplomático que envergonha muitos espanhóis e, em especial, a comunidade espanhola residente em Portugal”, aponta o texto.

O Movimento Ibérico Antinuclear agrega mais de 50 organizações ecologistas, cidadãos e partidos políticos espanhóis e portugueses e tem exigido, nos dois países, que não seja renovada a autorização da central de Almaraz, em Cáceres, que expira em junho de 2020.

Considera que a autorização de construção de um armazém “é abertura da porta para o seu funcionamento para além dos 40 anos”.

O ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, considerou que não havia razão para estar presente na reunião com a ministra espanhola, uma vez que a decisão de Espanha estava tomada, mas, na terça-feira, o ministro dos Assuntos Exteriores de Espanha disse que o Governo português vai participar.

Depois, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português confirmou que os Governos português e espanhol prosseguiram na terça-feira contactos para “criar as condições” para que o ministro do Ambiente luso participe no encontro.

 

Agência de Notícias de Portugal

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