André Ivo e Afonso Branco formaram os Miss Universo em 2024. Foto: mediotejo.locais.net/

Os Miss Universo nasceram em 2024, juntando a vontade de fazer música de André Ivo e Afonso Branco, hoje com 25 e 22 anos, respetivamente.

A dupla apresentou-se ao público com o single “Ser Português”, ao qual se seguiram “Canção da Rua” e “Estamos Entregues aos Bichos”, três avanços do que viria a ser o álbum de estreia, “Manifesto do Jovem Moderno”, considerado uma das grandes revelações da música portuguesa desse ano.

Na quinta-feira, dia 6 de agosto, os Miss Universo subiram pela primeira vez ao palco do Bons Sons, o festival bienal que há 20 anos transforma a aldeia de Cem Soldos, em Tomar, no palco da melhor música portuguesa.

mediotejo.locais.net/ – Esta é a vossa estreia a tocar no Bons Sons, mas já tinham estado no festival?

André Ivo – Eu nunca tinha cá vindo. É uma dupla estreia.

Afonso Branco – Eu já tinha vindo, mas a tocar é a primeira vez.

mediotejo.locais.net/ – E quando é que veio?

Afonso Branco – Há muitos anos. Vim com a minha mãe e com os meus irmãos. Foi um ano em que veio a Capicua e o Sérgio Godinho. Lembro-me de ser pequenino e de ver o Sérgio Godinho no mesmo palco onde vamos tocar hoje.

mediotejo.locais.net/ – Vocês têm ambos fortes tradições musicais na família, ao longo de várias gerações. Sentem que é uma herança determinante no vosso percurso?

André Ivo – Sem dúvida, acho que é um gesto geracional. Do meu lado materno tenho um avô e uma avó que eram os dois fadistas, por isso cresci muito próximo desse mundo. Do lado paterno, tinha um avô que não percebia nada de música, mas que sempre teve o sonho de tocar. Quando era muito jovem – se calhar mais novo do que eu sou agora – foi ao Alentejo comprar uma guitarra toda partida ao meio, que ainda temos guardada. Foi a partir dessa guitarra que o meu pai e o meu tio começaram a descobrir o mundo da música. Até aí, a minha família não tinha grandes aventuras nesse campo. Acho que essa vontade do meu avô se estendeu até mim, e há de estender-se mais para a frente. Por isso sim, há um embalo geracional, que levo com carinho, com gratidão, e responsabilidade, até.

Afonso Branco – Há dias contaste-nos este episódio, que é fascinante: vais tocar no Bons Sons porque há 50 anos o teu avô comprou uma guitarra e nunca chegou a aprender a tocá-la, mas queria que os filhos aprendessem. E é verdade que ter músicos na família ajuda bastante, mas o que mais desperta o interesse é a presença da boa música em casa, e as razões pelas quais a ouvimos e porque é que isso nos faz bem. Essa explicação não me foi dada por palavras, foi-me entregue pela minha família, fossem eles músicos ou não. É a verdadeira razão pela qual eu gosto tanto disto.

mediotejo.locais.net/ – Sente-se também nas vossas canções uma intenção, um sentido diferente para lá da estética sonora. Quando se juntaram, esse propósito já lá estava?

André Ivo – É uma pergunta interessante, porque acho que é um propósito que, apesar de acabar sempre por chegar ao mesmo sítio, vai tomando caminhos diferentes. Começámos esta banda naquela loucura de putos – era tudo muito descomplicado, íamos tocando e avançando. Uma das primeiras coisas que fizemos, já mais criativas, foi uma versão de Cesária Évora que parecia “Cesária Évora em ácidos”… uma loucura, dois minutos a divertirmo-nos, sem grande teoria ou razão por trás.

Afonso Branco – À medida que fomos desenvolvendo o percurso, tentámos focar-nos mais. Temos o privilégio de poder brincar com estas coisas, mas também achamos que somos pessoas com um certo foco e propósito, e quisemos ligar aquilo que fazemos a esse cuidado. Passámos por um período de procurar a mensagem, o propósito, de querermos ser porta-vozes de alguma coisa.

André Ivo – Mas a verdade é que, à medida que as coisas se desenvolvem, volta a sensação de que talvez o melhor é descomplicar: antes de olhar para o proveito coletivo que isto pode ter, tenho de perceber primeiro qual é o proveito individual. Uma reflexão sobre mim pode ser mais útil para o mundo do que uma reflexão minha sobre o mundo, e é por aí que nos estamos a direcionar.

Afonso Branco – É isso… fala da tua aldeia e falarás do mundo. A interpretação que se faz das nossas canções, ou da área onde nos possam enquadrar musicalmente, é uma interpretação que aceito por completo, mas acho que é uma consequência da razão pela qual fazemos isto – não a razão em si. E essas razões, para mim, resumem-se a três. A primeira é que faço música porque tenho muito prazer nisso. A segunda – e ao enumerá-las não lhes estou a atribuir importâncias diferentes – é que sentimos que isto é útil para alguém, não só para nós: se tocássemos só no nosso quarto, divertíamo-nos da mesma forma, mas a partir do momento em que sentimos que isto tem alguma utilidade na vida de outras pessoas (e as pessoas dizem-nos isso), há uma sensação de que vale a pena. E há uma terceira razão muito importante: fazemos música porque nos deixam, porque podemos. Não é só porque queremos. Temos instrumentos em casa, temos quem nos ajude a organizar a agenda de concertos, temos músicos que tocam connosco – uma série de condições que foram aparecendo e que queremos aproveitar ao máximo para cumprir a primeira e a segunda razões: sermos úteis para nós, para o nosso bem-estar, e para as pessoas, através das canções e dos concertos. Mas é muito importante termos consciência de que é porque podemos, porque tivemos muita sorte.

mediotejo.locais.net/ – Vocês já tiveram, no passado, de pôr a música em pausa por outras razões, nomeadamente académicas?

André Ivo – Sim. A música só é prioridade se eu quiser que seja. A cada momento tem de surgir algo que eu sinta – ou que o Afonso sinta – que pede um foco específico, e é isso que faz sentido eu concentrar-me nessa altura. A música tem de ganhar essa lealdade, ou passar para segundo plano quando é preciso.

Afonso Branco – Eu voltei a estudar. Já andava a estudar antes, e quando começámos a lançar canções foi um bom pretexto para deixar aquilo que andava a fazer, porque contrariava uma série de coisas em que acredito na música. Isso permitiu-me voltar a estudar música de uma forma mais de acordo com aquilo em que acredito, mesmo quando é para discordar, e discutirmos isso. Este ano decidimos abrandar um pouco, também porque há algo interessante em nós: nunca fomos, durante muito tempo, uma “banda de garagem”. Sofremos pouco com aquela fase de suar a camisola, de pagar aos músicos do próprio bolso, um pão com manteiga e queijo para cada um. Passámos pouco tempo nessa fase, e é preciso ter noção de que isso também é sorte. Isso permitiu-nos pôr os pés na terra um pouco mais cedo: se não tenho nada para dizer às pessoas com estas canções, não o vou fazer só para receber dinheiro. Prefiro ouvir, descobrir, fazer outras coisas. Por isso, a pausa na música nunca é uma pausa – é uma continuidade, um respeito pela música.

André Ivo – Neste momento não estou a estudar, mas já estudei. Tirei Cinema antes de começarmos com os Miss Universo, por volta de 2022, e a partir daí passei a trabalhar também na área do audiovisual, que concilio com a música.

mediotejo.locais.net/ – Já conseguem viver só da música?

André Ivo – Monetariamente, ainda não.

mediotejo.locais.net/ – Há novidades a caminho, novas canções?

Afonso Branco – Este ano não vamos lançar nada de novo, mas temos vindo a compor com muita naturalidade, sem os clichés dos artistas sobre o que é ou não “oficial” – fazemos canções porque nos apetece, porque nos encontramos. Além de duas canções novas que já tocámos nos últimos dois concertos, hoje vamos tocar uma canção que nunca tínhamos tocado, feita há relativamente pouco tempo. Quando chegar a altura, lançamos.

mediotejo.locais.net/ – Esse processo de criação e composição é só vosso, ou envolve a banda que vos acompanha ao vivo?

Afonso Branco – É nosso. Depois há que reconhecer o trabalho extraordinário e o privilégio que é ter esta banda que nos acompanha, que consegue desenvolver e abrir horizontes que nós, sozinhos, não teríamos.

mediotejo.locais.net/ – Quantos são, ao todo, em palco?

André Ivo – Somos cinco, desde há dois anos, sempre com as mesmas pessoas: o Dani nas teclas, o Xavi no baixo e o Manu na bateria. Somos cinco pessoas muito diferentes. Mesmo entre mim e o Afonso há muita diferença naquilo que gostamos de tocar e de ouvir, e vamos contaminando-nos uns aos outros. Temos um baterista que vem do metal, um baixista que vem do funk… para ele música é amor, está sempre a curtir. O teclista vem do clássico, mas, entretanto, passou para a música mais eletrónica. Tentamos unir esses mundos: no nosso concerto há referências a Manuel Cruz e a Bach, mas também aos Slipknot. Isso enriquece muito a música. É uma espécie de poligamia sonora.

mediotejo.locais.net/ – Em relação ao Bons Sons, quais são para já as vossas impressões do ambiente em Cem Soldos? E até quando vão ficar?

Afonso Branco – Vamos ficar até ao fim, até domingo. Queremos ver tudo. Esse é, aliás, um lado muito interessante neste festival: o facto de não haver mais do que um concerto a acontecer ao mesmo tempo… algo que, noutros locais, é um caos, e quase uma falta de respeito, com as pessoas a serem obrigadas a escolher entre concertos em simultâneo. Aqui respeita-se o tempo de cada concerto. É mais uma boa particularidade do Bons Sons.

André Ivo – Eu nunca cá tinha estado e já sei que daqui a dois anos tenho de voltar. Surpreendeu-me que a noite que antecede o primeiro dia do festival [quarta-feira, dia 5 de agosto] fosse já tão potente e tão divertida. Há aqui uma sensação de comunhão enorme, um regime delicioso de partilha. Toda a gente está a respirar o mesmo ar, sabemos que estamos todos envolvidos numa espécie de festa transcendental e coletiva. É muito bonito celebrar assim a música portuguesa, e é um privilégio poder fazer parte desta comunidade.

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Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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