Publicado em maio pela Associação Tagus, no número 66 dos Cadernos Culturais, “Memórias de um Guarda-Rios – Narrativa Biográfica de Luís Alves – Rossio ao Sul do Tejo”, com autoria de João Monteiro Serrano, recupera uma história de vida marcada por uma profissão hoje extinta e pelo conhecimento de um território construído ao longo de décadas de contacto direto com o rio.
O livro percorre a família, a formação e a vida profissional de Luís Alves, mas dedica particular atenção à experiência enquanto guarda-rios, ao controlo e gestão da água, às alterações legislativas e às consequências das novas políticas para os rios, aos velhos hábitos e práticas, ao valor da experiência e aos sinais deixados pela natureza.
Foi a partir desse percurso que surgiu a conversa com Luís Alves, hoje com 81 anos, sobre uma profissão que descreve como tendo sido, acima de tudo, uma profissão de liberdade, mas também de responsabilidade, proximidade com as populações e conhecimento do território.
Luís Alves começou por organizar o arquivo da secção hidráulica do Tejo em Abrantes, que descreve como o segundo arquivo mais antigo do país, antes de assumir funções de guarda-rios.




A sua área de intervenção chegou a abranger troços entre Constância, precisamente a partir da ribeira de Alcolobre (ou ribeira da Coutada) para montante, incluindo Tramagal, Rossio, Pego, Alvega, Mouriscas e Mação, até à barragem de Ortiga/Belver, numa época em que a fiscalização dos cursos de água passava por uma relação diária com quem vivia e trabalhava junto ao rio.
“O guarda-rios conhecia tudo sobre o rio”, resume, recordando uma função que passava pela fiscalização da poluição e da pesca ilegal, mas também por resolver conflitos entre populações, acompanhar a utilização da água, conhecer os pescadores, as embarcações e os usos e costumes de cada localidade.
Mais do que levantar autos, diz, o objetivo era evitar que fosse necessário levantá-los.
“Era vigilante, mas ao mesmo tempo dava sugestões”, recorda, defendendo que o guarda-rios funcionava também como uma espécie de árbitro no território, procurando resolver localmente problemas que, de outra forma, poderiam acabar nos tribunais.
Uma profissão de prevenção
Entre as tarefas que recorda está a manutenção dos cursos de água antes do período das cheias, incluindo a limpeza do leito e a conservação da chamada maracha, a vegetação ribeirinha que protegia as margens.
“Até novembro, as pessoas tinham de desmanchar as obras provisórias feitas para captação de água e limpar o curso”, explica, lembrando que as silvas e ramagens que dificultavam o escoamento eram retiradas, mas que a vegetação das margens devia ser preservada.

Quando a maracha era destruída pelas águas, acrescenta, era replantada através da colocação de estacas e material vegetal, numa operação que hoje considera praticamente desaparecida.
“Há trinta ou quarenta anos que não se faz uma limpeza séria de um curso de água, que não se crava uma estaca de salgueiro para fazer maracha no Tejo”, afirma.
Para Luís Alves, esta diferença ajuda a explicar a sua visão sobre a prevenção. Preparar um curso de água para uma cheia não significava, na sua perspetiva, eliminar a vegetação ou artificializar as margens, mas conhecer o comportamento da água e intervir de forma a reduzir os danos.
“Prevenção, tal como a aprendi, é preparar tudo para que, quando os acidentes acontecem, tenham o menor impacto possível.”
É também nesta mudança de paradigma que situa parte da sua crítica ao desaparecimento da profissão. O antigo guarda-rios distingue a sua função da atual fiscalização policial do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA/GNR), lembrando que chegou a dar formação às primeiras patrulhas daquele serviço.
A legislação pode ser semelhante, diz, mas a relação com o território e com as populações é diferente. O guarda-rios era, na sua descrição, alguém que conhecia a sua zona, as pessoas e os problemas antes de estes se transformarem em processos.
Alcolobre como teste à fiscalização
É neste ponto da conversa que as memórias do passado encontram a atualidade. A intervenção realizada recentemente num troço de cerca de 300 metros da Ribeira de Alcolobre, entre Abrantes e Constância, e que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) considerou ter sido feita à revelia, provoca em Luís Alves uma reação particularmente crítica.
“A minha primeira reação foi de tristeza. Considero um abuso total sobre aquilo que é um bem público. É um crime”, afirma.




A Ribeira de Alcolobre atravessa um vale encaixado entre os dois concelhos e é reconhecida em documentos de planeamento de Abrantes e de Constância pelo seu interesse arqueológico, mas também ecológico e paisagístico, nomeadamente pela presença de uma robusta galeria ripícola ao longo da linha de água.
É precisamente essa galeria que Luís Alves considera não dever ter sido removida. Para o antigo guarda-rios, uma eventual limpeza do curso de água pode ser necessária, mas deve ser feita de acordo com as características específicas de cada ribeira e mantendo a vegetação das margens.
“Não me oponho a que se limpasse o leito da ribeira, mas nunca se devia mexer na maracha”, defende.
Luís Alves rejeita ainda a ideia de que a vegetação retirada possa simplesmente voltar a crescer em dois ou três anos. Segundo a sua experiência, a recuperação da galeria ripícola naquele tipo de terreno poderá demorar muitos anos e ficará particularmente vulnerável à ocorrência de uma cheia.
“É quase um milagre repor uma maracha destas em dez anos, quanto mais em um ou dois”, afirma.
A sua crítica coincide, no essencial, com as preocupações já manifestadas pelos autarcas de Abrantes e Constância, embora estes tenham adotado uma posição mais comedida sobre a intervenção, apontando a um “choque visual” mas remetendo apreciações técnicas para a APA, entidade que veio a público assegurar que a intervenção foi realizada sem o seu conhecimento e autorização.
Também o presidente da Associação de Agricultores, Luís Damas, se pronunciou sobre o caso, defendendo a intervenção realizada no âmbito da necessidade de viabilizar um projeto empresarial ligado à produção agrícola.
A posição, naturalmente condicionada pela responsabilidade de representação dos agricultores, contrasta com a leitura de Luís Alves, que considera que nenhum interesse individual ou empresarial pode justificar a remoção da galeria ripícola.
Luís Alves não desculpa quem avançou sem autorização, mas reconhece que existe outro problema: a demora dos processos administrativos e a dificuldade de quem tem projetos em obter respostas atempadas das entidades competentes.
“Não desculpo quem avançou à revelia, mas percebo a queixa generalizada de quem tem projetos parados por falta de resposta da APA”, afirma.
A solução, acrescenta, não pode passar por deixar os proprietários avançarem primeiro e legalizar ou reparar depois.
“Hoje não estamos a proteger absolutamente nada”
O antigo guarda-rios considera que a questão ultrapassa o caso concreto da Ribeira de Alcolobre. “Este caso revela que hoje não estamos a proteger nem as pequenas nem as grandes ribeiras – não estamos a proteger absolutamente nada”, afirma.
Para Luís Alves, o problema não está apenas na quantidade de legislação ou no número de entidades envolvidas, mas na capacidade de fiscalização efetiva e preventiva.
“Ter mais legislação e mais entidades ambientais não significa, na prática, mais proteção”, sustenta.
É também por isso que não defende simplesmente o regresso da antiga profissão tal como existia, mas a recuperação daquilo que considera ser a sua principal virtude: uma fiscalização próxima, conhecedora do território, preventiva e suficientemente independente das pressões económicas e políticas.
“Recuperaria uma fiscalização eficaz, amiga do ambiente e das pessoas, e humilde o suficiente para as ouvir e aprender com elas – mais próxima”, diz.
A Ribeira de Alcolobre torna-se, assim, o ponto de chegada de uma conversa que começa nas memórias de um homem e de uma profissão e acaba numa pergunta maior sobre o território: quem conhece hoje os rios e quem está efetivamente a cuidar deles?
Para Luís Alves, a resposta passa por voltar a valorizar a experiência de quem viveu e trabalhou junto aos cursos de água, sem a colocar em oposição ao conhecimento técnico.
“Temos de ouvir quem conhece o território, quem faz como sempre se fez”, defende.





E é nessa ligação entre memória, experiência e futuro que o livro de João Monteiro Serrano ganha uma dimensão que ultrapassa a biografia de Luís Alves: o relato de uma profissão desaparecida transforma-se também num testemunho sobre a forma como o país olha hoje para os seus rios, ribeiras, margens e comunidades.
