Uma operação de remoção de siluros realizada no rio Tejo, junto à barragem de Belver, em Mação, permitiu capturar 254 exemplares desta espécie invasora, totalizando 2,3 toneladas, num resultado considerado “histórico” pelos investigadores.
“Estávamos a prever retirar cerca de 700 quilos. Retirámos mais do que três vezes aquilo que era esperado”, disse à Lusa Filipe Ribeiro, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigador do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), considerando que os resultados “excederam as previsões otimistas” da equipa.
A ação decorreu numa extensão de cerca de 4,5 quilómetros do rio Tejo, entre a ponte de Belver e a barragem localizada junto à freguesia de Ortiga, no concelho de Mação, no âmbito do projeto europeu Life Predator.




Segundo Filipe Ribeiro, coordenador nacional do projeto, a operação mobilizou cerca de 70 pessoas, incluindo pescadores profissionais e a equipa do projeto europeu Life-Predator, assistidos por Vigilantes da Natureza do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, e por elementos do corpo nacional de agentes florestais da Região de Lisboa e Vale do Tejo.
A ação contou ainda com o apoio dos municípios de Mação e Gavião, Junta de Freguesia de Ortiga, GNR/SEPNA de Abrantes, e EDP, na gestão e controlo do débito de água das barragens.
A intervenção decorreu ao longo de dois dias, embora os resultados divulgados correspondam a apenas um dia efetivo de pesca.
Para Filipe Ribeiro, os números agora obtidos revelam uma abundância da espécie superior à anteriormente estimada. “Isto mostra que a população deste predador de topo, que não tem inimigos naturais, é muito maior ao nível do Tejo do que aquilo que estávamos à espera”, afirmou.




Com base nos dados recolhidos, os investigadores estimam uma densidade próxima dos 300 siluros por quilómetro quadrado na albufeira de Belver.
Extrapolando essa densidade para as albufeiras de Belver, Fratel e para o Tejo Internacional, Filipe Ribeiro admitiu que a população poderá ultrapassar um milhão de exemplares adultos.
“Muito provavelmente teremos uma população que não será inferior a um milhão de indivíduos de siluros adultos nestas três albufeiras”, sustentou.

ÁUDIO | FILIPE RIBEIRO, PROFESSOR UNIV. LISBOA E INVESTIGADOR DO MARE:
O investigador salientou que a espécie apresenta uma elevada capacidade de reprodução, podendo uma única fêmea produzir dezenas de milhares de ovos por ano, o que reforça a necessidade de ações regulares de controlo.
Originário da Europa de Leste, o siluro é considerado uma das espécies invasoras mais preocupantes dos ecossistemas fluviais portugueses, não possuindo predadores naturais relevantes nos sistemas aquáticos nacionais.
O impacto sobre a biodiversidade preocupa particularmente os especialistas, que apontam efeitos já observados em diferentes massas de água da bacia hidrográfica do Tejo.
Filipe Ribeiro referiu que o siluro se alimenta de espécies migradoras como a enguia-europeia, o sável, a lampreia e os barbos, peixes associados à biodiversidade, à atividade piscatória e à gastronomia tradicional das comunidades ribeirinhas.
“Estas espécies invasoras vieram para ficar e vamos ter de geri-las para sempre”, alertou.




Para o coordenador do projeto, a operação constitui um “recorde triste”, por evidenciar a dimensão já atingida pela invasão do siluro em vários troços do Tejo.
O investigador salientou, contudo, que a operação demonstrou ser possível remover grandes quantidades desta espécie através de ações concentradas no terreno, defendendo a continuidade deste tipo de intervenções.
A maior parte dos exemplares capturados foi encaminhada para uma empresa de processamento de biomassa piscícola.
Segundo Filipe Ribeiro, estão também a ser avaliadas formas de valorização alimentar desta espécie, já consumida em vários países da Europa Central e de Leste, desde que estejam asseguradas todas as condições de segurança alimentar.
Além das ações de remoção, o projeto Life Predator tem desenvolvido programas de sensibilização ambiental em escolas da bacia hidrográfica do Tejo, tendo já chegado a cerca de 5.000 alunos de mais de 60 estabelecimentos de ensino e de três dezenas de municípios.




A intervenção nesta albufeira foi desenvolvida em parceria com o projeto LIFE-PREDATOR (PREvent, Detect and combAT the spread Of Silurus glanis in south european lakes to protect biodiversity).
Este projeto transnacional (cofinanciado pela União Europeia e que em Portugal conta com a parceria da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa) tem metas muito claras, partilhadas com o ICNF:
Travar a Expansão: Diminuir ativamente a expansão desta espécie invasora no território português. Testar Metodologias: Desenvolver e testar métodos eficazes de controlo populacional de siluro, especificamente em áreas protegidas ou classificadas, e Avaliar a Eficácia: Monitorizar o impacto destas capturas para garantir a recuperação ecológica dos rios e lagoas do Sul da Europa.
A megaoperação em Ortiga, na Barragem de Belver, serviu como um passo prático e crucial para validar estes métodos de contenção, procurando devolver a sustentabilidade e a biodiversidade às águas do Tejo.
c/Lusa

E as leis (estúpidas) que não permitem pescar esta espécie com outra espécie invasora os alburnos. Vai, ou já está a acontecer, como os javalis, PRAGA, depois vai ser tarde. A boa maneira portuguesa, sempre a correr atrás da desgraça, numca a prevenir.
PARABÉNS pela iniciativa e envolvimentos dos vários parceiros. Assim os resultados alcançam-se. Que se repitam estás eficazes iniciativas nesta e em outras áreas necessárias.