Bênção do Gado de Riachos (Torres Novas) de 2016. Foto arquivo: mediotejo.net

“Ribatejo” significa “na margem do Tejo”. Existe desde o século XIII uma região ribatejana, que foi sendo constituída por uma população migratória e que alberga não só a lezíria, mas também a charneca e o bairro.

Delineado arbitrariamente pela geografia administrativa do Estado Novo, o Ribatejo está hoje subdividido em Médio Tejo e Lezíria do Tejo e em Turismo do Centro e Turismo do Alentejo. A identidade persiste, mas encontra-se perdida e algo confundida no emaranhado das reformas administrativas.

Voltar a unir uma região com características comuns para que se criem estratégias específicas de desenvolvimento é o debate que o Fórum Ribatejo propõe para este sábado, dia 2 de junho, em Alcanena. 

O mediotejo.net esteve à conversa com António Matias Coelho, historiador e coordenador do Fórum Ribatejo, que há anos defende uma união ribatejana. Esta é, porém, uma união com características específicas e que se encontra além das subregiões e respetivas comunidades intermunicipais ou desse Ribatejo deixado pelo Salazarismo.

O objetivo é colocar autarcas vizinhos e com uma identidade comum a discutir temas que são comuns e estruturantes, um desafio necessário ao desenvolvimento e que necessita de um novo olhar sobre uma região (ou mesmo sobre o país) que ainda se define em torno do distrito de Santarém.

António Matias Coelho defende a união da identidade ribatejana Foto: Manuel Fernandes Vicente.

Mediotejo.net (MT): O debate do próximo sábado chama-se “A Unidade do Ribatejo – como factor de desenvolvimento económico, cultural e social”. Estamos perante uma união por vários fatores, certo? O que se pretende exatamente?

António Matias Coelho (AMC): O tema tem uma leitura a montante e a jusante. O Ribatejo é uma parte do país que tem características próprias, características de natureza histórica, patrimonial, humana, com uma evolução longa. É uma parte do país com uma identidade própria, diferente das outras, sendo a única que está nesta situação que nós estamos de ter o seu território repartido por diferentes estruturas político-administrativas.

A forma como se organizou o território para efeitos do acesso aos fundos comunitários fez com que a parte norte do Ribatejo ficasse afeta ao Centro, virado para Coimbra, enquanto da Golegã está virada para sul, para o Alentejo e Évora. Depois Vila Franca de Xira está virado para Lisboa e há mais situações. É uma situação que é perniciosa porque põe concelhos do Ribatejo de costas voltadas uns para outros e impede a definição de uma estratégia comum a vários níveis. Isto não tem só a ver com fundos comunitários, diz respeito a tudo.

O Ribatejo deveria estar unido e não está. Eu não estou a imputar culpas a ninguém. Não está unido porque foi essa a posição assumida pelos dirigentes locais, que optaram por essa solução da qual se estão a ver agora os resultados. Por exemplo, não há um turismo do Ribatejo, há o turismo do Centro e o turismo do Alentejo.

“O que pretendemos é que o Ribatejo, seja qual for a região em que venha a ser integrado numa futura reorganização administrativa, seja integrado unido. Porque ao repartirem o território ribatejano enfraquecem a nossa capacidade de conversarmos uns com os outros”

Um exemplo paradigmático é o portão da Cardiga. Ao pé desse portão está um marco e duas placas, uma para a Golegã e outra para a Barquinha. É uma extrema entre dois concelhos vizinhos e ribatejanos os dois. Mas aquele marco tem sido a fronteira entre o Centro e o Alentejo, quando nem a Barquinha é Centro nem a Golegã é Alentejo. É absurdo.

O desenvolvimento económico, cultural e social do Ribatejo depende em grande parte da existência de canais de comunicação e decisão comuns a toda a região. Nós não reivindicamos que o Ribatejo se torne uma região sozinha, como o Alentejo ou o Algarve, porque não tem escala para constituir uma região.

O que pretendemos é que o Ribatejo, seja qual for a região em que venha a ser integrado numa futura reorganização administrativa, seja integrado unido. Porque ao repartirem o território ribatejano enfraquecem a nossa capacidade de conversarmos uns com os outros, de definirmos o nosso próprio futuro, o que nos prejudica de todos os pontos de vista.

MT: O painel tem um historiador, um geógrafo, um sociólogo e os representantes das comunidades intermunicipais. Qual o objetivo?

AMT: A presença dos responsáveis políticos da maior parte do território ribatejano é exatamente para trazer ao debate esta questão do ponto de vista político. São pessoas de áreas diferentes para permitir visões diferenciadas do nosso território e da nossa realidade.

MT: Qual a posição de concelhos como o de Ourém, que pertencia historicamente à Beira Litoral, nesta reorganização territorial? O que é afinal o Ribatejo?

AMT: Exatamente porque pode haver vários ribatejos nas nossas cabeças – em função do lugar onde estamos, da formação que temos, da forma como nos posicionamos – é devido a essa indefinição que nós no Fórum Ribatejo estamos empenhados em fazer um estudo ao nível dos 24 concelhos que nós consideramos que integram o Ribatejo. Será feito pelo Escola Superior de Santarém, com a nossa colaboração, sendo que o projeto foi aprovado no Orçamento Participativo nacional, com o nome “Identidades territoriais e sentidos de pertença na Região do Ribatejo”. Esse estudo pretende exatamente clarificar o que é o Ribatejo para as pessoas, em que partes do território, o que significa ser ribatejano e qual a percentagem de pessoas que se identifica como ribatejana.

Há concelhos que reivindicam o Ribatejo, fazem disso emblema. Vila Franca de Xira ou a Azambuja, que pertencem ao distrito de Lisboa, ninguém duvida que são concelhos ribatejanos. E não estamos a falar apenas dos touros e dos cavalos. Há esse cliché, que o Estado Novo também criou e difundiu, de associar excessivamente o Ribatejo à lezíria, aos cavalos e aos touros.

O Ribatejo é a lezíria, ninguém diz o contrário, mas não se esgota aí, tem muito mais para além disso. Tem a charneca, que é um espaço imenso que vai desde Abrantes até Benavente, e é aliás o maior território do Ribatejo, coberto de floresta. E o bairro, que é a parte norte do Ribatejo, que vai de Torres Novas ao Cartaxo e que é a zona mais povoada do Ribatejo. Esta ideia de que o Ribatejo é a lezíria, os touros e os cavalos, é minimalista.

“O Ribatejo é uma região migrante, que nasceu no estuário e foi arribando Tejo acima. É também uma região de migrações. Se olharmos para o mapa de Portugal vamos ver que o Ribatejo é o centro do país”

MT: Quais as características chave do Ribatejo, na sua opinião?

AMC: O Ribatejo é uma região migrante, que nasceu no estuário e foi arribando Tejo acima. É também uma região de migrações. Se olharmos para o mapa de Portugal vamos ver que o Ribatejo é o centro do país; é aliás a única região do país que não tem nem contacto com o mar nem fronteira com Espanha. É uma região interior, mas que tem um rio enorme, o Tejo, e terras férteis de ambos os lados e de fácil passagem. O Ribatejo sempre foi mais um sítio de passar do que de estar. Isto é uma grande via, um corredor de passagem. Se reparar, todas as grandes vias do país passam aqui.

Os trabalhos sazonais na lezíria durante muito tempo, os trabalhos braçais, exigiam mão de obra que aqui não havia e que vinha de todo o lado: do Alentejo, das Beiras. Aquela gente toda que nós ouvimos falar – os ratinhos, os gaibéus, os caramelos, os ganhões, as barroas – essa gente é gente que vinha da Beira Litoral, da zona da Figueira da Foz, de Soure, aqui do Pinhal, de Figueiró, de Ansião, até da Beira Baixa, do norte alentejano, e que confluíam para aqui para os trabalhos da agricultura (para a monda, as ceifas, a apanha da azeitona, para as vindimas).

Mas depois havia outra gente, que aqui também veio parar, que era a gente do próprio rio – os avieiros, os varinos, os murtoseiros – essa gente toda que era gente do litoral, que por causa das dificuldades da vida também vieram para esta zona, para pescar no Tejo.

A cultura do Ribatejo é assim uma cultura mesclada disto tudo. Ou seja, é a cultura resultante da particularidade deste território, que é uma espécie de uma grande “cadinho” onde tudo vem parar. Um território central para onde tudo conflui.

A cultura do Ribatejo possui todos estes particularismos, por isso é difícil definir. O que define o ser ribatejano e as características essenciais é o Tejo, com tudo o que ele significa. O Tejo e a fertilidade dos campos que lhe estão à margem, o Tejo como via de comunicação, o Tejo como recurso, o Tejo como factor da atratividade, como sempre foi e ainda é.

MT: Mas este projeto do Ribatejo unido que se pretende ainda vai ser o resultado do estudo que o Fórum Ribatejo quer fazer, certo?

AMC: Também. Nós queremos fazer o estudo exatamente para percebermos bem até onde as pessoas se sentem ribatejanas. Não queremos forçar ninguém a ser o que não se sente.

MT: Mas tendo em que conta que o Ribatejo é tão diverso, como esteve a explicar, será que algum dia vamos chegar a um entendimento?

AMC: Espero bem que sim. Todas as regiões são diversas, até o Algarve. O Algarve é considerado, de todas as regiões portuguesas do continente, a região mais uniforme. No entanto, há vários algarves: há um Barlavento e o Sotavento, que são diferentes um do outro; há o litoral e há a serra, o que é que Alcotim tem a ver com Tavira? O mesmo acontece com o Minho, o que é que Ponte de Lima tem a ver com Terras de Bouro?

“O que define o ser ribatejano e as características essenciais é o Tejo, com tudo o que ele significa. O Tejo e a fertilidade dos campos que lhe estão à margem, o Tejo como via de comunicação, o Tejo como recurso, o Tejo como factor da atratividade, como sempre foi e ainda é”

Em todas as regiões do país há diversidade. Mas existe um sentido unitário também, que todas elas têm. O que caracteriza as regiões é essa duplicidade, que é a diversidade por um lado e o sentido identitário da região por outro.

MT: Acabamos por falar de uma melhor reorganização do próprio país…

AMC: Claro. Mas há mais quem pense que o país precisava de uma volta e é urgente fazê-la. Por isso é que defendemos que quando ela se fizer tenham isto em conta. Tenham em conta que o Ribatejo deve transitar uno para uma mesma região.

MT: Disse-me que se tem notado, sobretudo desde o final do ano passado, que esta questão da desunião do Ribatejo é um problema. Onde se apercebeu desta discussão?

AMC: Notou-se porque há declarações públicas, de responsáveis políticos, a tomarem posição sobre o assunto e a manifestarem-se, como eu acabei de manifestar, que esta situação não é desejável, não é funcional, que prejudica os interesses do Ribatejo e deve ser corrigida. Os dois presidentes das comunidades intermunicipais falaram nesse sentido, a presidente da NERSANT falou nesse sentido, os responsáveis do turismo falaram nesse sentido. Há várias pessoas que têm tomado posições.

MT: Unir um território tão vasto não poderia trazer problemas ao nível dos fundos comunitários? As subregiões atuais são relativamente pequenas…

AMC: Não estou a defender que se mexa na organização das NUTS. A questão está em que elas não estejam separadas uma da outra. O que é necessário é reorganizar o território do ponto de vista das grandes regiões. Por exemplo, se o território ribatejano estivesse todo integrado no Alentejo, eu não achava que fosse um problema.

MT: Não?!

AMC: Não. Se o Ribatejo fosse uma parte da grande região do país chamada Alentejo, por mim estava bem. Não tendo o Ribatejo dimensão para ser uma região sozinha, tem que estar nalgum sítio. Olhando para o mapa atual da divisão das regiões portuguesas, aquilo que eu acho é que o Ribatejo deveria estar no Centro ou no Alentejo.

MT: Desde que esteja junto…

AMC: Desde que esteja junto! O problema é a separação. Mas não estou a defender que se integre no Alentejo, estou a só dar isso como exemplo. Mas há outras soluções que se apontam…

MT: Podemos concluir que este Ribatejo que herdámos é uma ideia do Estado Novo?

AMC: O Ribatejo no mapa de Portugal não existe, foi extinto depois do 25 de abril. Mas as pessoas continuam a dizer que são ribatejanas. Desapareceu do mapa mas não da cabeça das pessoas, da identidade coletiva. Se calhar o Ribatejo faz falta às pessoas, para saberem quem são.

E que Ribatejo é esse? É a província do Ribatejo criada pelo Estado Novo em 1936. Que vingou. O Estado Novo tinha uma extraordinária máquina de propaganda e conseguia criar estereótipos muito fortes. Que foram muitíssimo bem entranhadas no sentido coletivo.

“O Ribatejo não é uma criação do Estado Novo, é uma realidade que existe no nosso país desde o século XIII. O que o Estado Novo fez foi a fixação na lei dos limites, dos concelhos integrantes”

MT: Mas faz sentido então falar num Ribatejo se foi uma criação do Estado Novo?

AMC: O Ribatejo não é uma criação do Estado Novo, é uma realidade que existe no nosso país desde o século XIII. O que o Estado Novo fez foi a fixação na lei dos limites, dos concelhos integrantes. Existia a ideia Ribatejo e existiam terras com o nome Ribatejo, como Alverca do Ribatejo, Castanheiro do Ribatejo, etc.

MT: Faz um pouco de confusão porque são terras que na sua maioria estão hoje em Lisboa e não nesta zona dos distrito de Santarém…

AMC: Mas se for ao concelho de Vila Franca, e é isso que queremos ver no estudo, vai ver que muita gente, nas camadas tradicionais, se sentem ribatejanas, apesar de não estarem ligadas a Santarém. Porque o Ribatejo não se esgota em Santarém. O Ribatejo não é o distrito de Santarém.

O Ribatejo é o distrito de Santarém, mas não todo, e mais alguma coisa.

MT: Estamos a falar então do regresso de uma identidade?

AMC: Estamos a falar do reconhecimento de uma identidade e da necessidade da organização administrativa respeitar essa identidade e não a partir. Que é a situação em que nós estamos.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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